DISSIDENTE-X

LIVRO BLOGUES PROÍBIDOS – O CONTEÚDO.

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Ontem escrevi sobre o Livro “Blogs Proibidos”, do jornalista Pedro Fonseca e sobre a capa.

Hoje, é sobre o conteúdo propriamente dito do livro.

O livro é escrito em 2007, e versa, principalmente, sobre 6 casos de liberdade de expressão vs difamação.

Dois dos casos na minha opinião, não são sobre isso. Um desses dois é um caso que, manifestamente, não tem o mesmo grau de importância dos outros discutidos no livro.

O livro está dividido em 6 partes e apresenta 6 casos principais, embora um dos capítulos dê mais exemplos de mais blogs regionais alvo de perseguições e forçados a fechar.

De um deles, o último não irei alongar-me.

Os seis casos referem-se aos Blogs

  1. Freedom to copy (desactivado)
  2. Abrupto (activado, mas é como se não esteja)
  3. Diário de um jornalista (Desactivado)
  4. Do Portugal Profundo (Felizmente activado)
  5. Chicken Charles – o anti herói( Fechado)
  6. Muito mentiroso. (Fechado e ainda bem)

1.Freedom to Copy.

Este blog produziu posts onde afirmava que o senhor Miguel Sousa Tavares tinha plagiado um livro de 1976, escrito por Dominique Lapierre e Larry Collins, chamado Cette nuit la Liberté. O blog surgiu a 20 de Dezembro de 2006.

O blog citava várias partes que teriam sido supostamente plagiadas e fazia comparações. Três dias depois do blog estar aberto o Correio da manhã descobriu o blog, veiculou o assunto e fez a defesa de Sousa Tavares. Sousa Tavares (MST) por pura estupidez ou aproveitando-se da situação começou a fazer uma campanha contra o anonimato em blogs e a prestar declarações públicas sobre o assunto em entrevistas a jornais.

O assunto extravasou e desenvolveu-se.

MST fez uma queixa crime contra anónimos e afirmou que suspeitava de duas pessoas; uma um escritor falhado e outra um militante do bloco de esquerda. Pelo meio atacou a blogosfera em peso.

Página 13 do livro do Pedro Fonseca:

” Por seu lado MST indignou-se novamente afirmando que” um blog não pode ser uma manifestação de liberdade se não houver liberdade.Assim é “mera libertinagem”, defendendo que “não devia ser possível abrir um blog sem o autor estar devidamente identificado.”

A blogosfera reagiu criticando MST especialmente porque nessa altura na China policiava-se blogs e bloggers activamente duramente.

A coisa arrastou-se para outros blogs e para os jornais desembocando numa polémica quer na blogosfera, quer nos jornais, criando também uma guerra entre o Provedor do leitor do Público, e duas jornalistas do mesmo jornal.

Dos seis casos este é dos mais interessantes pelos contornos do mesmo e também porque dá para perceber como certas pessoas estão mal habituadas a que se questionem os seus pedestais honoríficos – mesmo que os métodos utilizados para o fazer sejam péssimos.

2. Abrupto.

Este é – de longe – o menos interessante caso.

Devido uma falha de serviço, do Blogger, conjugada com as mexidas no template do mesmo feitas pelo amador Pacheco Pereira, conjugadas com um hacker que se aproveitou do tráfego do blog para realizar dinheiro com os cliques nos anúncios que instalou, tudo se falou. O que se passou foi que o blog de Pacheco Pereira era substituído a dadas hora do dia por um falso blog Abrupto.

O capítulo todo são apenas as citações cronológicas das mensagens/posts pelo senhor Pereira a queixar-se de que a pátria estava em perigo por o Abrupto estar a ser atacado, num discurso de completa vitimização e falando em invejosos ( todos são invejosos dele, na cabeça do senhor Pereira).

É evidente que não é agradável que alguém veja o seu blog a ser ocupado, mas as reacções de Pacheco ali transcritas são algo de incrível…

Pacheco “pagou” aos inúmeros bloggers que deram sugestões e ajudaram a resolver o problema ou a minorá-lo escrevendo posteriormente artigos nos jornais e no blog criticando bloggers, o anonimato na blogosfera, e a qualidade do que se fazia, muito do qual feito por alguns dos bloggers que o ajudaram com sugestões. Aprendam.

Nunca se soube exactamente o que se passou, porque P.Pereira não forneceu informações, relativamente ao deslindar do caso.

Página 51 do livro Blogs proibidos

“a confidencialidade garantida pelo autor do Abrupto não permite qualquer resposta credível”

Penso que este “assunto” foi também inserido porque o nome Pacheco Pereira é o que é, mas é claramente dos 6 casos o de menor importância.

3. Diário de um Jornalista.

Este era um blog de jornalistas do jornal “o Primeiro de Janeiro” e visava contar o que se passava dentro do Jornal.

Era feito a várias mãos e originou o despedimento dos jornalistas que nele escreviam.

Como cita na Página 56 o Pedro Fonseca:

“Pode a liberdade de expressão num blogue servir para despedir pessoas? A inquietante pergunta teve uma resposta cabal em 2004”.

Este capítulo é bastante interessante porque faz uma viagem histórica. Descreve vários despedimentos nos EUA, não só de jornalistas, mas também de funcionários de empresas, que, por escreverem em blogs, quer durante as horas de expediente, quer não; quer não mencionando a própria empresa, quer mencionando foram despedidos.

Explica a origem do termo “Dooced”- uma senhora chamada Heather Hamilton que foi despedida da empresa onde trabalhava como web designer por escrever num blog chamado DOOCE.

