DISSIDENTE-X

Escrevo para mim próprio.

A VIDA DOS OUTROS. FILME.

Em 2006, foi feito um filme alemão chamado Das leben der anderen/A vida dos outros. Apenas conhecido em Portugal em 2007. É um excelente filmeA VIDA DOS OUTROS - 1 sobre totalitarismo, sobre uma sociedade totalitária. Não uma sociedade totalitária qualquer, mas sim a da RDA, já no período do final da mesma, nos anos 80 do século 20.

O filme pode e deve ser interpretado como uma critica ao socialismo real (também conhecido como comunismo…), mas deverá ser também interpretado com uma outra análise dupla. Quer ao (1) poder como conceito e ao uso que dele se faz e de como são facilmente corrompidas as pessoas em lugares de poder, e, noutra análise, no (2) lançamento de pistas hipotéticas para se perceber como se deve – em sociedade – tentar conter mesmo esse totalitarismo.

A história é muito interessante pelos problemas que coloca. Antes da queda do muro de Berlim a polícia secreta alemã fazia escutas sobre os seus cidadãos. Quais os pretextos para tal?

Quase nenhuns ou em alternativa pretextos inventados apenas movidos pelo desejo de uma qualquer pessoa dentro do sistema e não da lei vigente na terra e aplicável a todos.

Só por aqui está espelhado a completa corrupção do sistema comunista. No caso do alemão, de forma ainda mais especial, uma vez que este era a fina flor do comunismo de inspiração soviética; ou seja ainda “funcionava” melhor (dentro da lógica distorcida e retorcida de se considerar que uma sociedade comunista totalitária funciona melhor que outra sociedade comunista totalitária) que o que lhe deu origem, a URSS.

Um agente da polícia secreta – da Stasi - ao conduzir uma escuta sobre um escritor alemão e sobre a sua namorada, actriz de cinema, fica obcecado com isso, com “a vida dos outros”, sendo que os outros poderiam também ser metaforicamente considerados como “a população”.

Um escritor de talento, em ambas as Alemanhas, Georg Dreyman, e perfeito crente da sociedade onde vivia e estava, namora com Christa Maria Sealand (CMS), a melhor actriz do teatro alemão.

A VIDA DOS OUTROS - 5

CMS, representa, numa explicação que se queira adoptar, metafóricamente, o pior de nós; a ansiedade excessiva que nos controla os nosso actos, a cedência aos nossos piores instintos quando pressionados, a tendência para a deslealdade e a traição aos outros e a nós próprios.

CMS, tem ainda outro problema, que é, diga-se de passagem, um problema duplo em termos comparativos com a sociedade portuguesa. O (1) de existirem pessoas que não conseguem determinar qual é o seu real valor quer profissional, quer pessoal, porque a sociedade está assim estruturada, e (2) isso são características inerentes a sociedades totalitárias.

No filme, CMS, não sabe e não tem a noção do real talento que tem, e por isso tem imenso medo. Como tem medo, e precisamente pela dimensão do medo que tem, não quer perder a posição que tem naquela sociedade, e “vende-se” ao ministro Bruno Hempf, o prototipo do político asqueroso e totalitário; pensando que, pelo facto de aceitar fazer sexo com o ministro e devido ao “Poder” que este tem, isso lhe garantirá não ser removida para a prateleira do teatro. (Ou pior…)

A VIDA DOS OUTROS - 5

No meio disto, o capitão Anton Grubitz quer ser promovido. Com o apoio do Ministro Bruno Hempf e dos restantes círculos políticos dá ao agente da Stasi, seu ex -colega de escola, o agente Gerd Wiesler, a tarefa de montar uma específica operação de escutas electrónicas visando confirmar a traição (hipotética) do dramaturgo Dreyman.

Isto é o objectivo “oficial” , o objectivo oficioso é também a lógica distorcida aquele sistema e os desejos pessoais , a prepotência, o nepotismo e a corrupção do ministro Bruno Hempf que quer ter para si para usar à vontade CMS, a acrtiz estrela do teatro alemão.

A história é simples ao nível do argumento e linear. Observando de um nível pessoal, como drama, é um triangulo amoroso. (Ministro Hempf, Actriz CMS, Dramaturgo Dreyman.

