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IMRE KERTESZ, Livro “Sem Destino”.

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Tipo: Livro ” Sem destino”.

O autor: é Imre kertesz – prémio Nobel da literatura de 2002.

Pagina editorial Presença aqui.

Bbc a falar de Kertesz -2002

Entrevista de Imre Kertesz, em 2004 , no Harriman Institute, a não perder.

De passagem e pela amostra deste livro o prémio Nobel atribuído é inteiramente merecido. É um escritor de uma densidade fantástica, imensa, capaz de escrever de forma poderosa, mas sempre contida.

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Quanto ao livro Kertesz publicou originalmente este livro pelos idos de 1975 na Hungria.

IMREKERTESZ-SEMDESTINO

O tema do livro é o Holocausto ( kertesz é judeu húngaro) e retrata a vida do personagem ” Koves Giorgy ” – um rapaz de 15 anos que vivia numa determinada zona de Budapeste em meados de 1943.

O livro descreve a vida de Koves, da família e dos seus amigos, a inocência e a pureza da vida naqueles tempos – para um rapaz de 15 anos.

Um dia é arrebanhado pelos nazis e autoridades locais, conjuntamente como uma série de colegas seus de trabalho à saída do mesmo e mandado para um campo de concentração. Antes já tinha sido arregimentado para trabalhar à força numa fábrica. Apenas porque o “poder” o queria fazer.

Depois, por comboio, é levado, respectivamente para Auschwitz, Buchenwald e Zeitz. – 3 Campos de concentração embora só dois deles sejam sobejamente conhecidos.

O livro acaba por transformar-se na descrição extremamente ritmada; da história de um ano e meio – que parece uma vida inteira- feita pelo rapaz de 15 anos – Koves Giorgy num livro de 180 páginas.

Confesso que parece um milhão de anos e não ano e meio.

E um milhão de páginas tal a intensidade da escrita de kertesz. O livro como o próprio autor indica não é autobiográfico, embora, como ele também salienta, existam partes em que ele foi à gaveta das recordações, das suas próprias recordações e retirou de certos compartimentos da sua mente algumas partes.

A cadência e ritmo da escrita ( da narrativa) do livro parecem baixas e suaves, mas posso indicar que não são e que o livro é absolutamente alucinante em termos de sensações e muito duro. Embora seja escrito de uma forma “suave “ com uma intensa doçura e quase ternura na escrita, tudo é muito perturbante e duramente poderoso para assimilar, precisamente por chocar, quer com a nossa sensibilidade actual, quer em relação às descrições que kertesz faz pela boca do personagem principal e de outros personagens de inúmeras situações.
Kertesz demonstra e faz perceber muito bem, a quem lê, qual era exactamente, a mentalidade predominante à época e é isso que é aterrador, porque verificamos que só passaram 70 anos.

Desde logo porque se apreende que é impossível (que nós leitores, apreendemos que) algo como aquilo ter acontecido (o holocausto) se não existisse um “apoio social” tácito, pelo menos, da maior parte da população para se predispor a aceitar o envio de pessoas (cidadãos do seu próprio país) para um (qualquer) campo de concentração.
Depois é a aceitação passiva, o indiferentismo mesmo das próprias vitimas que deixa qualquer um perplexo ao aperceber-se disso mesmo pela leitura.

  • Também o facto de acharem que andar pela rua com um sinal de identificação amarelo como sendo judeus não era nada de mais. Isso indica que o conceito de discriminação com base em raça (ou outra coisa qualquer) não era assimilado pelas pessoas como sendo algo de profundamente mau.
  • A ideia de respeito aos alemães, de respeito ao poder do alemães, o viver-se a vidinha do dia a dia como se nada se passasse e não houvesse guerra.


Só para dar um exemplo. O livro começa contando como o pai de Giorgy Koves a fazer “um negócio” com o Sr. Suto – o guarda livros – que também era judeu, mas tinha arranjado um esquema para não andar de estrela amarela.

Negócio esse que consistia na compra “semi fictícia ou simulada” do negócio do Sr. koves sénior, feito pelo Sr. Suto, para, desta forma, se impedir que esse “património” fosse confiscado pelo “Estado Húngaro”. Isto estava a ser assim feito porque o Sr. koves ia para o “campo de trabalho” (o metáfora para “campo de concentração”) e estava, assim, a salvaguardar o património para a sua família.
Percebe-se, aqui e desde logo que o discurso da “raça” e da “culpa dos judeus” ( ou de outros quaisquer…) não era só isso; não valia só pelo seu valor facial.

