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PLANETA AMERICANO

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  • Tipo: livro.
  • Titulo: “O planeta Americano”.
  • Autor: o ensaísta espanhol Vicente Verdu.
  • Editora: foi publicado em Portugal pela Editora Teorema, mas já não está disponível no catalogo da editora.
  • Data: 1997.
  • Tema: uma análise da sociedade e do pensamento e maneira de ser dos norte americanos, e da forma como estes se vêem a si próprios e como olham para o resto do mundo.
  • Nota adicional: Pode, ao que me informaram, ser ainda encontrado nas feiras de Lisboa do Cais do Sodré ou em algumas feiras do livro/alfarrabistas bem como em bibliotecas municipais.
  • É um ensaio breve, despretensioso, bem escrito e concreto.
  • 1903 palavras. Dois mapas.
    PLANETA AMERICANO1

O livro está dividido em 12 capítulos.

Estes são os capítulos do livro. No primeiro deles – O orgulho americano – Verdu descreve como os americanos nada conhecem geograficamente do resto do mundo e mesmo da América – isto é onde ficam posicionados num mapa e onde ficam os outros. Isto sucede, segundo Verdu, porque o ensino no EUA é apenas prático. A ideia é dotar os americanos de uma enorme auto confiança, não fortes conhecimentos de matemática, geografia ou história. Como tal é inútil ou pelo menos, pouco útil, saber onde se fica ou se está posicionado no mapa do mundo. Serão os outros povos que se terão que adaptar aos norte americanos e não o contrário. Verdu conclui – da observação – que nenhuma outra sociedade vive tão ensimesmada como a americana.

O sentir popular do americano relativamente ao estrangeiro divide-se em duas partes:

  1. É um produto que se deve suportar com as suas diferenças umas vezes;
  2. e outras vezes deve-se tolerar até este (o estrangeiro) se converter aos modos americanos de viver.

Verdu descreve e explica também que os americanos são muito caseiros e detestam civilizações complexas e sofisticadas. Os outros são vistos apenas como uma entidade exterior – um mercado – a quem vender – uma entidade propicia para o comércio.

No segundo capitulo – O amor a Deus – Verdu explica como em nenhum outro país a vida pública é tão imbuída de religiosidade como nos Estados Unidos. A bíblia é citada por tudo e por nada. Verdu explica que os “Pais Fundadores” criaram uma Nação em que, na ideia original, não concebiam a separação entre Estado e Igreja. Cita ( dentro do contexto temporal em que o livro foi escrito) Newt Gingrich, o ex chefe do senado e um trapaceiro da pior espécie que afirmou que a América é um “Estado Mental”. Este peculiar “Estado Mental” inclui:

  1. A fé em Deus;
  2. A predisposição para o sacrifício;
  3. A ânsia de sucesso;
  4. O respeito pelos outros;
  5. E a esperança na missão redentora da América. (Em relação ao resto do mundo)

Depois Verdu liga isto à várias partes históricas dos EUA e ao renascer do conservadorismo americano nos anos 90. Cujos objectivos seriam:

  1. Menos Estado, mais oração;
  2. Menos prevenção, mais punição.
  3. Menos ajudas publicas aos necessitados considerados como apenas elementos mais preguiçosos; antes maior esforço individual, mais censura nos ecrans de televisão.

Exemplos: Ao reduzir-se ( propor-se uma política de redução) um subsidio a uma mãe solteira isso não é visto como um erro político ou económico, por um conservador, mas sim como uma oportunidade de alguém com dinheiro poder praticar a caridade para com o necessitado. O andrajoso que pulula nas ruas deverá ser incentivado através do esforço individual e da fé no sonho americano (quer este exista ou não exista) para sair do buraco em que está. Caso não saia é porque Deus o fez merecer tal situação.

Nota: Argumentação simplista visando legitimar e tornar aceitáveis aos olhos da grande maioria da população norte americana e mesmo de população exterior aos EUA, as desigualdades sociais extremas. E a existência de pobres, como sendo uma “ideia de Deus” que existam. Porque tem uma função a cumprir.

