DISSIDENTE-X

A DENÚNCIA, nova indústria em desenvolvimento

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Portugal está, alegremente, a tornar-se uma América em ponto pequenino.

  • Com ênfase, no ponto pequenino.
A mesquinhice legalista, misturada com a má vizinhança, mau carácter das pessoas, a maneira de estar fechado na sua casinha, protegido, mentalidade de casulo, espírito de denúncia e de delação em todo o seu esplendor começam-se a manifestar.
  • Ao que parece, na minha rua, existem pombos.
Habitantes recentes que escolheram a área para praticarem voo picado ao solo com o objectivo de atingirem com eficácia o solo e os humanos.
E o exército dos pombos ( quer dizer, é mais um pelotão…) até treinam com alguma regularidade as suas manobras de voo rasante.
  • Também existe uma gata de um ano de idade que se esconde debaixo dos carros e fez da rua; a sua rua, o seu território.
Uns vizinhos, alguns vizinhos, de vez em quando lá dão de comer aos pombos e uns do meu prédio até alimentam a gata dando-lhe umas coisas para comer. (Santola estufada com foie gras aux champignons é o mais frequente…mas também casco de boi grelhado com doce de compota de orelha de porco)
  • Tudo isto é um crime horrível.

Numa sociedade que se quer asséptica, pragmática, asseada, eficiente, desprovida de pensamento abstracto – como a sociedade americana. E então essa brilhante invenção burocrática do Guterrismo chamada “Polícia municipal” – um estouro de dinheiro, de duplicação de recursos, de inutilidade apenas destinada a encharcar a burocracia portuguesa de mais burocracia levantou a sua feia cabeça castanha.

É após denúncia de vizinhos preocupados, pragmáticos, asseados, a polícia municipal manifestou-se. A denúncia às autoridades é um fenómeno próprio de Portugal, com raízes históricas derivadas de termos tido uma ditadura e ter existido uma coisa chamada PIDE.

Mas é também um símbolo das sociedades estilo norte americano, cheias de legalismo e ameaças de processos por tudo e por nada. Um sociedade litigante por natureza.

Em Portugal, imbuídos da tradição, mas, é ao mesmo tempo, querendo alcançar a modernidade ( apesar de sermos pobres e tesos comparativamente aos yankees)) numa feliz simetria, temos a polícia municipal. Esta chegou ao andar do meu vizinho, o Sr M., para o ir chatear porque tinha existido uma denúncia de que o Sr M. e a esposa – os malandros criminosos – alimentavam uma gata de um ano, e – horror dos horrores – ainda por cima, davam comida aos pombos.

Sacrilégio!

Uma actividade que apenas pode ser classificada de “terrorismo”e pela qual aconselho já as autoridades competentes a gravarem os emails e telefones do Sr M., da esposa, dos pombos, da gata e do resto que se mexa (mosquitos, aranhas, ácaros, etc) porque isto é o prenuncio de um ataque da al kaida. (por acaso a gata de um ano tem uns laivos de bigodes algo suspeitos…agora que penso no assunto…).
POMBOS EM AULAS TEÓRICAS

Também temos que ver que é necessário impedir que o pombo arrulhe à pomba no meio da rua e arraste a asa, numa demonstração de sexualidade barbara zoofila entre pombos e as nossas crianças e os nossos idosos vejam essa coisa horrível – o sexo deve ser asséptico….e pragmático…

Portanto isto agora é assim. Denuncia-se.

As autoridades pactuam com isto alegremente.

Quem denuncia, não será responsabilizado caso faça uma denúncia falsa. ( ou verdadeira) É o que concluo desta lógica.

Vamos criar uma nova industria. Uma nova rede social. A denúncia……

↔↔↔↔↔

Pensava eu, na minha santa ingenuidade, que isto era um caso isolado, quando ontem falei com um meu amigo que está a tirar um curso numa faculdade. É um tipo mais velho que a generalidade dos colegas dele.

E ontem ele estava algo escandalizado. Porque assistiu a uma cena que nunca julgou ver, tal o descabido da coisa lhe parecia, sequer como hipótese.

Estava lá imerso em qualquer estudo ou pensamento ou conversa quando uma colega dele que tem uns 20/21 anos lhe veio perguntar como é que se poderia contactar a ASAE.

Ele ficou a olhar pasmado para a rapariguinha em questão, e disse ou ele ou a outra pessoa que lá estava também, que – “bom , suponho que eles tem uma página na Internet e terão lá endereços, não?”

” – Mas, porque é que tu queres contactar a ASAE?”

Resposta da rapariguinha: ” – porque existe uma taberna ao lado do sitio onde vivo, e não gosto dela, e aquilo deveria ser fechado e com a ASAE aquilo é fechado … etc e tal”.

Este critério para fechar coisas e censurar pessoas que dão comida aos pombos é científico.

Portanto, agora temos a mentalidade totalitária por aí. Não gosto de uma coisa, vou denunciar à ASAE.

Que o egoísmo individual, o hedonismo, a falta de cabeça perdure. No dia em que alguém denunciar esta rapariguinha porque não gosta dela e a ASAE a vá fechar, que será que ela dirá?

Isto – esta mentalidade suportada legalmente – são pequenos indícios de um Estado totalitário a enraizar-se.

Regressemos aos EUA. Existem nesse magnifico país; as associações de vigilância dos cidadãos de um bairro. Que imediatamente avisam a polícia quando alguém que lhes parece ser um elemento nocivo e se apresenta nas redondezas.

Em Portugal somos mais modestos. Somos também diferentes e originais. Pagamos impostos altíssimos para que um tipo vestido com a farda castanha da policia municipal gaste combustível deslocando-se de carro de rua em rua, de praceta em praceta, para imobilizar pela força – caso seja preciso – pessoas que dão comida a gatos e pombos e outro tipo de crimes aos quais se deve dar prioridade imediata.

E temos a ASAE que dá abrigo a pessoas que não gostam de estabelecimentos comerciais ao pé do sitio onde vivem e denunciam isso.

Esta República tem que sair de cena e ser substituida por outra que seja democrática, livre e que não permita a denuncia apenas porque …. não se gosta.

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Written by dissidentex

25/01/2008 às 13:35

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