  • Consistia, antes de mais numa forma de legitimar um roubo de património; património esse que, por sua vez era usado, isto é, reconvertido para o esforço de guerra nazi.

Pagina 10:
“Após um silêncio, o meu pai disse: pois bem, ficamos mais leves – a minha madrasta, com voz ainda embargada, perguntou-lhe se não teria sido melhor aceitar o recibo do senhor Suto. Mas o meu pai respondeu que tais recibos não tinham qualquer «valor pratico», além de ser perigoso esconde-los do que ao próprio cofre. E explicou-lhe: desta feita, «é preciso jogar tudo num única cartada», dado que, por agora não nos resta alternativa.””

Pouco tempo após o negócio simulado e o pai ter sido deportado a escola acaba. E Giorgy Koves é obrigado a trabalhar.

Pagina 23:
“Desde há duas semanas, também sou obrigado a trabalhar. Notificaram-me em papel oficial que eu estava «afecto a um emprego fixo» estava endereçado «Ao jovem aprendiz auxiliar koves giorgy», e vi logo que ali havia mão da União das Juventudes.”
—–………….——
O local de trabalho é em Csepel, numa sociedade cujo nome é «Refinarias de petróleo Shell». Desta forma, acabei por gozar de uma espécie de privilégio, pois é proibido sair da cidade com a estrela amarela.”

Repare-se que, como Kertesz nos consegue demonstrar pela força da sua escrita que não existe a ideia de injustiça ou de discriminação pelo simples facto de ter que se andar com uma estrela amarela na lapela e se ser proibido de sair de uma cidade, ou de se ser obrigado a trabalhar pelo Estado, aos 15 anos, tendo que sair para isso da escola.

  • Primeiro o Sr. koves sénior é espoliado, ” legalmente”; depois existe a descrição da vida simples de um miúdo de 15 anos e da vizinha que é sua namorada e depois um dia, subitamente o miúdo de 15 anos é levado para os campos de concentração.

——–

Os judeus deportados são levados de comboio. 80 Pessoas por vagão durante 3 dias sem agua e apenas pequenas quantidades de comida – como gado. Pessoas idosas morrem pelo caminho. O primeiro destino é Auschwitz.

Também existe a descrição pormenorizada de como Georgy Koves (e todos os seus colegas) são, na estrada, à saída do trabalho trazidos para os comboios que os levam para o campo de concentração e de como alguns dos seus colegas de fábrica insistem que são operários especializados e que os guardas estão a cometer um erro.

  • Kertesz demonstra muito bem, que as pessoas naquela sociedade, nem sequer tinham a noção concreta da injustiça, da maldade extrema, da discriminação que tudo aquilo constituía. Eram cidadãos condicionados dentro de uma dada sociedade, mas mesmo assim defendiam a “ legalidade” dentro de um sistema de força que os oprimia e os tratava como não humanos ou sub humanos. Como produtos nojentos e descartáveis.
  • Tudo isto é escrito com “uma calma” e uma ausência de ódio na escrita, digamos assim, que assusta pela profundidade em que é feito. É como um aríete que bate com força na mente de quem lê, mas ao mesmo tempo não existe força nenhuma a bater. Um livro duro e poderoso mas dócil e suave ao mesmo tempo; que parte, bate e chama a atenção para o mal puro e a sua materialização nas vidas de pessoas simples e mentalmente inocentes.

Acima de tudo o que gera impressão é a ” ignorância” que Imre Kertesz descreve. Uma sociedade que aconteceu há, somente, 70 anos, que não entendia / apreendia sequer conceitos básicos como discriminação e liberdade.

Repare-se, neste pormenor descrito na viagem – página 55:
Um guarda húngaro puro, pede pela última vez, no comboio, aos judeus que iam para o campo de concentração se tinham pertences. E pela última vez, que os dessem aos guardas. E apela ao patriotismo deles (que iam para um campo de concentração com a conivência do próprio guarda húngaro e da própria sociedade) para lhe darem os pertences:

“ – Desejava, na circunstância, dirigir-nos um apelo, uma prece, por assim dizer. Desejava que quem ainda tivesse algum dinheiro ou objecto de valor lhos entregasse – lá para onde vão argumentou –, não precisam de coisas de valor.

E os alemães iriam tirar-nos o que ainda tivéssemos connosco, assegurou. – Então não seria melhor – acrescentou, espreitando pela janela – que ficassem em mãos húngaras?

