LIVRO – O QUE RESTA DA ESQUERDA – NICK COHEN.
Livro: “O que resta da esquerda” do autor Nick Cohen, um jornalista inglês.
Editora aletheia – apresentação no sitio “Critica literária” – 2007.
A editora Aletheia é uma editora recente, lançada por Zita Seabra, ex-membro do pcp há uns anos atrás e actualmente membro do PSD. Explica-se desta forma pelo facto de ser a editora que é; a razão de ser das opções editoriais. Cita-se:
“Questionada sobre os critérios de edição, Zita Seabra afirmou que a Alêtheia quer publicar 120 livros por ano, seleccionados de acordo com opções culturais e comerciais.” Diário de Noticias – 08 – 10 – 2005
Mas então a editora não pode escolher editar o que quiser, ò reaccionário?
Claro que pode. Convém é que o faça com pés e cabeça e não cometa erros básicos como este, na ânsia política de publicar algo que representa um esforço comercial mas também uma opção cultural para dar alfinetadas, e fazer guerra ideológica sobre o BE, no PS ( numa parte) e no PCP que até as merece. Ou seja, não fazerem m*erda da grossa como está aqui em baixo.
A imagem em cima pertence à página 10 do livro. A imagem em baixo pertence à contra capa. É evidente que este erro não tem directamente a ver com o conteúdo, mas mostra bem uma série de coisas. Na página 10 temos um professor de inglês, na contra capa temos uma querida e atenciosa professora de Inglês.
Já agora: o livro tem a indicação das fontes feita pelo próprio autor, mas não tem índice remissivo.
Nada mau para um “livro político”…
♦
Este livro é muito difícil de comentar, porque é difícil escrever sobre um livro globalmente muito mau, mas que tem dentro dele partes muito boas.
Entre factos e criticas correctas que Cohen aponta á esquerda, surgem também numa mistura confusa pequenos truques rasteiros e muita desonestidade intelectual de Cohen relacionada com este assunto, bem como “ajustes de contas” sobre a forma de recados e remoques sobre as diferentes actividades de diferentes personalidades, inglesas e estrangeiras.
Uma das religiões que é mais arduamente defendida no livro é a religião do anti-anti-americanismo.
Isto é; quem criticar os americanos, mesmo que salte à vista desarmada que os EUA estão a cometer um qualquer erro ou asneira gigantescos, deverá, por sua vez, ser criticado ferozmente e ser apelidado de “anti americano” em tom absolutamente depreciativo.
Dois aspectos.
- Não só isto constitui uma isenção de critica aos norte americanos;
- Como é também assim constituída uma quase “excepção oficial”:
O resultado é simples.
Todos podem e devem ser criticados, menos os americanos, porque são os “combatentes da liberdade” e os combatentes da liberdade não são passíveis de serem criticados.
Adicionalmente:
Também é uma maneira de “isolar” pessoas que não sendo esquerdistas, nem de extrema direita, não apreciem as políticas norte americanas nem com molho de tomate em cima ou senhoras de seios volumosos a saírem de dentro de um bolo a amenizar a falta de aprovação dos actos norte americanos.
Somos todos obrigados a gostar de norte americanos e das suas políticas. É como um restaurante onde só se sirva bolo de bolacha e todos tem que gostar, gostem ou não.
♦
O problema do livro não está no conteúdo (opções) do livro, e no facto de “criticar” a esquerda. Mas sim nos truques rasteiros que Cohen – que se diz de esquerda – usa para o fazer e de como, na quase totalidade do livro cria um lógica intelectualmente desonesta ao serviço dos pontos de vista que pretende demonstrar e que, alguns, não são os da esquerda mas os da direita e da mais profunda. (Nesse aspecto o branqueamento de Paul Wolfowitz, de George Bush, de Tony Blair são notáveis…)
Nas páginas 78 a 90 da edição portuguesa isso nota-se bastante e na zona 88-91 faz a apologia de Paul Wolfowitz da seguinte maneira:
Página 91 ” Ouvimos Wolfowitz apresentar um apelo coerente á ajuda ao movimento democrático no Irão contra os sacerdotes. Era difícil não ficar impressionado com a seriedade dos seus objectivos”.
