DISSIDENTE-X

VITÓRIAS MORAIS DE PORTUGAL E MICHELLE DE BRITO.

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Há alguns anos atrás li um artigo de Jornal, sobre um investigador universitário que tinha feito uma tese de mestrado sobre o futebol português e sobre as vitórias morais do país. Isto é, sobre a “técnica de discurso” usada para nos convencer (isto ainda nos anos 60 em ditadura) que Portugal tinha ganho o campeonato do mundo de futebol de 1966.

O investigador tinha analisado intensivamente o discurso desportivo existente na época – o jornal A Bola em particular. Portugal era apresentado, se bem me recordo, como o vencedor moral do campeonato, porque – principal explicação referida – era uma equipa de longe superior às outras 3 equipas que chegaram ás meias finais desse campeonato (Inglaterra, Alemanha, Rússia) no domínio da técnica individual dos jogadores.

Esta era a razão número 1.

A razão número 2 era o facto de Portugal ser um país pequeno (um pequeno império multicultural e multiétnico), mas não obstante isso tinha chegado aos locais onde habitavam as grandes potências. A “Alemanha era a Alemanha” (na altura chamava-se RFA), a URSS (actual Rússia) era a representante de um futebol força embora de características de leste, a Inglaterra era a inventora do futebol e jogava em casa e todos estes países eram enormes potências e Portugal tinha-se “imiscuído” entre elas.

O discurso médio, depois de analisado, concluía que Portugal até tinha ganho o campeonato porque, sendo mais pequeno – tinha chegado, sem adulterar os seus princípios ( tradução:sem ser uma democracia liberal, nem uma ditadura comunista) a uma fase final e mostrado aos “outros” que o país era multi cultural e até tinha integrado com sucesso elementos na equipa que vinham quer da Metrópole (como se chamava a Portugal) quer das colónias.

Que Portugal, sendo tão pequeno e dotado do “futebol técnico”, não tinha perdido o campeonato, porque o futebol deveria ser olhado em função da técnica individual. Os “outros”( armários com pernas… por oposição aos bailarinos da técnica portugueses…) não jogavam futebol.

Mas mesmo que se considerasse que jogavam futebol, tinha que se considerar que era um futebol de qualidade inferior – o futebol força era inferior (o dos outros) o futebol técnica( o nosso) é que era o paradigma a seguir – logo a ditadura era o paradigma a seguir…

Como éramos a única equipa entre as 4 que chegaram às meias finais em 1966 a estar dotada dessa condição mística; a ser “técnica” éramos a vencedora do campeonato (é também daqui que vem a expressão “vitórias morais”).

Basicamente o investigador explicava e desmontava as completas balelas de um discurso produzido para glorificar supostas glórias e feitos da pátria e ao mesmo tempo, glorificar o regime que existia – a Ditadura de Salazar.

Isto era a ideologia de uma ditadura- a propaganda para nos convencer que estávamos melhor do que na realidade estávamos.

Veio uma democracia – ou lá o que chamam a isto – e esperava-se que este “discurso” de vitórias morais fosse varrido definitivamente para o lixo.

Mudemos de cenário e vamos por cortinas desempoeiradas nas janelas. Cito uma pequena notícia do Jornal Destak (o WordPress recusa-se a deixar-me inserir imagens) e transcrevo o breve texto:

TÉNIS
Michelle Brito de grande nível assusta Serena
17 | 07 | 2008 11.45H

Michelle Brito bateu o pé a Serena Williams no Torneio de Stanford, mas acabou por sair derrotada ao fim de 108 minutos pelos parciais de 6-4, 3-6 e 2-6.

Luis Miguel Mota | lmota@destak.pt

A partida contava para a 2.ª ronda do torneio californiano, onde Michelle Brito, de 15 anos, chegou depois de ter passado três rondas do qualifying e eliminado a argentina Gisela Dulko, número 34 do Mundo.

Num encontro entre as duas jogadoras separadas por 11 anos, Michelle explorou alguma desconcentração inicial de Serena, forçando a veterana tenista a oito erros não forçados nos primeiros 12 pontos.

