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GELADOS

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♦Após termos sido avassalados recuperemos o fôlego com um interlúdio musical. Parece-me apropriado inserir uma melodia de uma banda calma e simpática – os Van Halen. Estes, nos seus intervalos do estudo de Nietzsche e Kant debruçaram-se sobre a problemática dos vendedores de gelados e dos gelados per si.

É uma letra muito inocente que nos fala de um jovem rapaz que quer ser o gelado que irá arrefecer o verão quente de uma jovem cristã que ele conhece. Isto é, claramente, filosofia e da boa, afirmando o “pathos” e a “doxa” assentes na necessidade do Homem ser pragmático e frio – um ser gelado…

Fim do interlúdio musical dedicado a todos os que demandam este humilde tugúrio.

Desconstruamos a seguir…

1.

O miúdo pede ao pai um gelado. Concluímos que, o pai “fino”, sofisticado, um esteta do bom gosto e do bom senso responde de forma arrojada com a sandes. A sandes é o novo paradigma pós moderno do bom gosto! A sandes é um acto de filosofia gastronómica.

Percebe-se a sofisticação desta criatura pelo facto de ir com roupa de marca para a praia. O arrojo da ida para a praia com esta roupa, traí um desejo secreto. Disfarçar o facto de se ser um imbecil pós moderno vaidoso.

( Não é a roupa de marca que dá estilo ou cria sofisticação mas a substancia das pessoas, e tudo isso é estragado quando a portuguessíssima “sandes” aparece em cena. Todo o “glamour” desaparece instantaneamente perante a palavra sandes.)

Mas alguém conseguiria explicar isto àquela alminha…

2.

O miúdo insiste e o pai, perseguindo o seu desejo secreto de esteta, sofisticado e fino ( um perfecionista em busca da derradeira obra de arte) aumenta parada filosófica e profere a palavra:”porra”.

Olá.Subscrevo e acompanho.É um porra simbólico e metafisico, sim senhor!

Olá. Subscrevo e acompanho.É um porra simbólico e metafísico, sim senhor!

O “porra” pode ser erradamente confundido com uma vontade de ser um boçal grunho vestido com roupa de marca a insultar o filho. Essa é a explicação “fácil”

Proponho uma explicação alternativa de forma irónica e com profundo gozo: Este é um “porra” simbólico e metafísico.

Porquê metafísico? Porque está para além da física (e da química e das outras coisas todas…) e para lá de tudo – está no infinito e mais além.

É o que simboliza este “porra” ? Simboliza a queixa do pai relativamente ao míudo derivada do facto de este lhe colocar um problema filosófico que ele considera impossível de resolver.

Em vez de pensarmos que o pai está demonstrar não gostar muito do filho e apenas aplica como tantos outros pais, a teoria pedagógica do tradicional pai português, totalitário, que consiste em ser um boçal cretino, peneirento e vaidoso até às orelhas. (Imagem DAQUI)

Nós é que estamos errados em pensarmos que este senhor é um boi idiota representativo do estado do país. Não! É o novo paradigma pós moderno ( quanto pior, melhor (e quanto mais ambíguo melhor)) que assim dita este comportamento… País urjo-os: adaptem-se à boçalidade pós moderna! JÁ!

3.

“Comes aquilo que te puserem à frente”. Só faltou dizer imediatamente”:senão comes levas uma galheta (nos cornos)

O “comes aquilo que a gente te disser para comer” tem a sua lógica. Por comparação ao pai pós moderno europeu, ou norte americano que não dá ordens destas. Esse diz que, deves apenas comer se realmente gostares disso. (É um comando tácito totalitário e que obriga ao acto de gostar mesmo que não se goste).

Já o pai pós moderno português não vai cá nessas modernices pseudo democráticas e utiliza a versão 1.0. do conceito. Roupas de marca – simbolizando modernismo e cosmopolitismo – mescladas com o simpático conceito Salazarista do pai de família… e ameaçando arrear umas galhetas logo ali… sem dó nem piedade.

4.

Também existe economia de mercado – o argumento económico. “Não pago a merda de 7 euros por um gelado”. Tradução: Não mereces isso – 7 euros – apesar de seres meu filho. Se fosses o meu cão eu pagaria à vontade uma tosquia de 12 euros… O homem pós moderno é assim:gosta de animais…

Clicar imagem.

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5.

Parte 1

Temos também o argumento emocional auto vitimizador – “queres estragar-me as férias?”

Vozes torpes e vis poderiam afirmar que um imbecil que vai para a praia com roupas de marca vestidas já conseguiu a ele mesmo estragar as suas férias.

Mas aqui neste blog afirma-se que o que existe é um “angst” interior. Este senhor estava na realidade, a soltar um grito mudo de atenção que se traduz na seguinte frase que eu traduzo: Como podes tu, meu adorado filho, fazer exigências tão absurdas que eu não quero aturar nem corresponder? És um mau filho.

(Este senhor é que é a vitima e o filho de sete anos um perigoso agressor reaccionário!)

Não só deveremos pensar isto, como esta frase foi tão boa que até deu para eu escrever a palavra “angst”…

Parte 2

Elementos do oitavo exército orbital da angústia que eu contactei para opinarem sobre este assunto e que estudam estes assuntos em altitude, concordam comigo: a criatura em questão é tão estúpida que ainda não percebeu nem sequer perceberá que quem estragou as suas próprias férias foi ele e a mulher quando decidiram ir para um sítio.

Como tal decidiu – para sublimar a frustração – destruir um pouco mais o carácter do filho fazendo-o sentir complexos de inferioridade.

6.

Existe ainda a questão metafísica da “galheta” que prova que este pai é um pós moderno 1.0 versão Portugal.

Não disse logo inicialmente “levas uma galheta”, porque até nisso este pai é estúpido original. Preferiu deixar para o fim a utilização do aríete metafisico “Galheta” apenas e depois de fazer tudo o que é necessário para destruir ainda mais o filho com esta “nega”.

Isto é Portugal e os portugueses a aperfeiçoarem o pós modernismo boçal 1.0.

Será que estamos aqui perante um novo nicho de mercado para exportar para o estrangeiro? Contacte-se já o Ministério da Economia…

6.

Em todos os enredos existe uma fêmea. A nossa, cheia de complexos de auto afirmação estética, opta por não coarctar ( um artigo com a densidade narrativa deste já merecia uma palavra como coarctar…) o pai/marido fazendo o papel de fêmea submissa para não estragar o bikini Pierre Cardin e restantes ornamentos.

Vestida como um reflector solar que lhe interessam esses pequenos pormenores?

Aqui temos uma sub deriva estética de afirmação política: o pós modernismo reflector solar versão Beta.

Actualmente as pessoas afirmam-se ( julgam isso) pela ostentação de objectos materiais de elevado valor a que socialmente os outros darão importância.

Ainda não saíram das árvores.

Portugal é um país cheio de pessoas que julgam que outras pessoas se importam com algumas das coisas que supostamente acham importantes mas às quais outras pessoas não passam importância nenhuma.

“onde é que este país se perdeu” ?

Começo a suspeitar que não o quero encontrar.

E que deveremos começar a fazer a pergunta ao contrário. Queremos mesmo encontrar isto?

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Written by dissidentex

02/09/2008 às 10:04

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