BCP, OS FUNDOS DE ACÇÕES E A CRISE…
Por vezes, quando é feito um post sobre um determinado assunto e que mencione as peculiares formas de “subversão” deste país; certos caminhos “errados” propositadamente escolhidos e que prejudicam a generalidade da população, é usual receber “reservas ” segundo as quais “isso não será bem assim”.
E de quando em vez tenho a oportunidade de mostrar com pequenos exemplos, como as coisas não funcionam, de como a “transparência do mercados” não existe, de como as entidades reguladoras não regulam nada.
E como, na minha opinião, tudo isso são as verdadeiras características de um regime político português corrupto, decadente, a cair de podre, que pactua sempre sistematicamente, com certas formas de fazer as coisas.
Um regime que foi criado para “ser melhor” do que aquele que vigorou até 1974, mas que apenas consegue ser um glorioso fracasso…
Certas formas de fazer as coisas foram tornadas “legais”.
A lei é usada como instrumento de subversão do papel que a própria lei deveria ter; de correcção de certos comportamentos.
Ø
Um pequeno exemplo pode ser dado relativamente ao BCP – banco comercial conhecido por Millenium BCP e pelas suas actividades comerciais-bolsistas.
- NOTA: sou cliente do BCP, mas já estive mais longe de deixar de ser.
Ø
Como toda a gente sabe, pode-se pôr dinheiro num depósito a prazo, num banco. Normalmente a taxa de juro pela qual somos remunerados por pormos o dinheiro num banco é “pequena”.
Por causa disso, muitas pessoas optam por outras alternativas. Comprar Obrigações, acções, etc.
Para responder a essa procura que clientes com mais ambição tinham, surgiram instrumentos financeiros, tais como, os fundos de acções. Um fundo é um grupo de – por exemplo – acções de diversas empresas agrupadas nesse mesmo fundo.
O investidor, o particular, quem quer investir, em vez de comprar 1000 acções de uma empresa, e ter que gerir por si só o valor das mesmas, opta por pedir ao banco que faça essa gestão do seu dinheiro por si. O banco faz através do fundo de acções; o banco compra várias acções de várias empresas e gere o dinheiro desse investidor através desse fundo de acções.
Os gestores do fundo de acções antes de começarem a comprar analisam o mercado e compram / vendem vários milhões de acções de várias empresas utilizando o dinheiro dos clientes que compraram títulos de participação no fundo ( de vários milhares ou milhões de clientes).
Parte-se evidentemente do principio que existe uma relação de “confiança” por parte dos particulares que investem em fundos, assente na notoriedade do banco e na, supostamente percebida, capacidade correcta de gestão do Banco e dos seus gestores.
Ø
Isto acontece, teoricamente, num mundo ideal.
No mundo português acontece o que se vai ver a seguir.

A imagem mostra um gráfico da cotação das acções do BCP-Millenium desde 2003 até 2009.
Os números da coluna do lado esquerdo (até4.25) significam o preço (a vermelho) alcançado pelas acções do BCP. Os números do lado direito em coluna (azul) significam o volume de acções vendidas (em milhões).
O preço mais alto mostrado no gráfico, foi atingido na data de 7 de Julho de 2007, em que cada acção do BCP valia 4.25 euros.
Desde Julho de 2007, que a acção não para de cair e a 13 de Março de 2009, fechou a valer o.64 cêntimos por acção.
São mais de 400% de desvalorização da acção BCP. Resta saber como é que alguém pensou que a acção valia 4.25 euros em Julho de 2007 (mas isso é uma outra conversa…)
Ø
NOTA DE AVISO EM 13 DE MARÇO DE 2009: se alguém estiver com ideias de comprar lembre-se, ao olhar para o gráfico, que as acções continuam em linha de descida. ATÉ ONDE? Talvez até baterem no fundo…
Ø
E o que é que isto tem a ver com fundos de acções? Tudo e nada…
Ø
O BCP – Millenium lançou há uns anos um fundo de acções chamado Millenium Acções Portugal. Um fundo constituído por várias acções de várias empresas.
Desde Setembro/ Outubro (Valor liquido Global do fundo: 69 945 217. 92) do ano passado (2008), este fundo tem andado sistematicamente a vender certas acções de certas empresas e a comprar outras acções de outras empresas.
Até aqui, nada de anormal, são os gestores do fundo a recomporem a carteira de acções que o fundo detém e a procurarem melhores acções com melhores possibilidades de valorização dos activos do fundo.
Na teoria é assim que se passa. Na prática…. o que se tem passado é diferente…
- NOTA: eu não tenho quaisquer unidades de participação adquiridas neste fundo ( ou noutros) à data de feitura deste post, nem planeio vir a ter.