O realizador do filme insere a política, como um dos elementos motivadores do triangulo, mas querendo com isso mostrar outras coisas. A censura inerente ao regime e a intensa corrupção burocrática do mesmo.

Dreyman, o dramaturgo tem sucesso, mesmo que publique na Alemanha do oeste, a antiga RFA. Namora com CMS, a melhor actriz. Apoia o sistema. Tanto êxito” burguês gera “inveja” e gera proeminência que não pode ser tolerada pelo regime e gera cobiça do ministro Hempf.

Este apoiado nos desejos de subida de carreira do capitão Grubitz ordena escutas na casa de Dreyman. Grubitz, chama Wiesler, o melhor agente para este montar a operação. Wiesler vai até ao sótão do prédio de Dreyman, instala lá o equipamento embora previamente os microfones de escuta tenham sido colocados dentro dos interruptores da casa de Dreyman, e começa a escutar em busca de “conversas comprometedoras” de Dreyman com dramaturgos, artistas, o que fosse, que eram suspeitos ou estavam na lista negra do regime.

Wiesler, o exemplo do polícia dos serviços secretos – eficiente, frio, insensível começa aos poucos e poucos a transformar-se ao escutar a “vida dos outros”.

A VIDA DOS OUTROS - 3Duas cenas ilustram esta transformação. (1) Wiesler é-nos apresentado estando a dar cursos de formação, não do fundo social europeu :mrgreen: mas de futuros agentes da Stasi.

Está numa sala com alunos e explica-lhes porque é que no filme que lhes está a mostrar, onde se vê um opositor ao regime a ser interrogado este está a mentir. Através de técnicas de interrogação duras.

Um dos alunos interrompe-o e diz algo como” mas isso não é muito duro?”. Sem se perturbar, Wiesler vai explicar que não, mas ao mesmo tempo que o faz, marca uma cruz no nome do aluno, no papel que tinha à sua frente, e onde estavam os nomes de todos os alunos. Era uma má classificação para esse aluno.

A cena de interrogatório é objectivamente de uma violência psicológica tremenda sobre o interrogado.

(2) Quando se dirige com a sua equipa da Stasi a casa do Dreyman, para instalar os microfones, a vizinha da frente de Dreyman, nota a agitação. Prudentemente,olha pelo óculo da porta, não abrindo a porta. Wiesler dada a sua eficácia e sensibilidade para este tipo de coisas, percebe o facto e toca á porta.
A senhora abre e Wiesler imediatamente lhe diz para estar calada e não mencionar a ninguém o que acabou de ver, tratando a senhora pelo nome dela, e insinuando de uma forma terrível, que a filha dela poderá ter problemas no acesso à Universidade de medicina, caso desobedeça aquela ordem.

Este é o protótipo do funcionário burocrático Cyborg, destituído de sentimentos e apenas eficácia. Wiesler está convencido que Dreyman é um subversivo em relação ao Estado e que mais tarde ou mais cedo o apanhará nas escutas.

Á medida que vai escutando Wiesler altera-se e começa a perceber o drama da vida de Dreyman e toda a lógica de corrupção em que está metido. Percebe que Dreyman é alguém genuinamente “bom”, e não subversivo, e que são apenas os interesses políticos de topo do ministro Hempf e as maquinações do seu ex-colega de Escola Grubitz que estão a criar uma situação para que Dreyman seja “eliminado” não fisicamente mas moralmente e psicologicamente.

A dada altura, Wiesler fascina-se com o que ouve, querendo escutar mais; começa a adulterar relatórios sobre as conversas de Dreyman omitindo pormenores que sabia que poderiam ser considerados como desfavoráveis para este, mesmo sendo coisas inócuas, e no final safa de problemas Dreyman, e prejudica-se a si próprio.

