CENSURA NO AUDIOVISUAL. EUA. (4)
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No primeiro artigo “Censura no audiovisual. EUA (1)” falou-se de:
- MPAA e o sistema de classificação de filmes;
- A forma como a classificação é feita;
- o caso da realizadora Kimberley Pierce.
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No segundo artigo CENSURA NO AUDIOVISUAL .EUA. (2) falou-se de:
- uma perspectiva religiosa aplicada à classificação de filmes.
- a não definição prévia dita aos realizadores do que são cenas a virem a ser classificadas NC-17.
- O segredo relativamente á entidade dos classificadores de filmes.
- Os critérios a usar para classificar.
- A aplicação do critério do “sentimento médio do cidadão americano médio”.
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No terceiro artigo “CENSURA NO AUDIOVISUAL. EUA. (3)” falou-se de:
- de como as crianças e a sua protecção são usadas pela MPAA como argumento para se aceitar censura.
- de como se deve contrariar a MPAA.
- de como se condicionam realizadores e se tentam reprimir questões mostradas em filmes relativamente a sexo.
- de como as vendas de bilheteira condicionam as classificações de filmes.
- de como o fantasma do comunismo foi usado pela MPAA para legitimar a censura.
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Para desmascarar o sistema MPAA/Produtoras, realizador do filme, Kirby Dick contratou detectives particulares para ue estes seguissem os classificadores e entrevistou dois deles.
Estes declararam que:
(A) não havia um sistema definido, um padrão de classificação;
(B) Reuniam-se numa manhã para falarem e darema sua opinião sobre o filme do dia anterior.
Quando a MPAA soube que eles iriam falar, os antigos classificadores foram ameaçados de processo judicial, se revelassem informações que a MPAA considerasse relevantes.
Quando os classificadores responderam perguntando se a MPAA poderia, por escrito, explicar o que consideravam relevante, a MPAA recusou-se.
Outro interessante problema é o de como as notas “R” e as notas “NC-17″ são atribuidas. Existem casos incríveis relatados por vários realizadores ou críticos de como filmes em que existem cenas de sexo, onde não se vêem corpos alguns são – apenas por causa dessa cena – classificados NC-17, enquanto casos em que se vê boçalidade nessa área (um dos exemplos é uma realizadora que se queixa que o filme que fez que tinha uma cena qualquer sobre duas adolescentes que gostavam uma da outra e numa determinada parte do filme uma delas masturbava-se mas como roupa. E queixa-se porque no mesmo ano saiu “American Pie” que tem uma cena idiota em que o personagem se masturba para dentro duma tarte de maça ou lá o que é, e num lado (o filme da realizadora) esta levou NC-17, enquanto American Pie ( um filme boçal até à orelhas) só levou “R”.

Mary Harron, realizadora de American Psicho diz que a ideia subjacente por detrás destas concepções é a de que existe a ideia de que “sexo desenfreado” deve ser desencorajado. E que actualmente já é o “sexo gay desenfreado que deve ser desencorajado.
Ou seja, o pretexto para fazer censura camuflada existe e é variável e hoje é isto como amanhã pode ser aquilo ou outra coisa qualquer.
O que nos leva a perceber que o que aqui está é uma lógica de poder e não de arte ou de defesa da arte, seja qual for a forma pela qual a arte é entendida.
Como é o exemplo o filme “But i´m a Cheerleader” onde adolescentes com gostos por pessoas do mesmo sexo vão para um campo de férias de reabilitação dos seus gostos sexuais.
A realizadora diz que é uma comédia, mas é também uma critica a uma certa lógica que existe. Ou seja, a lógica em que existem inúmeros filmes para adolescentes e vemos sempre aqueles estereótipos do “jogador de futebol americano” que namora com a “Cheerleader boazona”. Aqui a realizadora joga com esse estereotipo, invertendo-o e pondo Cheerleaders a serem lésbicas.
Em Portugal o equivalente é o Marialvismo…
O mais espantoso é que existem mesmo na América campos de reabilitação para homossexuais. Se isto não é uma tendência perigosa indicadora de totalitarismo não sei o que será…

Ou seja, o que existe é uma lógica de poder e de dizer às pessoas o que elas devem gostar e fazer e usar isso como uma lógica para condicionar pessoas.
