DISSIDENTE-X

UM RETRATO DE PORTUGAL – UMA ALDEIA

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E a propósito de se terem percebido umas coisas nas férias…

Vai-se de férias para uma aldeia. Vê-se um jogo de futebol. Na associação local, cultural desportiva e recreativa do sitio. Onde as forças vivas e os espíritos das forças mortas se reúnem em amena cavaqueira e melhor bebedeira quando calha. Começa-se a falar com o parceiro do lado que até já se conhece de vista.

Lentamente, o futebol passa para segundo plano. Com o decorrer da conversa obtém-se um retrato de Portugal, das misérias do país, do completo vazio, decadência e total sentimento de perca e de esquecimento psicológico de si mesmo enquanto país em que esta coisa que dá pelo nome de Portugal, está.

Fala-se de “cultura”. O meu interlocutor diz que não há. Explica porquê.

Para incentivar a “cultura” a câmara municipal da área construiu um sumptuoso centro cultural. Amiúde existe teatro barato, cinema barato com bilhetes a 2.5 euros, bons filmes seleccionados. E outros, como espectáculos itinerantes ou orquestras que passam lá em digressão ou festivais dos mais variados assuntos e temas.

E porque diz o meu interlocutor que não há? Porque a população não corresponde.

Explicou-me que na semana anterior um determinado espectáculo tinha passado por ali e ele tinha ido ver. 60 pessoas estavam lá. Numa zona, apesar de tudo, com 4000 pessoas ao redor e mais 35 mil a 8 quilómetros de distancia, seria esperar um pouco mais. Mas não.

O terror continuou. Explicou-me que gosta de ler, gosta de livros e gosta de oferecer livros. E ofereceu livros. Perguntam-lhe os vizinhos se “isso” (um livro) é uma prenda que se ofereça…

Afirma que ninguém lê o que seja, quase nem jornais. Quando o fazem, o que passa por ser jornais são o Correio da manhã e o Record. Esses paradigmas do lixo pseudo desportivo e da defesa do Salazarismo encapotado…

Este herói solitário explica-me que faz imensos convites aos “companheiros de aldeia” para irem ver quaisquer espectáculos que estejam em exposição no centro cultural sumptuoso. Até hoje (penso que já passaram 7 anos desde que iniciou os convites) ninguém aceitou. Isto elimina as razões económicas que poderiam ser o obstáculo para se evitar ir aqui ou ali.

O nosso querido e estimável governo (estou evidentemente a ser irónico) decidiu lançar um projecto de “difusão da Internet de banda larga” pelos caminhos e lugarejos de Portugal chamado acesso livre à banda larga ou lá o que é.

Para tal estabeleceu protocolos com inúmeros sítios, no país todo, um dos quais, a associação, cultural, recreativa e desportiva deste lugar. A diarreia da banda larga originou dois computadores topo de gama e uma impressora, no local.

Explicou-me o meu interlocutor, que desde que estão ali os computadores, nunca nenhum miúdo da escola ou alguém sem ser da escola usou os computadores para algo diferente do que seja jogar jogos online ou combinar engates e aquisições de preservativos no Messenger.

O grande projecto de difusão da Internet pelas aldeias do interior serve para se jogar jogos online e combinar engates e aquisições de preservativos no Messenger…

E absolutamente mais nada.

(Confesso que depois de saber isto até me senti mal por duas vezes ter usado a maquina para consultar o correio electrónico e ver as notícias – que herege demoníaco eu sou…por andar a profanar as maquinas…obrigando-as a desempenharem tarefas diversas daquilo que estão destinadas…)

O mais espantoso no meio desta pocilga anárquica que dá pelo nome de Portugal é o pseudo liberalismo do Estado e interesses privados (que vem depois a assassinar a criação de serviços ou empregos logo à nascença) misturado com a (falta de) ética misturados com paternalismo, filosofia da esmola, assistencialismo cristão misturado com proselitismo ( é uma troca…) e abandono completo do interior, mas parecendo não estar isso a ser feito, misturado com o pior do Estado burocrático, mas tudo feito sempre de uma forma “especial”.

Reorientando para trás e voltando ao protocolo: este protocolo dura um ano. A partir dai corre por conta de quem tem pontos de acesso Internet. Tradução: pagam as contas. No caso desta associação corre por conta própria. Esta associação é paga pelo dinheiro da exploração do Bar e pelos próprios sócios.