Dreyman, que era um genuíno apoiante do regime, a dada altura e devido ao evoluir da situação e de várias histórias paralelas no filme:

- um amigo de Dreyman, o encenador de teatro Jerska, suicida-se, porque estava há uma série de anos na lista negra sendo impedido de trabalhar;

- um outro dramaturgo chamado Paul Hauser, em completa dissidência com o regime e cheio de impaciência pelo que se está a passar sempre que se encontra com Dreyman, pica-lhe o juízo moendo-lhe a cabeça e incitando-o a não desculpabilizar e a não colaborar com “aquilo”

(Qualquer semelhança com o que se está a passar em Portugal actualmente é pura coincidência…)

- o facto de ter percebido que CMS, a sua namorada andava a dormir com o ministro Hempf. A repressão política, artística, social era usada de modo instrumental para adquirir os favores sexuais dos artistas- é isto que se percebe.

Dreyman, descobre e explica-lhe que ela não tem de fazer “aquilo” porque ela tem talento e não preicsa de o fazer. CMS, cruelmente e com completa frustração à flor da pele conjugada com ansiedade responde que “também dormes com eles todos os dias”. Ela confronta-o -em resposta- com a infidelidade física dela (forçada ou não é para decidir quem vê o filme…) replicando que ele também se vende moralmente…

Como esta é a descrição de umaA VIDA DOS OUTROS - 2 sociedade onde existe vigilância; essa mesma vigilância que se aplica sobre a quase totalidade dos cidadãos de formas difusas, origina vários fenómenos.

A chantagem e as ameaças directas ou veladas sobre os cidadãos. Daqui até à delação e aos sentimentos de que, ” denunciar o outro” é bom, vai apenas um passo…

A delação, (também conhecida por denúncia) ao ser desta forma aceite, passa a ser mais um bem: assegura (A) Ou a sobrevivência, (B) ou a manutenção do estatuto político, ou (C) serve de moeda de troca.

Dreyman, decide fazer alguma coisa, (é a gota que enche o copo e o transborda, após ter percebido que CMS se vendia ao ministro…) quando o seu grande amigo, o encenador Jerska se suicida. Dreyman, decide denunciar o sistema RDA. Escreve um artigo a ser publicado no Ocidente, no Der Spiegel alemão, onde explica a técnica do suícidio na Alemanha de Leste.

Menciona no artigo que o departamento estatístico alemão de leste tudo sabe, de todas as estatísticas, mas não publica as de suicídio, e mais ainda, desde 1977, que as publicou pela ultima vez. A palavra suicídio é banida – impronunciável e impublicável – passando o assassínio a ter a designação oficial de “auto assassinato”.

Isto desencadeia uma perseguição das autoridades para saberem quem é que escreveu o artigo e as suspeitas recaem sobre Dreyman, mas não são provadas. CMS, mediante coacção e intimidação acaba por implicar Dreyman – o seu namorado – em troca de o seu estatuto se manter inalterado.

A Stasi surge , através do capitão Grubitz e da sua equipa em casa de Dreyman, para apreender a máquina de escrever indetectável que Dreyman usou para escrever o artigo e que estava escondida num determinado sitio da casa de Dreyman.

Delatada por CMS.

A Stasi não encontra a máquina, porque Wiesler, o agente da Stasi que escutava as conversas, apagou o rasto de provas e retirou a máquina do lugar.

Na sequência disto CMS acaba por morrer atropelada num acidente, ao sair da STASI e após ter vendido a alma, e ido até à casa de Dreyman, deixando quer Dreyman, quer o próprio Wiesler inconsoláveis, e fazendo o capitão Grubitz perceber que Wiesler tinha manipulado a informação das escutas e protegido Dreyman.

Que Wiesler tinha protegido a “vida dos outros”.

Este, pelas circunstâncias tinha sido levado a proteger aqueles que lhe cabia vigiar e tinha-se “humanizado”.

Nota: Podemos aqui fazer uma critica reflexiva alternativa. E afirmar que esta lógica pode ser vista como uma tentativa de suavizar o agente da Stasi, que apenas foi “metido na engrenagem da maquina” e que era tão inocente quanto as vitimas que aterrorizava. Que a culpa era do “sistema”,n ão das pessoas. Bom, as pessoas fazem parte do sistema…

O que leva à questão de se perceber que só a denúncia de sistema totalitários, de que tipo forem deve ser um imperativo ético e que a resistencia e a recusa de colaboração com o sistema são armas.