( Após a implementação do “movimento democrático no Irão” teremos evidentemente a implementação da democracia simplificada, assente no modelo económico neoliberal, mas disso, desses “efeitos”, Cohen não diz uma palavra…) *
E é mais irritante ainda porque para “contrabalançar” este elogio totalmente descabido às operações de propaganda do senhor Wolfowitz, o mentor do projecto PNAC, na página 92, imediatamente a seguir, Cohen critica as políticas norte americanas dos conservadores relacionadas com os soldados americanos; após as comissões de serviço no Iraque regressam a casa.
E percebem, que os ricos que detinham o poder durante o tempo em que estiveram fora, a combater pela América, alteraram as leis. Uma das alterações foram as ajudas a veteranos de guerra – tinham sido “retiradas” – os soldados não tinham qualquer tipo de ajuda para reestabelecerem a vida.
Foi a mesma administração da qual o senhor Wolfowitz fez parte que tomou estas decisões.
O livro todo tem exemplificações deste tipo – estes truques rasteiros; o “dar uma no cravo, outra na ferradura”…
Outra coisa altamente irritante é o seguinte:
Partes em que as nacionalidades dos mais variados intervenientes são colocadas antes do nome ( o Irlandês “X” , o Escocês “Y”,etc) mas curiosamente Tony Blair, George Bush e Wolfowitz, nunca são designados por “o americano ” Bush, o “Inglês” Blair…
A associação de ideias é óbvia visando lançar uma “sombra” sobre as nacionalidades dos intervenientes. Que seriam pessoas “anti poder” e anti Grã-Bretanha, ou anti países anglo-saxónicos, ou “anti conceito de liberdade existente nos países anglo saxónicos” ( a única, a verdadeira, a legítima…)
Há uma parte em relação a Eric Hobsbawm, um excelente historiador, mas marxista, que é sintomática. Hobsbawn é citado a dar uma opinião política, mas é apresentado como sendo “o Historiador “Marxista” Eric Hobsbawm.
A opinião citada de Hobsbawm é política, não marxista, nem de “historiador”, mas as palavras ” Historiador Marxista” aparecem no meio daquilo. Todas as pessoas que ele não gosta ou tem interesse em denegrir (justamente ou injustamente, não interessa) desta forma “subtil” são rotuladas depreciativamente. Já Tony Blair é apenas “Tony Blair….ou Bush é apenas George Bush…
♦
Contudo, o livro tem duas partes muito boas:
- a História pessoal de Kanan Makiya, um refugiado iraquiano que em 1981, sob o pseudónimo de Samir Al Khalil, publicou um manuscrito ( com risco da própria vida ), chamado “a República do medo” onde descrevia a vida horrível, o terror completo, no Iraque debaixo do regime de Saddam Hussein.
- Outra parte muito boa, é a descrição da Guerra da Jugoslávia e subsequente fragmentação. E como a política inglesa da altura ( liderada pelo partido conservador de Jonh Major – a direita que não presta…) agiu em relação ao Balkans, bloqueando toda e qualquer intervenção da União Europeia.
♦
( Cohen nesta parte não faz qualquer elogio a franceses e alemães relacionada com o desejo destes intervirem na ex-Jugoslávia. Noutras partes do livro está sempre a dar alfinetadas à “Bruxelas”, à França, à Europa… (justas ou não, mas é este o tipo de lógica deste livro, de parcialidade…)
♦
Estas duas partes são muito boas porque Nick Cohen conhece pessoalmente Kanan Makiya e escreve umas boas 130 páginas sobre a história pessoal de Makyia, da sua família e do Iraque.
Também conhece pessoalmente no que à Guerra da Jugoslávia diz respeito, o senhor Marko atila Hoare, especialista nesta área, e que escreve no Blog Greater Surbiton.
E também ao conjunto de tipos (entre os quais M. A Hoare) que escrevem sobre o fim das tiranias e quejandos no Harry´s Place
Percebe-se isto claramente no livro – que as melhores partes vem daqui – destas pessoas. O resto de Cohen são ajustes de contas, (Galloway, Gerry Healy e Ken Livingstone, ex- mayor de Londres) (Note-se que Galloway e Healy são do mais detestável que há…) demagogia, anti europeísmo, personificado, especialmente nos sentimentos anti França, Espanha e Europa ( Bruxelas).