No capitulo 3 – O amor ao dinheiro – Verdu explica que os americanos respeitam muito o dinheiro. E que o hábito de “vender e comprar” está completamente enraizado. Vendem bem a varias escalas de venda. E que a base cultural que é ensinada a toda a gente é a de passar o tempo a vender algo a outrem … Ou seja, aprender a ser um empresário eficaz, seja lá o que isso for…. seja lá o que for que, “empresário” e “eficaz” signifiquem.

No capitulo 4 – A soberania do capital – Verdu explica que os “Pais Fundadores” acreditaram na existência, isto é na possibilidade da criação de novo de uma sociedade que “rebentaria” com as hierarquias europeias – as sociedades hierárquicas de tipo europeu existentes nos séculos 17 e 18. Mas, acrescenta Verdu, tal ideia fracassou miseravelmente uma vez que, quer a passada e actual dinâmica de acumulação de capital desmente isso. O igualitarismo – ideia utópica dos pais fundadores – é desmentido pela acumulação de capital e os pobres são vistos como excrementos do sistema. Como dejectos. É uma lógica de Darwinismo misturada com sorte que existe e é considerada como sendo, realmente, a filosofia dos pais fundadores.

No capitulo 5 – O medo do crime – Verdu explica que o crime é elevado devido a desinvestimento no seu combate e prevenção, e como o sistema social é organizado de forma darwinista – isso obviamente conduz ao crime. Que serve por sua vez de oportunidade para vender sistemas de segurança (a mentalidade de empresário, de vender em comprar surge aqui) – sendo o Lar uma fortaleza. Equipada como tal……

No capitulo 6 – A paixão pelo medo – Verdu descreve a total tesão pelo medo que os americanos têm e que é potenciada até às extremas pela imprensa. A ideia psicológica subjacente a tudo isto é a de que os EUA estão colocados numa posição de perigo; em que forças humanas ou sobrenaturais ameaçam, atacam e espiam a população. Existe um conceito muito presente ” o disaster never sleeps/ o desastre nunca dorme. Medo, supra medo, injecções de medo umas atrás das outras. Ou seja, o medo e a sua exploração são as imagens de marca daquela sociedade.

No capitulo 7 – O gosto pelo obsceno – Verdu explica que os americanos publicamente são recatados no sexo. Mas em tudo o resto são obscenos na maneira como se comportam. A comer a beber, a falar. Toda a gente come em todo o lado mastigando e fazendo barulho. Ou seja, a um individualismo recatado no lar sexualmente; corresponde um exibicionismo publico excessivo noutras áreas.

Verdu dá um exemplo excelente: os perfumes. As mulheres americanas usam perfumes extremamente fortes sem subtileza nenhuma. Também as “relações de amizade” são calculadas em Horas. Durante o acto de comer tudo é excessivo: um arsenal de molhos deve temperar uma já de si exagerada comida calórica. Na escola, uma que privilegie a erudição é vista com desconfiança.

No capitulo 8 – O ódio aos intelectuais – Verdu demonstra com imensos exemplos que os americanos detestam a sofisticação. Apenas é necessário:

  • simplicidade;
  • discursos que vão directos ao essencial;
  • clareza;
  • simpatia.

A ambiguidade intelectual quando mostrada, desagrada. Só coisas “terra a terra” é que contam.

(Nota: os resultados deste basismo estão aí em todo o seu esplendor…)

No capitulo 9 – A geração sem pais – Verdu fala da geração que conheceu quando lá passou 3 anos no inicio dos anos 90. Uma geração que, quer fisicamente, quer psicologicamente cresceu ou sem pais, ou pelo menos sem “o pai” – elemento masculino da família. Descreve que a instituição família deixou de ser o centro do conflito geracional. Ou seja, que as pessoas permanecem em casa mas não falam como família – apenas vive no mesmo espaço. E que é a cozinha que é colocada como o centro da casa, não uma sala de estar.