A norte-americana acabou por se impor, mas no fim deixou elogios à adversária: «É encorajador saber que consigo recuperar de desvantagem. Há uns tempos que não dava um set de vantagem. Pensei em como me sentia quando defrontava uma cabeça-de-série. Senti que não tinha nada a perder e provavelmente joguei melhor do que normalmente jogaria».

Quanto a Michelle, estava feliz com o seu desempenho:

«Comecei muito bem e acho que joguei muito bem. Depois abrandei um pouco, estou um bocado cansada depois de vir dos qualifyings. Ela jogou um grande jogo. É a Serena Williams. Dei tudo e acho que ela não esperava que eu jogasse tão bem. Diverti-me muito.»

E no ano de 2008, EM DEMOCRACIA (ou lá o que chamam a isto) somos informados que Michelle de Brito venceu o Torneio de stanford. Venceu por várias razões.

Em primeiro lugar porque passou 3 rondas da qualificação.

Em segundo lugar porque tem 15 anos.

Em terceiro lugar porque “bateu o pé” á Serena Williams, a quinta jogadora mundial.

Em quarto lugar porque as duas tenistas estão separadas por 11 anos de diferença.

(Numa qualquer outra ocasião isso serviria para chamar a Serena Williams velha e ultrapassada, mas aqui, serve para dizer insinuar que Serena Williams cometeu um acto de pedofilia tenística.)

Em quinto lugar porque forçou Serena Wiliams a 8 erros erros não forçados nos primeiros 11 pontos.

(Uma nova classificação no ténis, presume-se…)

Em sexto lugar porque a veterana tenista ?!?! no final deixou elogios a Michelle de Brito.

(Isto corresponde à distinção “futebol técnico vs futebol força” que está explicada no texto em cima. A “obtenção de elogios” é que define quem vence segundo o discurso que aqui está subjacente…compre-se já um elogiómetro…para verificar pela força objectiva dos números isto…)

Em sétimo lugar, (esta é a cereja no topo do bolo…) Serena williams levou uma lição dupla, de filosofia e humildade. Era ignorante antes de Michelle, mas passou a saber – graças a Michelle de Brito, a Portugal e à nossa existência como nação velha de 800 séculos, qual é a sensação de ceder um set.

Em oitavo lugar, porque no final Michelle de brito estava satisfeita com o seu desempenho. É um facto bem conhecido que só os vencedores e os portugueses é que ficam satisfeitos no final com o seu desempenho – mais nenhum povo o faz, porque só os portugueses o são capazes de fazer.

Em nono lugar só os portugueses é que ficam cansados após virem das qualificações, e portanto por isso mesmo são os vencedores – mais ninguém se sujeita às qualificações.

Em décimo lugar só os portugueses é que reconhecem que o outro jogou um grande jogo e a outra não esperava que se jogasse tão bem, logo surpreendemos o adversário. Como sempre fazemos…

Adenda após o texto estar escrito: como sou um espírito adverso, esqueci-me de mencionar que – décimo primeiro lugar – Michelle de Brito pulverizou a Gabriela Nº 43. Não só se venceu os EUA, como de caminho se arrasou a Argentina…e quantos mais houvesse mais iam, que isto até é uma fábrica de fazer chouriços e é sempre a aviar…

Esta é a versão dramática actualizada e recauchutada do mesmo discurso que era feito há 40 ou 50 anos. Pretende ser um discurso patriótico cheios de elogios e glorificação, a querer fazer de Michelle de Brito algo que ela ainda não é.

Virá a ser provavelmente a melhor tenista do mundo dentro de 5 anos se não se perder, tiver lesões ou namorado(a)s, mas foi para o EUA com nove anos de idade, treina nos EUA, segundo a escola americana, mal consegue falar português em condições, vive lá.

É mesmo uma vitória portuguesa, ou os paizinhos da senhora perceberam que em Portugal só existem é vitórias morais?

E assim continuamos a ser convencidos que somos um país muito melhor do que aquilo que na realidade somos.

Resta saber a quem é que este constante fomento desta mentalidade aproveita…

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Written by dissidentex

21/07/2008 às 8:37

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