DISSIDENTE-X

O ABORTO E O CONCUBINATO

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No dia 21 de Dezembro de 2006, num outro blog que eu fazia, publiquei este post. Que estava “incompleto”. Agora já o posso republicar outra vez porque já sei o fim da história. E o fim da história é deliciosamente irónico e hilariante de uma forma absurda e pervertida…

Há muitos anos atrás, um amigo meu telefonou-me.
O dia era belo, o sol brilhava, os passarinhos chilreavam.
Ao telefone o meu amigo parecia aflito e preocupado.
Atrapalhado, falava de todos os assuntos e de nenhum.
Falava do tempo, do sol que brilhava e do magnífico chilrear dos passarinhos, sem se decidir a dizer o que lhe “ia na alma”.

Quando se decidiu a falar, instintivamente, percebi que era alguma coisa relacionada com a namorada dele.
Tal percepção notou-se mais, quando ele me perguntou se eu o poderia ajudar porque tinha acontecido uma coisa “grave”. Ele disse “grave” (ainda me lembro) com a “gravitas” na voz. Veio-me à ideia que seria uma gravidez, o problema “grave”.

Um interrogatório feroz e insistente da minha parte e uma resistência de 5 segundos da parte dele, mas, após uma meia hora de conversa, fez-me perceber ao que vinha – senhora dele estava grávida.
E disse-lhe: ela está grávida?
Ele como achava que ela estava grávida, (e estava em pânico) e interrogou-me espantado “como é que tu sabes”? (Mais tarde compreendi que o tipo achava que eu possuía uma aura visionária, vá-se lá saber porquê…)

Suspeitando evidentemente que, se eu sabia, outros saberiam. Se outros saberiam, a sua reputação ou a sua imagem ou fosse lá o que fosse a que ele atribuía valor ficaria imediatamente estilhaçada.

A criatura em questão era um crente católico e praticante.
Também era militante do partido socialista.
Estamos a falar dos anos oitenta, uma quinzena de anos depois da revolução que mudou tudo para ficar tudo na mesma.

O propósito real do telefonema consistia em “oscultar” o “visionário”.
Obter a minha opinião acerca do assunto, os meus serviços como oráculo orientador. Ao mesmo tempo eu seria, também, uma “voz reconfortante”; um “providenciador” das “certezas” de que ele carecia.

O problema, percebi com o decorrer da conversa era,” “a minha namorada está grávida, o que é que eu faço”?

Nessa mesma época o tipo estava a estudar enfermagem. 1ºª Ano do curso.
A namorada também. Tinham-se conhecido lá.
Era filho único, de uma família modesta, a namorada, ao que me recordo, também. Um dia decidiram libertar as endorfinas cerebrais responsáveis pelo desabrochar da luxúria concupiscente (gosto do ar “perverso” da palavra concupiscente).

Mais tarde vim a saber através de outros espíritos adversos conhecidos mútuos * que eles pareciam coelhos concupiscentes (gosto do ar perverso da palavra concupiscente…não sei se já tinha dito).

No entanto eu ,prefiro acreditar na pureza mística e contemplativa daquela reunião de dois seres num acto cheio de intensidade megalítica em plena pulsão dos sentidos e fusão dos corpos. Em vez da concupiscência à solta. (Concupiscência; também gosto do ar perverso desta palavra…)

Ø

Após quase meia hora de conversa, onde proferi todas as coisas possíveis e inimagináveis para tranquilizar a criatura lá consegui efectivamente perceber, no meio de todos aqueles solavancos retóricos cheios de – moral – conformista – cristã – social de esquerda PS – anos 80, do senhor em questão, que ele necessitava da minha “ajuda” em termos práticos.

Na altura como era um inconsciente e acreditava nas pessoas candidamente, um ético convencido erradamente de muitas coisas totalmente absurdas disse logo que o ajudava.

Um Cruzado a partir para as Cruzadas parecia um tristonho comparado comigo.
E qual era, realmente, a minha ajuda requerida?
Que, na minha suposta qualidade de “profundo conhecedor do mundo subterrâneo”; (eu ouvia “Heavy Metal” e tudo) providenciasse o contacto (evidentemente, através dos meus conhecimentos tenebrosos), de uma “especialista” em fazer abortos.
Se eu sabia como, onde e de que forma se faziam abortos e se estava disposto a ir com ele ao … local.

À cratera. À caverna. Ao antro.
Este senhor era militante do PS.
Supostamente era “progressista”.
Era, além disso católico.

A namorada com um mês de menstruação fora de prazo era católica. Sem um mês de menstruação fora de prazo também era católica. Os pais dele eram católicos, de origens humildes e pobres. Simpatizantes do PS. Suspeito que os pais dela também eram católicos mas não de origens humildes e pobres.

Isto era tudo ainda mais estranho porque um tipo que estava a tirar um curso de enfermagem, teoricamente, estava em contacto com um meio onde existiam médicos e profissionais da área e poderia obter essa informação.