Ø
Em Novembro 2008 ( Valor liquido Global do fundo: 66 159 679.94) as vendas de acções de certas empresas continuavam e as compras de outras também.
Os “resgates” (pessoas que vendiam as suas unidades de participação no fundo) também continuavam e (A) eram mais os resgates do que (B) a aquisição de novas unidades de participação.
O fundo estava a perder valor…e a aumentarem os resgates… (também por causa disso)
Em Dezembro 2008 : (valor liquido global do fundo) 64 401 967.56
Em Janeiro de 2009 : (Valor liquido global do fundo) 63 338 263.47
Em Fevereiro de 2009 : (Valor liquido global do fundo) 59 973 o32.54
10 milhões de euros, se fiz bem as contas foram resgatadas deste fundo. Em pouco mais de 5 meses.
Lógico será assumir que são pequenos investidores a retirarem… de armas mas já sem algumas bagagens…
Ø
Na sequência dos movimentos de compra e venda efectuados pelos gestores do fundo estes optaram por vender e comprar certas acções.
Retiraram, por exemplo, de carteira algumas acções (Cofina. Banif e Sonae Capital) e fizeram entrar na carteira ou aumentaram as participações que já detinham de outras ( como a Caetano -Toyota e a Soares da costa – uma empresa importadora e vendedora de carros de carros e uma empresa de construção civil).
No dia 15 de Dezembro de 2008, as acções da empresa Salvador Caetano-Toyota desceram à volta de 10%.
Já anteriormente tinham tido quedas menos acentuadas e tinham sempre estado com uma tendência de descida do seu valor.
Dois gráficos em baixo explicam…


Ø
Paralelamente ao facto de o seu valor ter continuado a descer, de forma regular e sistemática (Toyota -Caetano e a Soares da Costa) , também, de forma regular e sistemática, tem estado cada vez mais a serem compradas pela gestão do fundo Millenium Acções BCP.
Ø
Não é estranho que as acções de duas empresas (que muitos possuidores das mesmas não desejam, estando a desfazer-se delas…) estejam a ser comprados por um fundo de investimento do BCP, e que fazem progressivamente cair “o valor desse mesmo fundo de investimento?
(1) O titulo Caetano – Toyota, não é negociado em “continuo” ( através de ordens electrónicas) mas por chamada (o corretor pergunta “manualmente” a outros corretores se há compradores/vendedores para o título…)
(2) Se o fundo de acções Millenium Acções BCP tiver que ser forçado a vender à pressa estes títulos, para evitar súbitas e elevadas descidas da cotação do seu fundo (uma queda abrupta de todos os títulos cotados), como o fará, uma vez que não parecem existir “compradores”?
(3) Se alguém” ( o próprio banco ou terceiros) quiser fazer uma ” manobra ” de começar a comprar massivamente estas acções com o intuito de fazer subir a cotação e após ter feito isso, quiser vender para capitalizar, como poderá fazê-lo se não existem compradores?
(4) Pode optar por “manipular o mercado” mas …
(5) Na composição do fundo Millenium acções BCP, nesta altura, 11% das acções que compõem o fundo são só da Caetano – Toyota…)
Ø
Temos que procurar a resposta a este enigma misterioso noutros locais.
Talvez na “estrutura accionista do BCP…” isto é, vermos quem são os accionistas do BCP, se consiga descobrir. (Na estrutura accionista do relatório e contas 2008 não aparece; mas pode dar-se o caso de o senhor Caetano ( e a Soares da Costa também) ser um enorme accionista a nível individual que não chega a ter número suficiente de acções para que apareça no relatório e contas…)
Mas, salvo erro, o dono da Caetano Toyota terá um participação individual importante no BCP.
Ou seja, deveremos especular se o BCP e a gestão deste fundo (isto é, a administração do banco a dar ordens à gestão do fundo…), não tenderão a favorecer os negócios privilegiados que tem com a Toyota Caetano e com a Soares da costa, presume-se, fazendo negócios na gestão do fundo que não defenderão os outros subscritores do fundo de acções Millenium Acções Bcp.
O que significa que uma pessoa que compre agora títulos de participação do fundo, digamos a 1000, corre o risco de estarem a valer 900 daqui a 3 meses…
Ø
E volte-se aos gráficos colocados lá em cima das cotações do BCP.
Uma parte (pequenina, mas ajuda) da descida delas deriva precisamente das gestões “estranhas” de fundos de acções como o Millenium Acções BCP.
Ø
Re-cito uma parte do que escrevi ao inicio: “…certos caminhos “errados” propositadamente escolhidos e que prejudicam a generalidade da população,…

