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ALBERT COSSERY – 1913-2008 – MORTE A 22 JUNHO DE 2008

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Morreu Albert Cossery. Escritor francês de origem egípcia. Morreu com 95 anos dedicados quase na totalidade à preguiça. Mas uma preguiça muito especial. Muito difícil de compreender.

Cossery só escreveu 8 livros em toda a sua vida. Poucos tendo em conta que a sua vida durou 95 anos.

A filosofia pessoal de Cossery é bastante simples. Mas não simplista. Existe o Bem e o existe o Mal.

O Bem é a preguiça, a reflexividade, a calma interior.

O Mal é o trabalho. Não o trabalho por si só, mas o trabalho encarado apenas como a única coisa que existe na vida, a corrida para o trabalho, a agitação das pessoas parecidas a armários com pernas correndo desesperadamente para a frente como galinhas sem cabeça, convencidas que tem algum objectivo diferente do que apenas correr para a frente. E depois morrer a correr para a frente.

Cossery viveu desde 1945 em Paris num quarto de hotel. É egípcio de nascimento. Não ambicionava possuir uma bela casa ou um potente carro. Não viajava. Quase nunca saia de França ou até mesmo de Paris.

Apenas saia de dia para a rua e observava o movimento das pessoas e reflectia sobre isso. Para simbolizar a sua ideia de preguiça reflexiva Cossery decidiu apenas escrever uma linha por dia, relacionada com cada livro que escrevia. Daí,evidentemente, apenas ter escrito 8 livros desde 1945 em diante. Um livro a cada 8 anos.

Escrevia apenas para afirmar a presença de si próprio no Planeta, na terra. Nas suas histórias não há história, argumento, guião. Existe apenas um acidente (um assassinato, um prédio que cai, uma situação num bordel…) que gera o resto da narrativa e gera as personagens.

E as personagens de Cossery são qualquer coisa de muito especial. Como são qualquer coisa de especial, e Cossery situa-as no Egipto, são pessoas que conheceu, misturadas com escárnio e ironia. Quando se lê um livro de Cossery somos desafiados em todas as nossas certezas e percebemos que estamos a levar um soco no estômago, quer em relação às nossas próprias atitudes, quer em relação a atitudes que vemos nos outros.

Num livro de Cossery que tenho existem inúmeras (todas) personagens bizarras. Um delas é um funcionário público que quer fazer uma revolução. Nunca mais olhei para os funcionários públicos da mesma maneira nem para revolucionários após ter lido Cossery.

Existem bombistas anarquistas, prostitutas virgens, chefes de polícia corruptos, funcionários públicos candidatos a revolucionários, mendigos, prostitutas, transeuntes irónicos, pequenos burgueses desconfiados, candidatos a poeta, etc.

A desconstrução de Cossery não é feita usando a ideologia, não existe ideologia em Cossery. Apenas existe a qualidade da escrita do senhor, que era de tal forma elevada, que a maneira como o funcionário público revolucionário é retratado fazem imediatamente perceber que o que ali estava nada era.

E depois comparamos com o que vemos por aí. Este é um dos méritos de Cossery. Era irónico, caustico, observador, reflexivo. Tudo ao contrário do que a sociedade actual pede.

Cultivava as personagens do anti herói nos seus romances. Detestava os arrivistas, os candidatos a protagonistas heróicos. Tinha especial predilecção por escrever cenas de livros que se passavam em bordeis, onde o conjunto de personagens que lá se encontravam e os diálogos que travavam apenas nos deixam perplexos.

As personagens mais pobres ou afastadas da sociedade ocupavam um enorme lugar de destaque em Cossery, mas eram personagens sempre cheias de sentido de humor, ironia, escárnio e quase sempre optimistas.

Cito uma parte de uma entrevista em 1990.

“No Oriente, as pessoas não tem pressa, dispõem de tempo para reflectir. Olhe, qualquer pé descalço, no Egipto, precisamente por ter tempo para reflectir, saí-se com coisas formidáveis. Porque a vida é muito simples, e tudo é feito para que pareça complicada.As personagens que descrevo viviam assim, como as descrevo. A partir do momento em que uma pessoa não tem qualquer ambição de dinheiro,de orgulho, ou de poder, a vida torna-se de repente formidável. Há quarenta e cinco anos que estou em França e nada fiz para que os meus livros fossem traduzidos. Nunca dei um passo para o sucesso. São os editores que vem ter comigo”.

Cossery escrevia para que quem o lesse não fosse trabalhar no dia seguinte.

Aconselho para começar a Leitura do “Livro Mendigos e Altivos” – Editora Antígona. Um soco no estômago.

Não aconselho a pessoas muito novas, porque podem interpretar erradamente o que ali está.

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Written by dissidentex

24/06/2008 às 11:02

Publicado em ALBERT COSSERY, PERSPECTIVAS

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