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Outro exemplo engraçadíssimo é dado pelo realizador Jonh Waters. Este fez um filme sobre sexo, algo perverso e gozão em que existia o termo “sploshing”- uma actividade sexual que consiste no despejo de comida por cima das pessoas e isso é considerado um acto sexual. Não se vê ao que parece, nus, nem se vêem gravidezes indesejadas ou existem problemas de Sida. Waters levou um NC-17.
Waters comenta que, pelo que lê, a generalidade das raparigas do 8º anos escolar fazem sexo oral portanto não percebe como é que a actividade de “Sploshing” pode ser “pior” do que o que as raparigas americanas fazem regularmente a toda a gente… Diz ele que ficaria preocupado se fosse pai acaso soubesse que tinha uma filha não a fazer Sploshing, mas sim sexo oral, tão nova. E dá como exemplo o facto de um ou duas semanas antes do flme ter saído terem sido mostradas na Televisão – normalmente – as fotos de Abu Grahib acerca de tortura no Iraque.
Isso não é considerado indecente, mas “Sploshing é” sugere Waters?
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Na sequência das buscas feitas pelos detectives privados que o realizador contratou, para saber quem eram os membros classificadores de filmes descobrem-se coisas engraçadas.
A orta voz da MPAA declara várias coisas.
Uma que a comissão de classificadores é composta de pessoas que tem filhos cujas idades variam entre os 5 anos e os 17. Descobrem e seguem uma senhora com perto de 60 anos, que não tem filhos dessa idade e faz parte da comissão de classificação. Os filhos da senhora que descobrem tem entre 22 e 25 anos de idade.
No filme american Psicho a realizadora Mary Harron, explica como é que levou NC-17 e o que lhe foi explicado.
E foi-lhe explicado que a comissão de classificadores se opunha “ao tom global do filme”.
Harron diz que começou a rir-se, porque “como mudamos o tom de um filme”?
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O documentário acompanha ainda os esforços do próprio realizador para submeter o seu próprio documentário à comissão de classificadores e às incríveis conversas telefónicas do realizador com uma responsável da MPAA sobre o facto de estes terem classificado o documentário NC-17.
E noutra situação um outro realizador que já tinha submetido o seu filme com duas versões diferentes e em que ambas levaram NC-17, explica que existem na comissão de classificadores dois membros de confissões religiosas – um da Igreja anglicana e outro de confissão católica.

E que não há rotatividade. Ambos os representantes não votam mas tem parecer nas discussões. Um dos classificadores da comissão de recursos fala anonimamente com o realizador e explica o seguinte:
Os membros do clero estão lá como observadores. Não fazem perguntas, porque não lhes é permitido, de acordo com as regras. Apenas ficam em silêncio, observando o que osrestantes classificadores fazem.
Mas o potencial de intimidação disto e de pressão sobre os empregos dos que classificam é enorme.
E depois aparece um senhor de nome James Wall, membro do conselho nacional das Igrejas, que declara que lhe foi pedido pelos Protestantes que os representasse. E que unisse esforços com os membros do catolicismo lá para juntarem forças.
Um dos analistas disto diz que o que existe é um tom moralista na sala, e que estes personagens são apenas censores morais. Pessoas que estão a fazer juízos sobre a moralidade de outras pessoas. O representante das Igrejas diz que o processo é transparente…
O documentário termina com o realizador Kirby Dick confrontando a comissão acerca da classificação do seu próprio filme exigindo saber quem tinham sido as pessoas da comissão de recurso do mesmo e sendo isso recusado.
Mais tarde vem a saber que os membros da comissão de recursos exigiram que não lhes fosse divulgada a identidade e que- precisamente por causa deste documentário – exigiram entrar e sair numa carrinha de vidros fumados para que a sua identidade não fosse conhecida.
O que não sabiam era que 3 meses antes um dos detectives que Kirby Dick tinha contratado já tinha estado fora do local onde isto era decidido e tinha filmado as pessoas e retirado as matriculas dos seus carros para assim os indetifficar.