( Chomsky e Michael Moore são também arrasados…embora por razões diferentes e no caso de Chomsky bem arrasado…)
Também é interessante notar – notei duas vezes pelo menos ( existem mais, mas estava distraído) – que Nick Cohen cita pessoas e influências sem as citar. Uma série da BBC de 2007 que rebenta argumentativamente com a direita neoconservadora e com a “esquerda Blairista”, bem como um certo filosofo de origem eslovena estão entre os “não citados”… (Mas há lá mais…) (Também faço o mesmo, cito o que ele cita sem citar…)
♦
O núcleo central de questões que Cohen é coloca é o seguinte:
- Existe o mal absoluto e o mal absoluto era o Iraque de Saddam Hussein.
- O mal absoluto deve ser combatido.
- O Iraque de Saddam Hussein, ultrapassou qualquer tirania mais abjecta.
- A esquerda política (no livro designada por liberal, derivado da palavra inglesa “liberals” que será traduzível por pessoas de esquerda), que desde sempre combateu as tiranias não tem outra opção:
tem que ser a favor da deposição de uma tirania- agora e nos dias de hoje – tal e qual o foi no passado.
(A comparação com as circunstâncias do passado é desonesta.)
Esta é basicamente a mensagem – o núcleo deste livro.
♦
Tese central do livro: Cohen coloca quem o lê perante um dilema filosófico e político de resposta impossível para qualquer adepto da esquerda ( e mesmo de direita). Para qualquer cidadão…para o meu gato até…
O dilema é: se não formos contra a tirania do Iraque, seremos obviamente anti democráticos, ou pessoas de extrema esquerda , ou pessoas de extrema direita, nunca seremos “democratas”.
A questão é colocada de uma forma definitiva.
De um lado os defensores da liberdade contra a tirania, e do outro quem não é – imediatamente identificável – contra o derrube das tiranias – quer dizer, desta tirania do Iraque…
Depois Cohen avança e põe outra questão de outra maneira: “o que é que leva a esquerda” liberal (como ele a designa) a adoptar o programa político da extrema direita ou da extrema esquerda?
♦
Esta forma de raciocínio é do pior que se pode encontrar. “Obriga” a que um cidadão, seja de esquerda ou não seja, tenha obrigatoriamente que declarar o seu apoio à invasão do Iraque de 2003, porque, caso não o faça, é apelidado como estando a fazer o jogo da extrema direita ou o jogo da extrema esquerda (ou o jogo do extremo centro…)
As pessoas ficam assim colocadas numa posição em que estão a ser chantageadas – é colocado em causa o seu apego à democracia…
(Isto lembra-me também o Macartismo, quando actores e escritores de filmes em Hollywood dos anos 50 tinham que comparecer numa comissão do Senado americano, para declararem que não eram comunistas nem tinham alguma vez pertencido ao partido comunista. Caso afirmassem que não queriam responder a essas perguntas eram imediatamente colocados sob suspeita e vistos como comunistas e os estúdios deixavam de os contratar. A alternativa era violentarem a sua consciência ou passarem fome… ou traírem terceiros ou desconfiarem de tudo e todos e agirem sempre assim).
( No cinema a história é contada num filme de 2005 – Good Night and Good luck – que mostra o conjunto de reportagens feitas pelo jornalista Ed Murrow acerca do Macartismo e de como isso contribuiu para derrubar as ideias de “caça às bruxas” na América dos anos 50)
♣
A tese acessória deriva da tese central e é a seguinte:
É preferível viver numa “sociedade liberal” do que numa tirania semelhante à iraquiana. Isto é verdade e não se discute. Mas…
Por isso quem vive numa democracia, não pode apoiar manifestações ou protestos que visem impedir o derrube de um regime fascista, porque entre o fascismo e a democracia, o fascismo não se apoia. ( É claro que esta lógica leva inevitavelmente a que outras manifestações contra outros problemas sejam também rotuladas como proto fascismo…por exemplo…)
Mais uma vez colocadas as coisas assim, a desonestidade é evidente, precisamente porque não se pode comparar o incomparável, e porque esta forma de comparação apenas serve de justificação – isto é para que todos nós achemos ser aceitável – que uma “democracia liberal” funcione mal (seja corrupta, injusta, etc), ou que “ditaduras suaves” sejam toleradas.
