A LIBERDADE E A FALTA DE TINTA.
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Numa velha piada que se contava na antiga RDA, um trabalhador alemão obtinha um emprego na Sibéria.
Sabedor de que estaria a ser vigiado diz aos seus amigos como lhes iria mandar as suas mensagens por carta.
Se eu escrever as cartas com tinta azul está tudo bem. Se eu usar tinta vermelha significa que estou a mentir naquilo que vos conto.
O trabalhador vai para a Sibéria e escreve a primeira carta, com tinta azul. A carta diz o seguinte:
Tudo aqui é maravilhoso.
As casas são boas e tem aquecimento. O trabalho não custa a fazer. A paisagem é bonita.
Existem inúmeras raparigas disponíveis e todas elas estão prontas para romance.
Os supermercados estão sempre abastecidos. Os cinemas transmitem filmes ocidentais. Estou muito satisfeito por aqui estar.
Só existe um único problema.
Não se consegue encontrar tinta vermelha nem canetas que escrevam com tinta vermelha.
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Em Portugal já superámos este estádio de desenvolvimento totalitário e emergimos de forma triunfante para outro: o estádio em que nem sequer existe caneta, quanto mais tinta vermelha…
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A história do trabalhador alemão também quer dizer outra coisa: se não soubermos bem qual é o verdadeiro e real estado da nossa liberdade, (individual e colectiva ) isto é, se ele existe, nunca poderemos determinar qual é o estado da nossa não liberdade.
Não temos ponto de comparação entre uma realidade (a liberdade) e outra realidade (a situação de não liberdade).
Falta-nos a tinta vermelha, que permite aferir e comparar entre as duas situações.
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É como um desempregado.
Ele é livre, mas devido à sua condição de desempregado, ele não é livre, uma vez que depende de terceiros a sua liberdade e o exercício pleno da sua liberdade.
Quem diz um desempregado diz outras situações.
Falta tinta vermelha e caneta a Portugal e à maior parte dos portugueses.



“… e não soubermos bem qual é o verdadeiro e real estado da nossa liberdade, (individual e colectiva ) isto é, se ele existe, nunca poderemos determinar qual é o estado da nossa não liberdade.”
Sinto-me às vezes assim!
É por isso que o espírito crítico, a imaginação, a arte, a filo-sofia são tão desesperadamente importantes.
A
18 18UTC Maio 18UTC 2008 em 7:14
E não estou, com aquilo que disse em cima, a defender uma fuga à realidade. Bem pelo contrário, o que quero é o seu enfrentamento, com menos preconceitos interpretativos.
A
18 18UTC Maio 18UTC 2008 em 9:11
A: o que é que a “A” chama neste conceito e relacionado com o post de “preconceitos interpretativos”?
Ou é ” preconceitos interpretativos” relacionado com as grandes conversas políticas que existem vindas de partidos e grupos de opinião?
dissidentex
18 18UTC Maio 18UTC 2008 em 10:26
Quis de facto referir-me às grandes conversas políticas vindas de partidos e sobretudo de grupos de opinião que iinstiilam ideias e constroem edifícios que partem de axiomas não discutidos ou por via das circunstâncias tornados não discutíveis. Indo ao contexto do post: claro que o desempregado não é livre. O pior é que, mesmo os que não estão desempregados temem igualmente pela sobrevivência e julgam, ou são levados a pensar pela lógica induzida, que a sua vida depende da aceitação, por atacado de muitos pressupostos para os quais nem olharam de frente, ou aceitam porque os especialistas dizem, crendo por exemplo que se atinge a felicidade pelo consumo com a “qualidade” certa, que a “mão” do mercado funcionará por “bem”; que a competição e o egoísmo feroz são a regra de “ouro” do progresso; que há uns que nascem com sorte e outros não.
Vivemos todos imersos num caldo de cultura que não nos deve cegar. Parece-me que o esforço tem de ser o de afastar, ao menos por momentos, os preconceitos que conduzem por mero imperativo lógico, e/ou por medo de fugir à regra, à conclusão de que vivemos no melhor e único mundo possível, quando a realidade todos os dias nos faz ver o contrário. De que me serve a tinta azul escura, clara, cobalto, petróleo ou da china se a vermelha é aquela que melhor fala?
A
18 18UTC Maio 18UTC 2008 em 15:17
A: era só para confirmar…
dissidentex
18 18UTC Maio 18UTC 2008 em 15:35