E depois de um curto intervalo, que eu avaliei como solene, juntou, num tom de voz repentinamente caloroso e quase confidencial, como se quisesse rasurar tudo com um véu de esquecimento, com o perdão: – Pois são húngaros, afinal de contas.

Um dos prisioneiros tenta regatear a entrega de objecto de valor pedindo agua e comida.
A resposta é a seguinte:

“…e ele mostrava-se disposto a fazê-lo, embora fosse, disse «contra os regulamentos». Só que não há acordo, porque a voz queria, primeiro, a agua e o guarda queria, primeiro, as coisas, e ninguém queria ceder. Por fim o guarda sentiu-se melindrado: – Porcos judeus, que fazem negócio com as coisas mais sagradas!

  • Na legitimação do roubo e corrupção eram todos «húngaros», no simples regateio por água para 80 pessoas comprimidas num vagão eram todos porcos judeus.
  • Isto demonstra a mentalidade de ódio que existia, a mentalidade de roubo descarado e corrupto que existia, a normalidade desse acto e o puro mal à solta e que kertesz descreve muito bem.

Por razões que Giorgy Koves não percebe apenas passou 3 dias completos em Auschwitz. É depois transportado de comboio para Buchenwald. Kertesz / Koves descreve os prisioneiros de Buchenwald como ” melhores “ que os de Auschwitz e a paisagem mais bonita bem como a comida ser melhor.

Descreve um diálogo de 1 prisioneiro pedindo-lhe, estando já ele no campo de Zeitz, que ele descreva se Buchenwald ainda está como ele a conhecia quando lá tinha estado. Isto é – representa – a despersonalização completa da pessoa, que, apesar de ter passado horrores; ainda acha forças para querer saber onde e como estava o sitio péssimo para onde o tinham mandado.
Descreve ainda como os”altos dignitários” – prisioneiros a quem tinha sido dado o comando de algumas áreas dos campos, muitos deles judeus – e de diferentes nacionalidades, e como se comportavam, e eram vistos com deferência pelos restantes prisioneiros – página 97 .

“Só em Zeitz percebi mesmo que o cativeiro tem a sua rotina, que o verdadeiro cativeiro não passa, no fundo, de um quotidiano cinzento.
…—…
“Não tardei muito a perceber que as opiniões favoráveis ouvidas ainda em Auschwitz acerca da instituição dos “Arbeitlager”, se baseavam, forçosamente, em informações exageradas.”

A ingenuidade dos prisioneiros europeus de várias nacionalidades – e a completa insensibilização a que tinham sido submetidos leva-os a caracterizar com melhores ou piores os campos de concentração, sem que verem que tudo era, na realidade mau – o mal em estado absoluto.

Pagina 102
“Mas também entre eles eu via o mesmo esforço, a mesma boa vontade: só pretendiam ser bons prisioneiros”.

Pergunto: o que é um bom prisioneiro num campo de concentração que foi para lá enviado por questões raciais e de nacionalidade e para morrer como um cão?

Na pagina 58, que não vou transcrever porque o dialogo está bastante entrecortado por expressões em alemão, Giorgy Koves encontra em Auschwitz prisioneiros alemães, daqueles que já lá estavam provavelmente antes da guerra.

Estes avisam-no que não deve dizer que tem menos de 16 anos, e que no grupo onde Giorgy Koves vinha, não existem irmãos, nem acima de tudo existem irmãos gémeos, sem que o personagem Koves perceba – inicialmente – isto muito bem.

  • Posteriormente e à distância sabemos exactamente porquê.

Se existissem gémeos, ou irmãos, ou doentes, seriam usados em experiências medicas por aprendizes do Dr. Mengele ou pelo próprio, e os prisioneiros alemães avisam desta forma os recém chegados para não se descaírem a dizer a verdade dado que isso poderia significar um destino ainda mais duro e uma morte mais rápida.

Mas a forma como isto está escrito é que é notável, dado que nos dá uma dimensão do que é o mal absoluto criado, feito e desenvolvido de forma organizada (se é que o mal pode ser bem organizado).

O livro começa-se a ler “bem” de início, mas, à medida que se avança começa a provocar um desconforto e uma inquietude muito fora do comum. Mas kertesz é de um estilo diferente e provoca o desconforto a longo prazo, ao retardador, digamos assim…

  • Um poderoso aríete escrito, por alguém que viu o mal em toda a sua forma pura.
  • Um poderoso livro contra o totalitarismo.
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Written by dissidentex

08/01/2008 at 0:48

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