Esta geração está nos vídeos jogos, é entendida em violência e electrónica, mas não liga muito à escola. Perceberam muitas coisas acerca do mundo, através da vida concreta e tornaram-se adultos mais cedo quando ainda eram, ou jovens ou adolescentes. O culpado designado oficialmente para ser culpado disto, derivado a tudo o que se escreveu antes é o pai. O tal que para cumprir o “sonho americano” terá que trabalhar muitas horas por dia/semana; logo, não estar em casa para dar atenção aos filhos. Este “pai”, colocado nesta situação é “afastado” do centro familiar. Os professores estão, também dentro desta lógica, cada vez mais fora de jogo.

Verdu explica depois como na escola se formam vários grupos, espontaneamente ( nada mau em termos de resultados para uma sociedade a quem os “pais fundadores” queriam extirpar as hierarquias europeias”…), a saber:

  1. Os “atletas” (que se dão com os “espertos”)
  2. Os “espertos”(que se dão com os acima designados e são os mais populares…)
  3. A seguir os que estudam Artes e Humanidades( mais afastados do centro desta estúpida e redutora vida social escolar…)
  4. A seguir os drogados; isto é, os que fumam charros( ainda mais afastados…)
  5. E por fim os “nerds” , os tipos marrões…

Uma sociedade escolar hierárquica e ordenada de forma semi comunista…

No capitulo 10 – As edge cities – Verdu explica como os americanos vivem. Vão pouco ao café, investem pouco em restaurantes, tudo é feito a correr para se ir para casa, situada, nas periferias ou orlas das cidades. Na casa é investido imenso dinheiro em melhoramentos. Cada um vive fechado no seu habitat. Dai a importância do automóvel para deslocamento para trabalhar no centro das cidades. Isto origina que os brancos e os mais abastados se mudem para a periferia e o centro das cidades seja associado ao mal – ao estrangeiro; as influencias estrangeiras. Daí o americano médio detestar Nova York que associa – a um cidade impura onde tudo o que é má influencia estrangeira está.

O capitulo 11 é dedicado ao – Cibercapitalismo – a parte mais fraca do livro, porque é datada. Ou seja entre a época em que Verdu o escreveu e o actual, muita coisa já se passou. Contudo já naquela altura a lógica era a seguinte: quem não “estava na rede” era retrógrado ou visto como alguém que não interessava. Ou seja, não pertencia à classe social que verdadeiramente contava. Isto “media-se “ na altura pelo simples endereço de email. Por ter um.

Actualmente em Portugal como somos cretinos e não temos pensamento próprio autónomo enquanto sociedade; adoptamos o telemóvel como símbolo de se ser alguém ou não ser. É o substituto do email de há 12 anos atrás. Somos originais realmente…Mas tenhamos esperança: o TomTom promete substituir o telemóvel como novo símbolo

No capitulo 12 – O planeta americano – é uma espécie de fecho do livro e de aviso que Verdu faz a quem o lê. Começa por descrever que nada define mais a América que o Hamburguer. Ele considera o Hamburguer não um produto mas um documento. E quando a Mcdonalds se instala numa localidade começa logo a rodar um filme americano – deixando essa localidade de ser o mesmo que era antes. Mas como Verdu diz na página 133 “aceitar o modelo americano como desígnio do nosso futuro é o equivalente a suicidar-mo-nos no desígnio do seu presente.”

Verdu conclui que o que é bom para os americanos não o é necessariamente para os restantes povos, e que isso tem que ser tido em conta. Verdu explica também que:

PLANETA AMERICANO 2

  • Os americanos não sentem que submergem os outros com a sua cultura.

Ou na página 135 ” a idílica revolução norte – americana é, presentemente, do ponto de vista humano, um fracasso tão grande como o foi a da URSS. A aura das utopias iniciais extinguiu-se na América, com as desigualdades sociais,o controlo policial da vida privada….

E termina dizendo: ” não existe dignidade ideológica que autorize a América a liderar a humanidade”

ADENDA, 12 de Fevereiro de 2008: Graças ao Daniel Marques vem-se a saber que:

” A editora agora é a Terramar, encontra-se à venda na Byblos com 10 por cento de desconto a € 6,73. “

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Written by dissidentex

07/11/2007 às 22:18

Publicado em EUA, LIVROS, PAÍSES

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