Exemplo de problemas: com um contrato Netcabo, com limites de tráfego internacionais, e com um preço fixo de 22 euros, no mês anterior a esta conversa tinham pago 46 euros de Internet devido ao excesso de tráfego internacional. (os sítios de jogos online)

O meu interlocutor – que fazia parte da direcção – já tinha avisado o tipo do pelouro especifico para mudar o tipo de contrato. Mudar de fornecedor não se pode – só existe aquele naquela zona. (A “magnífica “concorrência” empresarial no interior é assim, que os cidadãos das grandes cidades desconhecem…)

Este é o “liberalismo económico” que se quer implementar em Portugal; nenhuma concorrência, feudalismo comercial, preços absurdamente caros por um serviço péssimo na generalidade dos casos.

Só agora estão a chegar ( caros e com uma falta de qualidade de serviço, como o raio que os parta) os fornecedores de Internet móvel, mas isso não é o adequado àquilo…

E pergunta-se: e não se pode cortar aquilo – a Internet? Deixando de pagar os 4o e tal euros?

Não, porque isso geraria um motim de proporções irreversíveis. O direito a jogar online é um direito constitucional inalienável…se em Lisboa jogam…aqui também!

Como sou um ingénuo ainda perguntei:

– então, mas os pais não percebem que aquilo também serve para outras coisas?

Resposta: percebem lá…nem se interessam. O rendimento escolar é péssimo aqui. É extraordinariamente difícil ensinar os miúdos da escola, até pelo problema da consanguinidade…

Desculpe, mas… então mas as pessoas daqui não sabem que não devem casar primos com primos… Resposta: sabem lá disso ou de alguma coisa.

As pessoas são muito pouco esclarecidas (a população também é envelhecida e foi completamente formatada no Salazarismo) e tem muito poucos interesses por mais do que apenas certas coisas.

Repare, se dissermos para não se fazer certas coisas ou para fazer outras e o porquê, as pessoas não ligam. Ou nem sequer percebem porque não devem ou devem fazer. No caso da Internet se cortarmos o serviço ou passar a ser pago, temos um coro de protestos. As pessoas exigem o serviço como está e não querem saber das contas. Se há noutros lados aqui também tem que haver…

E no que aos filhos diz respeito é ainda pior. Se se diz que alguém tem problemas de aprendizagem as pessoas ficam melindradas com isso e ainda reagem menos ao problema escolhendo antes ignorar…

Ao mesmo tempo, as pessoas, dizia-me o meu interlocutor, (1) habituaram-se a coisas de borla, e não as querem pagar. Mas se as coisas deixarem de existir (2) protestam imenso porque as coisas não existem. Se existe em Lisboa ou noutro lado, então ali também tem que existir…Ponto Final!

Continuou a dizer: depois temos problemas de dinheiro na associação. Terminamos o ano com 7 euros de orçamento. A câmara municipal fez protocolos connosco mas não paga. Estamos há 1 ano sem receber nada deles, do que nos é devido. E as nossas receitas são cada vez menores porque estamos a ter menos clientes no bar- é o bar que nos paga as contas. (As pessoas também morrem…reduzindo o número de clientes…)

Já protestamos com o Presidente da câmara e ele até ficou chateado connosco. Mandamos-lhe 3 ofícios para lhe dar a conhecer a situação e ele nunca respondeu. Então fomos levar o assunto à assembleia municipal e ele ficou ainda mais chateado por não termos falado com ele privadamente.

Dissemos-lhe que aquilo não era uma coisa privada, mas sim de instituição para a instituição. Além disso era culpa dele: mandámos 3 ofícios e nunca respondeu a nenhum…

Temos uma escritura para fazer da associação que está há mais de 10 anos suspensa, porque ninguém tinha tratado do assunto. Agora queríamos fazer, mas apresentaram-nos 1640 euros de IMI para pagar. Como não há dinheiro, está em espera até haver. Vamos lá a ver com as festas de Setembro… .

Então, mas não podem reduzir custos? Sei lá acabar com o desporto, por exemplo?

Resposta: pois, vamos ter que acabar com o futebol, ou passarmos para o futsal porque não temos hipótese, aquilo é um desporto caro. Está a ver, até ali o clube “x” está com dificuldades e não paga aos jogadores… Mas isto vai ser muito complicado dizer-se que vamos acabar com isto.

O que nos vai safar é que teremos mesmo que acabar até porque não temos suficientes jogadores. Mas conseguimos recrutar 22 e alguns até faltam a treinos e muitas vezes até temos dificuldades em conseguir ter uma equipa de onze jogadores…

Então e a câmara, pergunto eu? Como é que ela faz para criar emprego) Eles até absorveram os trabalhadores da “Empresa Y” que fechou…

Resposta: a câmara está com problemas de dinheiro. Estamos em crise. Além disso tem excesso de empregados e de despesas.