Ali,no filme, a “redenção” do agente da Stasi decorre da “comparação” que este faz entre o comportamento dos seus chefes – um comportamento abjecto e asqueroso – e a visão dos valores mais puros que ele ia escutando e percebendo ao escutar as suas vítimas. (A dada altura, entra dentro da casa de Dreyman, quando este não está, para lhe roubar um livro de poemas de Berthold Brecht para “assimilar” esse mesmo comportamento das suas vitimas, como se, através do acto do roubo do bem( livro) do outro (Dreyman) e da leitura do mesmo; Wiesler, o agente da Stasi, se pudesse “purificar”.

É um acto de desespero simbólico pessoal dele.

√ DIÁLOGO EM INGLÊS DEFININDO A TIPOLOGIA DOS ARTISTAS SUBVERSIVOS – manual de uso da Stasi ( O NÚMERO 4) E OS MÉTODOS A USAR.

Did you know that there are just five types of artists?

Your guy, Dreyman, is a Type 4, a “hysterical anthropocentrist.” Can’t bear being alone, always talking, needing friends. That type should never be brought to trial. They thrive on that. Temporary detention is the best way to deal with them. Complete isolation and no set release date. No human contact the whole time, not even with the guards. Good treatment, no harassment, no abuse, no scandals, nothing they could write about later. After 10 months, we release.

Suddenly, that guy won’t cause us any more trouble. Know what the best part is? Most type 4s we’ve processed in this way never write anything again. Or paint anything, or whatever artists do. And that without any use of force. Just like that. Kind of like a present.

Derivado do que ali está em cima, em inglês – que “muitos dos artistas de tipo 4 que a Stasi processava desta maneira nunca mais escreveriam, o mesmo acontece à personagem Dreyman. Cheio de desgosto e remorsos pelo facto de CMS ter morrido e nunca tendo tido a certeza de que teria sido ela que o teria traído entregando -o à Stasi, mas ao mesmo tempo não querendo acreditar nisso, Dreyman, não escreve,

Cai o Muro de Berlim em Novembro de 1989,e após a queda, Dreyman estánum teatro a ver ser representada a sua peça – peça essa que tinha sido uma das que ele tinha escrito especificamente para CMS e que esta tinha representado.

Dreyman não aguenta a memória da antiga namorada e si para a entrada da sala do teatro. Está lá também, o ex-ministro Bruno hempf. Trocam palavras e Dreyman pergunta a Hempf porque é que ele nunca foi vigiado.

Hempf, diz-lhe que está enganado e que ele foi severamente vigiado. Dreyman acaba afastando-se profundamente chocado e agastado com as pessoas de um regime que apoiou.

Mas isso traz-lhe a curiosidade de saber como foi vigiado. Vai ao museu da memória e pede o seu processo.

A VIDA DOS OUTROS - 4 Fica espantado com o enorme tamanho do mesmo, e começa a ler. Fica logo espantado com o tamanho do seu processo. E começa a perceber que CMS foi a delatora que o traiu; que os relatórios das escutas sobre ele não diziam o que se tinha efectivamente passado, que as escutas tinham sido ordenadas pelo ministro Hempf e que uma misteriosa personagem com o nome de código ” HGW XX/7 ” era o responsável por não lhe ter acontecido nada.

Pede para ver quem era HGW XX/7 e reconhece Wiesler. Este caído em desgraça após o caso Dreyman trabalhava na secção da Stasi destinada a abrir a correspondência de todos os alemães. Após a queda do muro de Berlim era carteiro.

Dreyman, que nada tinha escrito até aí, começa a escrever, e escreve um livro chamado “Sonata a um homem bom” – o nome de um livro que o seu amigo Jerska, o encenador que se tinha suicidado, ou auto assassinado para usar a terminologia RDA, lhe tinha oferecido. No prefácio do livro, nos agradecimentos está “Para HGW XX/ 7 , um homem bom” .

É a essa frase que se refere o que está la em cima em inglês ” do you like it gift wrapped? No, it is for me”.

É Wiesler / HGW XX /7 a adquirir o livro de Dreyman, o novo romance que este tinha finalmente conseguído escrever.