No entanto verifico que isso poderia “manchar” a reputação. Para esta pessoa – percebi alguns anos depois – reputação e conformismo são tudo (eram tudo, eram valores a preservar), na tentativa de fugir à pobreza usando os estudos.
Quando a conversa já estava a terminar ainda o reconfortei dizendo que, provavelmente, a namorada não estava grávida e que não era preciso empreendermos uma expedição e que tudo se resolveria pelo melhor.
Tudo se resolveu, porque, e segundo eu consegui depois saber, ela só estava efectivamente com o período atrasado.
Também soube que esta pessoa estava a estudar para enfermagem e não tomava a pílula anticoncepcional. Além disso os concubinos ( também gosto do som perverso da palavra concubinos…) não usaram preservativo.
Isto aconteceu depois de 1984, ou seja depois da – ainda – actual lei (a lei até 2007).
Tudo o que era catolicismo recalcado e pecado idiota estava ali plasmado, misturado com a defesa social das aparências.
Tudo o que era conformismo moral e individual estava ali gravado e incorporado naquele comportamento.
Mas o que me deixou semi perplexo, é que este senhor era militante do PS – supostamente teria a cabeça arejada – e ao mesmo tempo era católico praticante, e ao mesmo tempo que era católico praticante, tinha relações sexuais com a namorada sem ter casado com ela. (Claro que sem preservativo…)

Posteriormente casou-se com ela e já tem, ao que julgo saber, dois filhos.**

Ainda antes de se casarem continuaram a ter sexo em regime de concubinato concupiscente, (melhor ainda e mais perverso é juntar concubinato e concupiscente tudo na mesma frase, para dar um ar duplamente perverso…) mas ai já ela tomava a pílula.
A toma da pílula constituía um salto epistemológico no relativismo moral pré estar à rasca com a hipotética gravidez.
O engraçado nestas pessoas é, não só as todas estas contradições em que se enredam, mas sim e também; quando “ estão à rasca”; de forma lesta abandonam os pruridos e os “grandes ideais morais” e rapidamente contornam as regras.
E não hesitam em “buscar ajuda”, virando-se para os elementos aparentemente subversivos da sociedade.
Para que estes (os contaminados…com o pecado ou não conhecedores do rito) os ajudem a ocultar a vergonha e os ajudem a resolver as trapalhadas em que se meteram. Não tenho quaisquer dúvidas que estas pessoas votarão “não” no próximo referendo.
Aliás, acaso a pessoa lesse isto negaria tudo. E porque não haveria de negar?
A conversa que teve comigo foi por telefone, privada, logo impossível de provar.
As aparências estão salvaguardadas. O silêncio ficou para trás.
Mas para mim foi um momento inestimável: fiquei a saber como as “coisas são” e como as pessoas “cheias de princípios” (induzidos socialmente) se movem, quando estão mesmo à rasca.
Ø
E para finalizar esta história absurda e ridícula, esta paixão-dramalhão de contornos indefinidos com tragédias e dramas pungentes e vielas escuras onde luxuriantes criaturas tentam chegar ao estatuto da concupiscencia; um destes dias venho a encontrar um dos outros espíritos adversos conhecidos mútuos *.

Pergunto-lhe por este nosso conhecido. Accionada a pergunta porque ia na rua um destes dias, num local público, a entrar ou a sair de um café, preparando-me para entrar mentalmente nos lugares desconhecidos do meu cérebro onde passo grande parte do meu tempo, quando algo me chamou a atenção.

Eram os progenitores da criatura da história lá de cima, a que queria saber como se fazia um aborto, e a mãe estava muito transtornada a debitar preocupações em série para uma outra senhora que fingia que estava interessada. E deu para perceber pela conversa que alguma coisa se passava com o filho e a mulher dele. (os coelhos luxuriantes concupiscentes de há 20 anos atrás…)

E quando pergunto a este conhecido mutuo, mais um dos espíritos adversos, este explicou-me, candidamente, ** que os dois pombinhos concupiscentes (adoro o som da palavra concupiscente – já tinha dito lá em cima, mas nunca é demais repetir…) já não eram pombinhos que concupiscentemente concupiscavam um com o outro. (concupiscavam é de facto uma bela palavra…)
Tinham-se separado.
Ohhhh….
Mas que surpresa…

Ao que parece, a senhora tinha ficado farta do pombinho concupiscente, que tantos “esforços secretos”fez no passado para defender a reputação social e tinha-se pirado para os braços de outro concupiscente de marca diferente e idade mais experiente. (concupiscente rima com detergente e é verdade…)

E o nosso homem, para não ficar atrás na nova corrida concuspicente que está aí a começar, tinha concupiscentemente arranjado uma nova coelha senhora. (Nesta frase há muita concuspiscencia, realmente…)

E por via disso, explicou-me o espírito adverso, também ” já não se dava com os amigos”, a partir daí. Fugia ao contacto; evitava reavivar as velhas amizades devido a esta completa operação de mudança de estatuto social concupiscente.
Ø

Isto de facto é muito fácil de fazer, mas eu sai defeituoso da linha de montagem…defeito meu, concerteza…
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Written by dissidentex

12/11/2008 às 23:00

Publicado em ABORTO, HIPOCRISIA

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