DISSIDENTE-X

CENSURA NO AUDIVISUAL. EUA. (2)

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No primeiro artigo “Censura no audiovisual. EUA (1)” falou-se de:

  1. MPAA e o sistema de classificação de filmes;
  2. A forma como a classificação é feita;
  3. o caso da realizadora Kimberley Pierce.

( Continuação) Kimberley Pierce interrogada relativamente aos problemas que teve para ver o seu filme classificado explica que:

tendo em conta que o conceito de orgasmo é maioritariamente definido por homens e os realizadores são quase todos homens, as visualizações cinematográficas são quase todas vistas sob um ponto de vista masculino. A ideia de que, nesse contexto a ideia do prazer feminino será vista como algo redutor.

No decorrer do documentário, percebe-se que este assunto das classificações e questões como esta, de mostrar ou ao orgasmos nada tem directamente que ver com prazer feminino. O que se nota ao continuar a ver o documentário é que existe uma perspectiva religiosa de poder por detrás destas subtis actos de censura e de negação às mulheres do prazer feminino.

A partir desta lógica, da percepção desta lógica (e de outras) na classificação de filmes, passa-se para outros depoimentos de muitos outros realizadores, relacionados com outros assuntos, mostrando-se uma série de realizadores que tiveram ou filmes censurados, ou filmes aos quais tiveram que amputar parte, apenas para não receberem NC-17.

Uma realizadora queixa-se que foi discriminada por fazer um filme gay, outro que lhe disseram para remover tudo que tivesse um dildo, e outros perguntam onde está a definição legal do que é NC-17 E “R”. Ainda um outro pergunta porque não lhe podem dar uma lista de exclusões – mas no inicio do filme…

Uma cena cortada apenas o é, porque é uma cena onde se insinua que uma das raparigas se vai enroscar nas pernas de outra rapariga.

Num outro filme, o corte que foi feito tinha a absolutamente estonteante quantidade de 3 segundos.

Menciona-se que os membros da MPAA dizem aos realizadores que estes não tem que aceitar a classificação; que não é obrigatório…

Uma das formas como esta classificação categoriza e classifica os filmes assenta na seguinte dualidade:

  • Os filmes são classificados antes de serem lançados.
  • Os filmes não são classificados por quem os faz.

Quem faz a classificação permanece secreto. Um grupo de pessoas que se reúne numa sala e…classifica. Isto é a essência do totalitarismo aplicado a um produto-serviço que a todos interessa precisamente porque após classificação, não existe justificação técnica ou outra, publicada e acessível a todos que explique as razões da classificação.

É uma vitória da burocracia. Nos EUA isto é tolerado e aceite como “normal” apenas porque é feito por uma associação de empresas privadas. Como se isso ilibasse do totalitarismo latente que se observa nesta lógica….

Feito por empresas privadas ou entidades públicas são os métodos aqui usados que são totalitários e que prejudicam pessoas, artistas, público e impõem (servem para impor) uma dada visão do mundo. Em vez de ser o “mercado” – ou seja os gostos das pessoas.

Conforme o senhor Jack Valenti, o porta voz da MPAA (falecido em 2006) explica no documentário, os classificadores são “pais, que não são nem deuses, nem loucos” e que tentam obedecer ao critério do que será o “paí americano médio” ou na melhor das hipóteses, o que será o cidadão americano médio.

O que é o cidadão americano médio?

Os classificadores (os tais representantes não eleitos os pais americanos médios vêem um filme e tentam classificá-lo de acordo com o que um “pai comum”, pensaria de um filme.

Isto é uma lógica desde logo do mais arbitrário que existe.

Por exemplo, acontece muito na sociedade portuguesa; uma sociedade especialista em criar sistemas informais injustos de apreciação do mérito baseados na mais absoluta injustiça e falta de critério.

No sistema jurídico, o critério do “pai médio”, também existe na lei. Chama-se “os sentimentos médios de justiça do cidadão médio” ou “os sentimentos médios de justiça do pater familiae/ pai de família. Posso afirmar sem qualquer tipo de auto restrição que é umas das vigarices jurídicas mais bem trabalhadas e inventadas que os sistemas jurídicos produzem – o português em particular.

Serve esta construção de um critério – maleável, flexível e fluída – absolutamente tosca – e servindo para fundamentar decisões absurdas, ilibar juízes de erros, dizer o mesmo e o seu contrário, perante casos notoriamente iguais, criar desigualdades de facto parecendo que se estão a criar equidade e justiça na apreciação de casos em disputa.

Serve também para os digníssimos magistrados pretenderem poder afirmar, dessa forma, que se conseguíram colocar no lugar do que um bom e honesto “pater familiae” decidiria ou ´pensaria sobre um assunto.

Como se um “bom pai de família (qualquer pai de família) auferisse o rendimento dos magistrados, tivesse acesso às fontes de informação destes e possuísse os conhecimentos técnicos de direito que os magistrados tem…ou como se fosse possível uma pessoa conseguir por-se 100% na pele dos problemas de outra, desta forma tão leve…

Seria o mesmo que uma pessoa que nunca partiu um braço ou teve um ataque de coração dizer a outra a quem isso aconteceu que “sabe perfeitamente o que a outra está a sentir”…

É uma técnica social/política passada a técnica jurídica tendo como objectivo exercer um controlo social sobre a população.

No caso português, obtém-se com isso os resultados cretinos e ineficazes que se vêem e o prosperar de um sentimento difuso mas cada vez mais entranhado de injustiça presente na vida das pessoas. Mas não de todas as pessoas.

E estas que sentem esse sentimento difuso, tem cada vez mais consciência disso mesmo, embora tenham dificuldade pessoal em determinar exactamente o que é… e porque é assim.

No sistema americano, mas que contamina a Europa, e o mundo, está presente isto.

Está presente e manifesta-se esta mesma lógica completa de arbitrariedade total. Depois de nos termos livrado do comunismo agora temos que aturar uma coisa vagamente parecida…

Dai a frase de David Ansen, o critico de cinema convidado para depor que afirma esse mítico pai americano é uma ficção”.

Concerteza que é. E o português, também.

David Ansen continua e afirma também: “é uma ficção conveniente que alguém tem que inventar e justificar para criar um sistema arbitrário”.

Ansen refere-se ao sistema de classificação de filmes patrocinado por empresas privadas, como ficção conveniente, mas noutras áreas da vida existe o mesmo germe totalitário à solta.

A técnica é simples.
  1. cria-se uma suposta ideia do que será um “conceito”.
  2. Que abranja uma maioria de pessoas.
  3. Dá-se-lhe um nome apelativo e seguro ( neste caso o “pai americano médio” ou o “cidadão médio” e os seus sentimentos).
  4. A partir daí, tudo é feito invocando esse “logótipo” arbitrário, totalitário, absurdo.
  5. Com o objectivo de criar controlo social apertado.
  6. Usando um produto que muita gente adquire e gosta, neste caso,os filmes.

A confusão das pessoas acerca das suas próprias vidas, do seu sentido de estar no mundo, o total esbatimento de valores, sejam quais forem os valores, a confusão cívica surgem.

Esta “confusão” irá aumentar de intensidade, apesar de existirem “estes conceitos” de suposta normalização que acarretarão justiça e que são apresentados como algo que irá funcionar bem.

Continua.

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