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A primeira pessoa chamava-se Matt Brand- presidente do grupo de cinemas Trans-lux.
A segunda pessoa chamava-se Pete Cole, comprador de filmes da empresa “The Movie experience”
A terceira pessoa chamava-se Bruce Corwin, presidente e administrador dos cinemas Metropolitan
A quarta pessoa chamava-se Alan Regal, comprador de filmes para a empresa Regal entertainment;
A quinta pessoa chamava-se Mike Doban , presidente da empresa archangelo international
A sexta pessoa chamava-se Steve Gilula, presidente da empresa Fox Searchlight pictures
A sétima pessoa chamava-se Franka Haffar director do grupo de cinemas Maya.
A oitava pessoa chamava-se Jonh Lodigan, vice presidente de vendas da Sony Pictures
A nona pessoa chamava-se Michael Mcclellan, vice presidente e comprador de filmes dos cinemas Landmark
A décima pessoa chamava-se Milton Moritz, presidente das divisões de cinema da califórnia e Nevada, que reportam a associação de de donos de cinemas norte americanos (NATO)
A décima primeira pessoa era Len westerberg, vice presidente da divisão da Costa oeste dos cinemas “Loews Cineplex”
A décima segunda pessoa era Jonathan Wolf, director do american Film Market
A décima terceira pessoa era Reverendo James Wall, sacerdote representante da Igreja metodista Unida, do conselho nacional de Igrejas norte americano.
A décima quarta pessoa era Harry Forbes, representante do Conselho de bispos católicos do Estados Unidos.
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O docuemntário termina com as declarações do senhor Jack Valenti a dizer que gostaria que o seu epitáfio fosse “Jack Vaenti libertou o ecrâ de todas as barreiras artificiais”.
De facto ter representantes de Igrejas e de conglomerados de cinemas e produtores /compradores de filmes e dizer que isso é que garante a independência de avaliadores de filmes não são barreiras artificiais…


A: o documentário não deu nunca na televisão portuguesa, nem , julgo, virá a dar.
É um documentário semi clandestino. Mesmo nos EUA. Aliás, no próprio documentário existem partes em que o realizador mostra como foram os seus contactos para que o seu próprio filme /documentário fosse submetido para aprovação e o Júri de 10 pessoas votou 10-0 contra isso mesmo.
Eu próprio cheguei ao documentário apenas e absolutamente por acaso.
Sabia previamente que existiam algumas discrepãncias mas não tinha percebido a amplitude do mecanismo das mesmas.
Cá em Portugal ou na Europa ou no mundo que veja filmes produzidos nos EUA está-se indirectamente submetido a isto.Mas não só.
Os filmes estrangeiros são – desta forma – classificados também de uma forma económica através do seguinte mecanismo: é usada esta maneira esguia de fazer as coisas para condicionar o êxito de distribuidoras estrangeiras por exemplo, em terem ou não terem êxito no mercado americano.
Sob a capa da liberdade de mercado, são assim condicionadas a concorrência e visões alternativas de cinema.
E dessa forma, o que é “mal classificado” não é visto por muita gente e consequentemente não pode ter êxito.
Outra forma que assistimos em Portugal a este fenómeno é o da distribuição , ou seja, de quem controla as cadeias de cinema que ” escolhem” os filmes que lhes interessa escolher eliminando os outros.
É por essa razão que o cinema português é sempre tão atacado e não consegue grandes receitas de bilheteira a não ser que mostre sexo ou crimes.
É impedido à partida de poder ser apreciado porque, não é distribuido pelas salas e quando o é distribuido, apenas o é desde que mostre o padrão “cultural” semelhante ao filme americano.
Eu tento encurtar a assimetria da informação mas eu sou só um.
Há muita gente descontente, mas não sabe bem porquê. E no entanto as respostas estão todas aí à mão de semear.
É a liberdade a preto e branco. Onde não há cinzento.