Vistas as coisas assim, tudo isto legitima e torna aceitável o rebaixamento dos padrões democráticos de uma qualquer sociedade democrática – liberal.
Isto é, desde que os padrões de vida e de democracia de uma “sociedade liberal” sejam mais elevados do que os padrões de uma ditadura ( e são sempre ), isso autoriza a que os organizadores de uma sociedade liberal/democrática possam descer os padrões até níveis bastante baixos, mas sempre a um nível acima do das sociedades totalitárias.
E a legitimidade democrática – segundo este padrão falso – é assim criada.
Por exemplo, segundo esta lógica, é aceitável a prática da tortura em Guantanámo, porque é feita por uma sociedade “liberal” , e esta sociedade liberal, supostamente, possui mecanismos de correcção e parte de uma plataforma moral superior.
Por oposição a uma ditadura sanguinária que faça exactamente o mesmo que se faça em Guantánamo.
Portanto, de um lado temos algo de mau, e do outro temos algo de muito mau.
Como a classificação “algo de mau” é melhor do que a classificação de “algo de muito mau”, parece Cohen opinar, é legitimo aceitar isto assim.
♦
Sobre Capitalismo, tirania dos mercados e corporações, manipulação de Estados e influência sobre organizações internacionais e da forma como estas condicionam o poder político e a democracia, nada se diz no livro de Cohen, nem se relaciona a esquerda ou a direita com estes contextos.
Nem como os interesses económicos destas mesmas corporações estão a começar a ameaçar e a destruir os sistemas políticos democráticos nos quais Nick Cohen pode livremente escrever livros sobre o fim de tiranias…geograficamente distantes.
* Também é de notar que o facto do petróleo e a posição geo estratégica do Iraque não serem mencionadas por Cohen, nem nunca ter mencionado a possibilidade de uma invasão … sei lá… do Zimbabue, onde um ditador sanguinário existe. O Zimbabue é longe, vale zero geoestrategicamente, e não tem petróleo, só gazelas…
Mas mais perto, temos também a Bielorússia.
- No blog “Esquerda- Republicana” existe um post dedicado a Nick Cohen com uma citação em Inglês onde ele está dar na cabeça de muçulmanos e no multiculturalismo
- No blog “menino rabino” existe a transcrição de uma entrevista de Cohen feita a Teresa de Sousa no Jornal Público em 2005
- No blog Agua lisa 6 existe uma recensão sobre o livro diferente desta feita aqui,onde o objecto da mesma é mais colocado sobre as cacetadas que Cohen dá sobre a extrema esquerda.
- No blog “Mare liberum “existe um conjunto de citações do livro” (que infelizmente só chegam à página 80), que demonstram mais ou menos o estilo global do livro.
O livro é perfeito para atacar ideais de esquerda (os verdadeiros) e para lançar a confusão na cabeça de quem o lê (pelo menos da maior parte das pessoas).
Notas finais:
A) o livro deve, apesar de tudo, ser lido;
B) O livro parece muito bom; não o é; sob qualquer ponto de vista que se queira escolher (excepto pelas duas partes que expliquei mais acima)
C) Era um livro que me gerava enormes expectativas, e que é uma desilusão completa no que interessava perceber…
C) Agradecimentos à Sabine por me ter enviado há um ano notícia acerca deste livro.





[...] by dissidentex em Setembro 5th, 2008 No artigo anterior a este, que descrevia o livro “O que resta da Esquerda” do jornalista inglês Nick Cohen, a dada altura mencionava – relacionado com o contexto do livro – o anti americanismo e [...]