A VIDA DOS OUTROS - 6

13 Respostas

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  1. Um dos meus filmes favoritos…

    max

    18 18UTC Junho 18UTC 2008 em 20:48

  2. Max: eu pessoalmente um dos meus filmes favoritos é o Rambo 3.

    A estilização conceptual de cariz oriental desse filme sempre me fascinou, indo a par com os diálogos complexos e extensos dos personagens, especialmente do personagem principal, Jonh Rambo, bem como a simbologia da barra luminosa azul á dada altura indiciando uma subliminar e simbólica metáfora apelando ao mar e à paz das águas profundas. :mrgreen:

    dissidentex

    18 18UTC Junho 18UTC 2008 em 20:55

  3. Ahh claro claro, sem dúvida!! Mas pensei que essa questão nem se colocava :D :D

    max

    19 19UTC Junho 19UTC 2008 em 20:16

  4. Max: esta questão coloca-se porque existem energúmenos que persistem em negar a profunda qualidade estética e cinematográfica desse filme e as poderosas metástases narrativas que emergem do sentir das personagens. :cool:

    dissidentex

    19 19UTC Junho 19UTC 2008 em 20:47

  5. Este filme, o sobre a “Sonata a …”, também me impressionou muito. Vem-me frequentemente à cabeça, quase como uma parábola, acerca daquilo que sabemos ,ou julgamos saber, sobre o que se passa com connosco e à nossa volta, sobre as ilusões que cultivamos a partir dos ideais (imagens) em que acreditamos, muitas vezes ferozmente. Inteligente e inquietante.

    A

    20 20UTC Junho 20UTC 2008 em 6:38

  6. A: atenção que a sua ideia é vista a um nível pessoal sobe o filme.

    mas é necessário ver que o agente da Stasi só passa a saber o que se passa com os outros e consigo próprio de uma forma não livre, ou seja através de uma situação artificial que lhe é proporcionada pelo facto de ele ser um funcionário de um estado totalitário.

    Isso é diferente de pessoas conseguírem obter “o saber o que se passa connosco e à volta” por sua própria iniciativa e numa sociedade democrática.

    Ele ali foi “forçado” a saber isso e porque as pessoas que escutavam tinham muita densidade.

    O que também leva a outra situação que é a de saber se lhe aconteceria isso mesmo com pessoas sem densidade nenhuma, e também se em democracia normal, digamos assim, as pessoas tem tanta densidade como as pessoas que vivem numa ditadura.

    Quanto a ilusões cultivadas temos o grande exemplo da actual selecção nacional de futebol. Uma máquina de ilusões em que toda a gente acredita.

    dissidentex

    20 20UTC Junho 20UTC 2008 em 9:37

  7. O filme é uma obra artística e não necessariamente uma imitação fiel da realidade. Mesmo assim, far-nos-á distanciar da realidade e vê-la com outros olhos.
    Concordo inteiramente que este filme encena uma situação artificial, aliás impressionou-me muito o desprezo desapiedado do posterior “homem bom”, quando ensinava na escola de polícia e quando interrogava os prisioneiros.
    Também concordo que a densidade das personagens foi essencial para que se visse forçado a escutar o que o rodeava, de outro modo.
    Pergunto-me igualmente, se, numa sociedade percebida como totalitária, as pessoas não serão forçosamente mais densas, precisamente pelo aguilhão que a falta de liberdade causa.
    O meu ponto é o último: numa democracia, com tanta informação à solta, disposta de tanto modo, a tarefa pessoal do “bom” conhecimento é muitíssimo exigente. Pede cultura, espírito crítico, muita atenção e, mesmo assim, não é garantido que não se sofra de assimetria de informação.
    Hoje em dia, tenho muitas dúvidas sobre se sabemos o que realmente se passa em muitos sectores, onde não temos condições para descodificar a linguagem técnica dos especialistas (as questões ligadas ao ambiente ou à medicalização artificial da vida são um bom exemplo). É assim que também não acredito na total benignidade da e-informação disponível na internet, embora ache este meio extraordinário.
    Seja como for, a minha imagem ideal seria a de uma democracia, onde se pudesse produzir, e ter acesso a, informação, conhecimento e obras de arte cada vez credíveis, interessantes e verdadeiramente estimulantes pela sua criatividade.
    Um pouco diferente daquilo a que assistimos na nossa presente vida cívica, a caminho da idade das trevas.