E onde alguns – poucos – ganham com isto.
dissidentex
07/06/2008 em 11:33
Não vi o documentário. Apenas li os seu posts. Também vivo imersa nesta sopa cultural onde essa ideia de liberdade a preto e branco (como você diz muito bem) é aceite sem que muitos pensem duas vezes. O facto de nos mostrar a forma absolutamente primária (do ponto de vista intelectual), arbitrária, oportunista e maldosa como uma comissão, mandatada pelo nada, julga os filmes a que a maioria das pessoas tem acesso, porque são os que estão à mão, de acordo com os critérios do tenebroso “pai de família médio” dá um passo no encurtamento da assimetria da informação que me parece estar na origem de tanto conformismo. Vejo, à minha volta, muita gente descontente, sem saber dizer muito bem porquê, mas verdadeiramente insatisfeita
Esta “liberdade” a preto e branco, tão apregoada e vendida, não passa de uma prisão cognitiva e axiológica onde cada um se sentirá cada vez mais só, abandonado e sem perspectivas.
A
07/06/2008 em 7:05
A: a liberdade é de tal modo sufocante e cria mal estar que obrigará a fazer acordar?
Não sei, sinceramente não sei.
dissidentex
06/06/2008 em 17:57
Dissidente, desculpe não ter posto entre aspas a citação que fiz do seu texto no início. Fui distraída.
A
06/06/2008 em 16:29
É exactamente a lógica do preto e branco que é ali aplicada e à qual depois eles chamam “liberdade”
Esta “liberdade” é de tal modo sufocante e cria tal mau-estar que acabará por fazer acordar e obrigar os seres inteligentes e imaginativos a libertarem-se e a construirem outra visão da vida. Será tarde para sonhar com isto?
A
06/06/2008 em 16:27
Diogo:
documentário= P.bay
Legends = http://www.legendas div-x
dissidentex
06/06/2008 em 13:29
tenho definitivamente que ver o documentário…
Diogo
06/06/2008 em 11:19
Diogo: vendo o documentário e a lógica do mesmo percebem-se ainda mais coisas que eram impossíveis de escrever aqui senão eram uma coisa imensa.
Mas o que impressiona mais é o estalinismo daquilo tudo, disfarçado de Eempreendedorismo da iniciativa privada” e de como isso condiciona toda a liberdade artística seja como for que ela seja entendida.
Por exemplo, uma das coisas que se percebe é que um filme que seja extremamente violento leva “R” enquanto que um filme que tenha um nu, ou uma simulação de sexo, pode levar facilmente “NC-17″.
E tudo isto paralelamente sem definição de critérios de avaliação públicos ,nem de avaliadores públicos e misturado com os interesses de vendas de bilhetes decinema e restantae coisa.
Correndo o risco de ser acusado de marxista , o que se nota é que aquela industria usa aquilo de duas maneiras. Para aumentar o seu próprio poder e para contribuir para o poder dos EUA usando aquilo como condicionamento psicológico sobre toda a sociedade.
É claro que , depois por arrasto, isto influência todo o mundo que compra produto americano.
É exactamente a lógica do preto e branco que é ali aplicada e à qual depois eles chamam “liberdade”.
Este “atentado” à diversidade e a arte já acontece à imenso tempo , há imensos anos.
Existe cada vez mais ” ideologia ” nos filmes, lá misturada e existem cada vez mais estereótipos aplicados na construção desses mesmos filmes.
Por exemplo quando uma pessoa como David Linch já foi censurado e os filmes dele são arte mais que cinema está tudo dito…
dissidentex
06/06/2008 em 10:42
Mais um artigo excelente Dissidente…
É incrivel aos pontos a que chegam os falsos moralistas, e a teia e complexidade de ferramentas que utilizam para continuar a formatar seres humanos a crerem num mundo completamente retrógrado e déspota. Toda a panóplia de cores que existem entre o branco e o preto não existem para estes senhores, existe o bem (eles) e o mal (o que sai fora dos seus limitados horizontes de compreensão)… o largo espectro de possiveis comportamentos, atitudes ou formas de estar na vida são totalmente descredibilizados ou na melhor das hipóteses negligenciados.
Esta é sem dúvida uma das maquinações mais hipócritas, mais subtis e consequentemente mais perigosas de que tive conhecimento… É um atentado à diversidade, à arte, à nossa própria identidade e em última instância à vida humana!
Grande abraço e continua assim…
Diogo
06/06/2008 em 10:11