GUANTÁNAMO. « DISSIDENTE-X
5 05UTC Setembro 05UTC 2008 em 8:20
“”"”" Cohen nesta parte não faz qualquer elogio a franceses e alemães relacionada com o desejo destes intervirem na ex-Jugoslávia.”"”
nem a França nem a Alemanha desejaram intervir na ex-Jugoslávia. no caso da alemanha isso prendia-se com condicionalismos que impediam a alemanha de usar a força militar excepto para defesa do próprio território, situação que apenas foi alterada no final dos anos 90.
em relação à França: Miterrand comportou-se da mesma maneira que Major. Chirac não foi muito melhor.
no caso dos alemães, a situação é um pouco diferente. importa destacar que a ideia de que a desintegração da jugoslavia foi precipitada pelo reconhecimento prematuro por parte da alemanha da croácia é falsa. a Comunidade Europeia tinha acordado que faria esse reconhecimento após uma moratória de 6 meses. quando chegou essa data, por pressão do reino unido, não o fez, e só aí é que a alemanha avançou.
nessa altura já a cidade de dubrovnik tinha bombardeada e saqueada e a cidade de vukovar totalmente arrasada pelo exército jugoslavo.
depois, durante a guerra, o comportamento tanto dos militares ingleses como dos franceses que faziam parte da UNPROFOR foi absolutamento vergonhoso. já para não falar do caso dos militares holandeses em Srebrenica.
sarahfranco
5 05UTC Setembro 05UTC 2008 em 8:26
Sarah: não é isso que ele dá a entender no livro.
Ele quase que coloca as questões como sendo a Inglaterra do Major que sistematicamente só bloqueia a intervenção nos balkans enquanto que os franceses e alemães queriam intervir quase no inicio do conflito…
Só se ele se está a referir à segunda parte do teu comentário, relacionada com a pressão do RU em relação à moratória, mas não creio, não fiquei com essa impressão.
Ele não chega a entrar pela situação depois – ou seja pela guerra- antes relaciona isso com a actuação dos conservadores vs Blairismo, e o blairismo no caso da Jugoslávia é usado para posteriormente justificar o Iraque em 2003, sendo apresentado o Blairismo e a actuação na Jugoslávia como o prenuncio de uma coisa fantástica que vira depois desembocar na invasão do Iraque.
Ma aquilo também e ao mesmo tempo é um discurso algo confuso porque ele depois cita personagens da política inglesa da extrema esquerda e as manobras deles,etc e isenta sempre de culpas os ingleses na era Blair e culpa sempre Jonh Major e os conservadores, isto entre alfinetadas aos franceses,etc.
Nota-se que Foi o M.A.HOARE que forneceu a parte da Jugoslávia devido às criticas que ele faz ao Chomsky e ao outro professor que afirmam que não existe genocídio,etc…
Como digo ali no post, o livro deve ser lido, mas é em alguns aspectos do mais demagógico que há.
É como ler o Bloco de esquerda ao contrário em certas partes…
dissidentex
5 05UTC Setembro 05UTC 2008 em 8:36
não sei por que dizes que foi o Hoare… no Reino Unido o que não faltam são pessoas com conhecimentos profundos sobre a ex-Jugoslávia, e parece-me que este é um caso de convergência de pontos de vista, mas não da forma como estás a ver.
http://www.amazon.co.uk/Unfinest-Hour-Britain-Destruction-Bosnia/dp/0140289836
esta questão foi o motor de profundas fracturas na esquerda britânica, mas também, em menor medida, na direita.
este livro que analisas espelha bem o debate sobre a esquerda no Reino Unido. este debate revela também que para os britânicos a União Europeia não é vista como algo de importante. não contam com a UE para grande coisa, nem estão particularmente preocupados em reflectir sobte a ideia de esquerda no contexto europeu.
referes-te ao bloco de esquerda: pelo que tenho observado do reino unido, a extrema-esquerda portuguesa é composta por verdadeiros meninos de coro. a extrema-esquerda britânica comporta-se exactamente da mesma maneira da extrema-direita.
em portugal é possível, apesar de tudo, dialogares com uma pessoa do bloco. eu não me dou ao trabalho, mas apesar de tudo, é possível. à medida que o PS se chega para a direita, o bloco vai-lhe ocupando o espaço deixado livre à esquerda, mas para isso tem de moderar o tom.
no reino unido não há diálogo possível, só pugilato… e como ainda por cima muita da esquerda moderada passou pela esquerda radical na juventude, conhecem-lhes as manhas todas…
as críticas ao Chomski foram precisamente o que me levou ao encontro desta malta.
mas não só isso: a agradável experiência de comentar em faróis da esquerda como o saudoso Tugir em Português ou as também saudosas caixas de comentários do bicho carpinteiro fizeram-me perceber que existe um padrão, um bicho que corrói a esquerda por dentro:
os debates decorrem desligados da noção de que a política influencia a vida real das pessoas… quando a realidade contraria as ideias bonitas dos ideólogos, ignora-se a realidade. quando alguém insiste em continuar a falar da realidade é hostilizado e corrido do clube
sarahfranco
5 05UTC Setembro 05UTC 2008 em 9:02
Vejo que não mudaste de opinião em relação a uma série de assuntos. Tenho a dizer que eu também não mudei.