No Diário de um Jornalista o que causou celeuma, mesmo entre jornalistas, era o facto de terem sido escritos artigos – explicado pelas pessoas que escreviam neste blog à troco de publicidade a empresas. Ou seja, publicidade metida dentro de artigos. Em troca as empresas que faziam estas práticas metiam publicidade no jornal.

As limitações à independência jornalística são óbvias.

O debate depois passou para os blogs de jornalismo e para os jornais. Tudo explicado cronologicamente no livro.

Tudo isto também relacionado com o facto de existirem pessoas com o curso de jornalismo, carteira profissional, etc mas que faziam (fazem) trabalho que nada tem a ver com jornalismo.

Página 62

“os delegados comerciais contactam as empresas ou as instituições ou entidades a estarem presentes num determinado trabalho e , em troca de um valor pago em publicidade, o jornal oferece-lhe um espaço redactorial, no qual os responsáveis dessas empresas podem falar do trabalho que fazem e dos projectos que tem.”

Acho que se percebe…

4. Do Portugal Profundo.

Este é um caso de um blog em que existiu uma clara ameaça á liberdade sendo usadas as forças policiais e o aparelho de justiça estatal para o fazer.

Página 69.

Sete horas, ainda de noite. Bateram à porta. Sem medo, ainda meio estremunhado, abro. Três vultos. O primeiro diz:

– polícia judiciária de Leiria. Temos um mandato de busca da sua residência.”

António Balbino Caldeira (ABC), o autor do blog tinha escrito posts sobre o caso Casa Pia, denunciando existir um conluio entre diversas e determinadas forças na sociedade relativas à pedofilia.

Determinadas a provar que ele não tinha razão nenhuma, tinham duas opções: (1) ignorá-lo ou (2) persegui-lo.

Mesmo que ABC, não tivesse razão nenhuma a forma como foi esclarecido o assunto foi esclarecedora.

E foi constituído arguído pelo crime de desobediência – pelo crime de ter reproduzido as peças processuais do processo Casa Pia no blog.

A tese de defesa de ABC foi a de que não tinha sido notificado (verdade) para não reproduzir as peças processuais.

Daí a levarem-lhe computadores pessoas, e utilizarem 3 mandatos de busca e apreensão em 3 casas, uma das quais a da sua mãe, vai uma grande distância.

Após ter sido absolvido, o Ministério público – uma entidade que funciona paga pelos nossos impostos – decidiu recorrer da absolvição.

Foi de novo absolvido. Uma parte do texto dos seus advogados de defesa é publicada neste livro de Pedro Fonseca. Onde se pergunta porque “é que vários jornais que também fizeram o mesmo que ABC – publicar excertos do processo, não foram alvo de buscas”.

5. Chicken Charles -o anti herói.

Este é também um dos casos mais interessantes e que revela o que é o poder dos presidentes de camara deste país.

Existiu um blog na Covilhã chamado “Chicken Charles- o anti-herói”. O personagem principal do blog era um galo – uma metáfora supostamente aplicável ao Presidente da Covilhã, um senhor chamado Carlos Pinto. A Covilhã era retratada como um galinheiro nesse blog. O autor ironizava com o senhor Carlos Pinto sem nunca o referir directamente.

Depois verificou-se que em 2006, após queixa, a polícia judiciária – paga pelos nossos impostos – andou a alocar recursos para verificar quem era o autor do blogue que incomodava de forma tão cruel o senhor Carlos Pinto.

Entretanto, o senhor Carlos PInto conseguiu receber uma chamada anónima que dizia que o autor do blog era uma determinada pessoa.

O senhor Carlos Pinto, não aceitava criticas “anónimas” feitas num blog, mas aceitou recorrer a uma denúncia anónima para identificar uma pessoa nomeando-a, sabendo perfeitamente que ao fazê-lo estaria a criar problemas à pessoa e a divulgá-la publicamente.

Mais a mais quando depois veio a saber-se que não era esta a pessoa que escrevia o blog Chicken Charles.

Também é interessante verificar – O Pedro Fonseca fez isso – que o autarca simples humilde e honesto; um verdadeiro homem rústico e campestre foi defendido pela PLMJ – uma das duas sociedades mais poderosas de advogados deste país e que não saem nada baratas.,..

Este capítulo é um dos mais interessantes porque fala de muitos outros casos de blogs quer cá, quer lá fora, que foram forçados a encerrar por divulgarem situações relativas a autarquias e empresas.

6. Blog muito mentiroso.

Este foi um blog dedicado à contra informação e à desinformação sobre o caso Casa Pia. Não vou por isso – pelo assunto – explicar uma vez que o Blog veiculava coisas falsas em paralelo com coisas verdadeiras, criando a confusão em quem lia acerca da verdade e da mentira. Mais tarde comprovou-se através da judiciária que o computador de onde era feito pertencia à Cofina, entidade que é dona do Correio da manhã. Embora a Judiciária não tivesse aparecido Às 7 horas da manhã na Cofina com o mandato de busca e apreensão como aconteceu com o senhor António Balbino Caldeira—

O livro Blogues proibidos é uma compilação/cronologia versando 6 casos, embora um dos capítulos- o do Chicken Charles mencione inúmeros outros casos “mais pequenos”. É interessante como análise e documento histórico do fenómeno. Também é interessante do ponto de vista de quem nada saiba de blogs e do que se tem passado nos últimos 6 anos – é uma boa introdução ao assunto.

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