    A

    20 20UTC Junho 20UTC 2008 em 15:18

  8. A: eu começo a achar que numa sociedade totalitária as pessoas são mais densas que numa democrática.
    Isso não significa que eu apoie que vamos a correr instaurar uma sociedade totalitária para gerarmos pessoas mais densas.

    E tenho outra dúvida que é a de que: porque é que não surgem mais pessoas densas em democracia do que em ditadura. Qual é o impedimento?

    Não sabemos o que se passa em muitos sectores mas percebemos que as coisas não estão nada bem em muitos sectores.
    Mesmo descontando a parte técnica de não se perceber o trabalho dos especialistas. É para isso que supostamente existirão muitos especialistas de todas as áreas para se verificarem uns aos outros.

    O problema em Portugal em que está a existir uma perigosa tendência de não existirem muitos especialistas em todas a áreas, mas sim pequenos grupos de iluminados.

    Quanto À benignidade da Internet ela existe, mas é preciso descodificar e cruzar informação e analisá-la.

    Para se ” produzir ” isso terá que ser uma equipa de pessoas – 6 ou 7 e financiado ou politicamente ou as 5 ou 6 pessos serem profissionais e consguirem-se manter a fazer isso e desde que haja publico para tal.
    Em portugalnão há.
    Por exemplo, isto que acabo de escrever demonstra as limitações deste blog. Sou só um e estou orientado para a idade das trevas…

    Voltando atrás ao filme: não fiquei com a ideia que fosse só uma obra artística no sentido puro do termo. Pareceu-me que era um projecto muito pessoal do realizador que também escreveu o argumento e forma como foi escrito indiciava conhecimento pessoal de partes do que estava descrito no filme.

    E o facto de os actores terem aceite fazer o filme cobrando apenas 20% do cachet que habitualmente cobrariam diz muito da ” intenção ” de toda aquela gente em fazer o filme.

    dissidentex

    20 20UTC Junho 20UTC 2008 em 16:01

  9. “Voltando atrás ao filme: não fiquei com a ideia que fosse só uma obra artística no sentido puro do termo. Pareceu-me que era um projecto muito pessoal do realizador que também escreveu o argumento e forma como foi escrito indiciava conhecimento pessoal de partes do que estava descrito no filme.”

    E o facto de os actores terem aceite fazer o filme cobrando apenas 20% do cachet que habitualmente cobrariam diz muito da ” intenção ” de toda aquela gente em fazer o filme.”

    Ainda bem que tal se passou, porque criaram, competente e generosamente (eu acho assim) a oportunidade de porem outras pessoas a pensar numa assunto da máxima importância.
    Não tenho uma veneração especial pelas puras obras de arte, se elas não forem verdadeiramente interessantes e se não disserem nada a outros seres humanos.

    A

    20 20UTC Junho 20UTC 2008 em 17:03

  10. Não se confunda, de modo nenhum, o que quis dizer na última frase com a necessidade de agradar às massas, coisa que acho, em si e por si, detestável.

    A

    20 20UTC Junho 20UTC 2008 em 17:09

  11. A: o que eu quis dizer é que ou os actores tiveram alguém na família que passou por aquilo, ou o realizador ou o que fosse; o que é certo é que sentiram que tinham que fazer aquilo e com aquela intensidade.

    O filme é muito bom.

    dissidentex

    20 20UTC Junho 20UTC 2008 em 21:19

  12. Se AQUI já é ASSIM… já pouca esperança heverá para outros países com menos tradição social como nós.

    Bem que o nosso primeiro diz sempre que são o modelo a seguir.
    Estamos bem lixados, estamos!

    Mário da Silva

    21 21UTC Junho 21UTC 2008 em 3:07

  13. [...] comunismo e Stasi mais abjecto verificar o artigo “A vida dos outros” sobre um filme feito na Alemanha à propósito de escutas e vigilância electrónica durante o [...]


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