Quando te enviei o link do Nick Cohen não dava muito por ele: depois de ler a tua resenha fiquei com a sensação de que a minha intuição estava certa.
Ainda assim, parece-me bem útil a leitura tanto dos dois blogues que referes: The Greater Surbiton e Harry´s Place
sabine77
5 05UTC Setembro 05UTC 2008 em 9:56
Sarah: vamos lá a ver a coisa.
Digo que ele pegou em coisas do Hoare e seguiu essa linha – algures inflecte e mete outras coisas e fala de outros assuntos.
A razão pelo qual penso que foi o Hoare é porque me pareceu lógico que tenha sido a partir do Hoare que ele faz a parte da Jugoslávia. Mas ele não pegará completamente em tudo o que o Hoare , ele pega no hoare até à parte em que lhe interessa.
Eu não sei se existe “convergência de pontos de vistas” depois de ler o livro todo uma vez que as misturas de assuntos que ele lá mete são imensas.
E há uma parte do discurso dele que ele na prática classifica como sendo isso um “discurso de esquerda” que é apenas e só uma replica do discurso dos neoconservadores norte americanos.
Portanto das duas uma, ou ele não é de esquerda e julga que é, ou os neoconservadores é que são de esquerda.
Isso depois manifesta-se em criticas dele por exemplo a muçulmanos e a isenção de criticas a cristão, hindus o que seja.
Podemos dizer: bom mas existem bombistas fundamentalistas muçulmanos. Ok.Mas o ponto é que ele critica o multiculturalismo e as excepções culturas SÓ nos muçulmanos.
E o tom todo do livro é isto.
Quando eu me refiro ao bloco de esquerda refiro-me ao discurso, á lógica do discurso.
Dizes-me que a extrema esquerda britanica comporta-se exactamente como a extrema direita.Mas ele no livro não dá a entender isso directamente. Dá a entender que toda a esquerda, toda a extrema esquerda, toda as pessoas que não sejam exactamente politizadas ou de esquerda, pelo simples facto de terem participado em manifestações contra a guerra do Iraque estão todas no mesmo saco e são todas anti democracia.
Ele não faz na prática distinção nenhuma entre uma coisa e outra.
O ponto de partida dos argumentos dele é um ponto de partida ABSOLUTAMENTE IDÊNTICO ao dos neo conservadores.
Existe uma tirania e é o dever dos democratas combaterem a tirania.
Questões relacionadas com o facto de se ter escolhido combater esta tirania e não uma outra qualquer são consideradas como sendo “tiques”
É claro que existem depois diferenças entre o “dialogo” cá e lá. não discuto isso.
Mas o ponto é que ele liga isso – a total falta de dialogo e o clima de guerra total entre a extrema esquerda inglesa/a direita e o resto a como sendo uma situação geral na Europa, e comum e como sendo apenas antiamericanismo.
Isto misturado ainda com umas influências das teorias do equilíbrio de poder na Europa que se notam no raciocínio dele- ou seja a Gra Bretanha não precisa da Europa,etc , daí o desprezo dele pela Europa que se sente no livro e uma lógica de culpar a “velha Europa” pelos problemas, isto conjugado com a extrema esquerda.
Quanto ao Chomsky aparece lá na página 138, salvo erro,após o Kanan Makiya e após o Healy e muitas outras alfinetadas, mas o problema daquele livro é sempre o mesmo.
A concepção de que se não se lutar em qualquer luta arranjada pelos americanos contra a” tirania ” é-se de extrema esquerda ou de extrema direita.
É um pensamento unificado completo ali.