Repare, eu até sou a favor que uma câmara municipal tenha mais empregados do que devia para tentar fomentar a fixação de populações em lugares como este. Quem é que vem aqui investir? Mas aqui nem sequer existiram cuidados de outro tipo.

A câmara criou empregos em excesso e recentemente absorveu empregados da “Empresa y”. Mas ele não lhes pode pagar (o presidente da câmara) metendo-os dentro do quadro – o Tribunal de Contas não deixa. Então, paga a recibos verdes.

Mas meteu todas as pessoas em gabinetes da câmara, quer antes, no inicio, sem existirem despedimentos, quer depois, (agora) quando estas, recentemente, saíram da “Empresa “y”. Se precisarmos de alguém para vir desentupir canos ou outro tipo de serviço, não há pessoal dizem-nos lá, ou estamos imenso tempo à espera… para resolver assuntos destes.

Continua o meu interlocutor: Olhe, nem sequer concordo com a existência de câmaras municipais tão pequenas. Resposta minha: pois olhe que eu também não. Isto nem sequer devia ser considerado uma câmara municipal e no caso aqui da aldeia nem sequer deveria ter presidente da junta de freguesia.

Interlocutor – Isto deveria ter aqui dois ou 4 funcionários públicos ou os que fossem necessários, para tratarem de assuntos e não autarcas. Eles não produzem nada…e ganham até bastante e só causam confusões, exclamou o meu interlocutor…

O que temos aqui é :

O pior do liberalismo económico

conjugado

com o pior da burocracia e do desleixo na organização administrativa do país.

Isto é uma aldeia em que (certos) serviços são pagos pelos próprios. Não é o Estado. Quando é o “Estado Local”, a pagar, isto é, a autarquia e toda a lógica clientelar desta as asneiras são constantes, misturadas também com os interesses dos pequenos “empresários ou empresas privadas” que aproveitam para sacar subsídios…

O autarca eleito desta Câmara Municipal foi-o pelo PSD. ( Mas que interessa, na câmara Municipal a 8 KM de distância e 40 mil habitantes, o autarca é do PS e a javardice é a mesma…)

Na frente política as coisas são hilariantes. E os lunáticos que falam de ética na política ou de “projectos” são isso mesmo: lunáticos…

A pessoa que falou comigo ainda me explicou que o autarca da câmara que supervisiona a aldeia, irá recandidatar-se a mais um mandato, mas apenas se o senhor “xpto”, do qual o autarca não gosta se candidatar pelo PS. Como me disse o meu interlocutor: – ” quer dizer, ele diz que está farto e este é o último mandato, e apenas se recandidata se o senhor “xpto”, que é arquitecto e eventualmente concorrerá pelo PS se candidatar. Tá a ver, isto não há aqui nenhum programa político nem coisa nenhuma, é tudo pessoal…”

Perante este estado das coisas, considero que não há aplicação de sufrágio censitário que resolva isto, ou aplicação de penalizações a quem se abstenha que resolva um caso destes ou qualquer outra solução do mesmo tipo.

Apenas uma completa reestruturação do mapa eleitoral alterando e reduzindo freguesias e câmaras municipais e acima de tudo deixando o mapa autárquico de seguir a lógica pelo qual ele foi inicialmente organizado em 1976: de acordo com os sítios onde se situavam as igrejas da Igreja católica. / O mapa segue fielmente a divisão administrativa da Igreja católica…/

Foi esse o “critério cientifico” seguído pelos grandes revolucionários de esquerda (estou a ser irónico) do pseudo sistema eleitoral autárquico. (o que demonstra bem para algumas das pessoas mais novas que ainda resistem a ler o que se escreve neste blog, o enorme conjunto de caca que existia na cabeça dos esquerdóides e direitóides revolucionários ou lá o que eles eram… ou acham que eram…)

Não só seguíram um modelo adverso à formas democráticas de viver a vida como demonstraram que não tinham – concretamente a porra de ideia nenhuma acerca de como organizar eficazmente e com critérios claros um país, administrativamente.

Agora temos toda esta situação a explodir: autarcas que para manterem o poder e interesses caciqueiros privados que gastam sempre mais do que tem para gastar e não criam nada nos sítios, gerando, paralelamente, um desordenamento do território descomunal.

Isto é uma localidade no centro do país.

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