E tem imensa piada que fales do Tugir e do Bicho carpinteiro: é que uma parte do discurso do Nick Cohen é exactamente idêntica a uma parte do discurso do PS quer na vaiante esquerda moderna ,quer na variante esquerda antiga.
Ele começa o livro a criticar o conceito de superioridade moral da esquerda, dando exemplos da sua própria família e de atitudes que se tinham quando ele era pequeno.
Estava a ler aquilo e o que ele criticava era exactamente as ideias e as manias de uma certa esquerda do PS, embora noutros assuntos ( a aversão dele à extrema esquerda, justa ou não, não importa…) ele tenha um discurso exactamente parecido ou idêntico ao que as pessoas do PS tem quando se referem ao Bloco de esquerda.
Pelo meio ele branqueia o Blair. Ele tem lá uma frase em que diz que ainda não percebeu se o Blair e o NEW labour são de esquerda ou não.
Perante isto batatas.
Isto é o equivalente a alguém ainda não ter percebido se o PCP é estalinista ou não…
E quanto à tua frase de que os debates decorrem desligados da noção de que a política influencia a vida real das pessoas concordo.
E como não poderiam estar desligados?
São as mesmas “ideias” de desligamento das noções de realidade que são defendidas por Nick Cohen,
Ele estava ali a defender em parte o conceito de liberdade negativa do Isaiah Berlin.
Uma sociedade sem ideais em que cada um faça o que quer sem incomodar os outros.
Isso gera uma sociedade em que os debates decorrem desligados da noção de que a política( a economia) influencia a vida real das pessoas.
dissidentex
5 05UTC Setembro 05UTC 2008 em 10:00
Sabine: a questão é que o livro , segundo me pareceu, visava dar alfinetadas na extrema esquerda britânica e contar a história do Kanan Makyia.
Ma ele depois a partir daí descamba para uma completa demagogia em certos aspectos que é atroz…
Dei comigo a pensar enquanto lia o livro,que caso fosse de direita, (da direita “inteligente” não gostaria nem um pouco de um livro daqueles que supostamente questionaria a esquerda – fiquei com a ideia que ele é um arrivista …
dissidentex
5 05UTC Setembro 05UTC 2008 em 10:03
há um ponto comum importante com os neo-conservadores, que é o facto de que as principais figuras de ambos os grupos pertenceram a grupos de extrema-esquerda durante a juventude.
sarahfranco
5 05UTC Setembro 05UTC 2008 em 15:10
Sarah: vai ver na wikipedia, qual é o ponto comum entre o Kanan makyia e outros iraquianos ilustres que os americanos apoiaram logo após esta última invasão …
dissidentex
5 05UTC Setembro 05UTC 2008 em 15:31
Foi essa tendência para lavar a roupa suja que me chamou a atenção no livro e ao mesmo tempo que me levou a estar de pé atrás.
A Wikipédia é um bom ponto de partida mas é má se for a única fonte de uma ideia.
sabine77
6 06UTC Setembro 06UTC 2008 em 10:17
SABINE77: não é bem lavar a roupa suja que ele faz. ele parte de pontos de partida correctas e verdadeiros para fazer criticas a uma certa parte da esquerda britânica ou extrema esquerda que é detestável. Mas depois generaliza isso a outras questões e assuntos e mistura outro tipod e situações. Isto a par com omissões sobre certos assuntos.
O resultado é que em certas partes do livro ele está, de facto a defender os neo conservadores sempre tudo baseado na ideia de que “a esquerda deve combater tiranias”.
Mas a ideia que dá é que ele só considera como sendo uma tirania,um qualquer regime político detestável. Só isso é que é tirania e só isso é que é um dever da esquerda combater.Se existirem outras tiranias de outro tipo não se faz nada.
dissidentex
6 06UTC Setembro 06UTC 2008 em 10:26
[...] EUA, IRAQUE, MAU JORNALISMO, PAÍSES, VIGARISTAS by dissidentex em Setembro 10th, 2008 No artigo “livro – o que resta da esquerda- Nick Cohen”, a dada altura escrevi o seguinte: “…O núcleo central de questões que Cohen é coloca [...]
CAÇAS F16 E O IRAQUE. « DISSIDENTE-X
10 10UTC Setembro 10UTC 2008 em 22:03