DISSIDENTE-X

DARFUR E O PETRÓLEO

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Em 1991 o New York Times noticiava que a companhia petrolífera Exxon tinha caído nos rankings classificativos das maiores companhias petrolíferas do mundo. Para número 4.

Nessa data a companhia americana Chevron, era a número 7 do ranking, (a 6º era a Mobil, a 8º era a BP). A número 13 era a Texaco. Mais tarde viria a fundir-se com a Chevron, tornando-se na Chevron-Texaco.

E qual é o interesse disto?

A Chevron foi a companhia petrolífera, que, nos anos 70, lançou um ambicioso programa de prospecção de jazidas de petróleo no Sudão.

O Darfur fica no sul do Sudão. 500 mil quilómetros quadrados, no sul do país, foram testados pela Chevron. E descobriu-se que, efectivamente, existiam enormes reservas de petróleo. A partir daí, o Sudão nunca mais teve sossego e passou a ter guerras sistemáticas, por causa do petróleo.

A Chevron, acabou por desistir da exploração do petróleo, porque as suas instalações eram sistematicamente atacadas por rebeldes patrocinados por qualquer interesse religioso, político ou financeiro do momento ou Super potência.

Em 1992 vendeu as suas concessões. Em 1984 já tinha suspenso o projecto de prospecção. Em 1999 a China “pegou” nas concessões e começou a desenvolve-las.

A partir de meados do século 21, a China, tentando projectar-se como grande potência e tentando – acima de tudo, corresponder aos problemas que a sua economia tinha – uma voraz necessidade de petróleo – para continuar a crescer acima da média, lançou-se numa política agressiva de obtenção de fontes fiáveis ( na origem) de fornecimento de petróleo.

A solução lógica apontava para África. A ideia era “assegurar” através de acordos comerciais generosos; fornecimentos de longo prazo de petróleo, que não pudessem ser perturbados.

Tinha a China o dinheiro para isto?

Tinha, precisamente pelo facto de “exportar massivamente” quantidades de produtos fabricados na China, e através do lucro brutal daí derivado; tal gerar um superavit orçamental chinês, parte do qual era constituído por moeda estrangeira (dólares e euros ) em reservas no banco central chinês – um poderoso músculo financeiro à disposição.

Com as costas aquecidas por muitos milhões de dólares das suas reservas, a China programou a sua estratégia geopolítica-económica e começou a investir parte desse dinheiro (uma outra parte vai para compras e fabrico de armas…) em aquisição de matérias primas. África era o objectivo, e dentro de África especialmente a região que vai do Sudão até ao Chade – rica em hidrocarbonetos.

E uma nova guerra fria entre os EUA e a China começou – localizada aqui neste local.

Clicando nos 2 primeiros mapas abaixo da galeria, pode-se perceber porquê:

Os mapas são divididos em dois, por razões de espaço. O original é um simples mapa feito pela Usaid em 2006 – uma NGO norte americana que serve, também de guarda avançada exploratória dos interesses dos EUA (do governo dos EUA), no que toca a influenciar países; “através da ajuda humanitária” que mostra quem são os donos dos campos de exploração petrolífera no Sudão. Em 8 dos campos marcados, não existem companhias norte americanas a trabalhar e 3 deles são explorados pela CNPC – China National Petroleum Corporation.

Ø

O cinismo Chinês assente no pragmatismo sem princípios.

Os chineses optaram por uma ” técnica” bastante cínica, mas mais verdadeira (passe o estranho paradoxo desta afirmação) para conseguírem convencer os chefes (democratas ou ditadores, neste campeonato geoestratégico que importa…) destes países a concederem à CNPC, concessões de campos petrolíferos.

Propuseram contratos “suaves” e com imensos benefícios, sem quaisquer clausulas obrigatórias (políticas ou económicas) anexas a esses contratos.

E que tipos de clausulas?

Por exemplo, obrigar esses países a (A) “fazerem reformas democráticas” ou a (B) “criarem condições para a existência de imprensa livre” ou (c) “esses países terem que abrir mercados à investidores estrangeiros” ou (D) “liberalizar a economia”, nomeadamente feitas tais clausulas para beneficiar as empresas multinacionais ocidentais (isto é, americanas) para (E) “impulsionar o comércio livre”.

Os Chineses não só concederam generosas linhas de crédito sem estas clausulas anexadas, como, de caminho, construíram escolas e caminhos de ferro nestes países onde investem, sem se preocuparem com o tipo de regime político que lá existe.

É uma falta de princípios total, mas é “mais séria”, por paradoxal que pareça, do que as “técnicas” dos países ocidentais – à cabeça e por grande distância os EUA.

Ø

O cinismo Ocidental assente numa técnica de engano dos outros com pseudo princípios.

A técnica “ocidental” ( EUA + Banco Mundial + FMI – especialmente estes) é apresentada como sendo mais limpa e legitima do que a chinesa, embora sejam ambas muito más, e a ocidental seja péssima pela lógica de logro e decepção que encerra.

O método usado especialmente desenhado e feito pelos EUA (um jogo de controlo) é feito através do Banco Mundial e do FMI – fundo monetário internacional.

Tal como os chineses fazem, são oferecidas “linhas de crédito” a estes países, MAS com taxas de juro “difíceis” (isto é, injecções de dinheiro que se fazem bem pagar) e em troca, estes países tem que “democratizar, abrir mercados, privatizar a economia, reduzir o peso do Estado (isto em países onde o Estado e as suas estruturas são completamente incipientes…) e permitirem que as empresas ocidentais (no caso que interessa, as petrolíferas) possam obter concessões de exploração.

Esta “cura” económica aplicada a estes países gera uma dolorosa adaptação (que muitas vezes não chega a acontecer) das populações destes países e dos regimes que as suportam, o que, por sua vez, gera pobreza e problemas de toda a espécie, nomeadamente a incapacidade de muitos destes países alguma vez se transformarem em democracias.

É precisamente por isso, que daí derivam guerras civis e regimes despóticos, golpes de estado, regimes musculados, matanças em guerras tribais, delapidação de recursos, pobreza geral, vagas de emigração para a Europa, etc

Ø

Como, apesar de tudo, já estamos numa nova era, a pergunta que muitos líderes africanos (tiranetes ou não) puseram a si mesmos foi: quem precisa das dores económicas propostas pelo FMI e pelo Banco Mundial, se podemos ter o mesmo (e mais) oferecido pela China, sem termos que fazer nenhumas mudanças (políticas ou outras) e sem sofrermos consequências políticas ou económicas?

– A china dá condições suaves e ainda constrói escolas e estradas.

– O FMI e o Banco Mundial( os EUA, por detrás) oferecem condições duras, e fazem-se pagar caro pela construção de 5 escolas…

Nota: os países africanos estão ao mesmo tempo a criar “concorrência” entre os EUA (Ocidente) e a China, tentando obter “o melhor negócio possível”. Um mecanismo típico da economia de mercado.

O que leva à pergunta retórica: os EUA não gostam de economia de mercado quando funciona contra?

Perante tão difícil escolha, (entre o FMI e a China), os líderes cleptocratas e demais espécimes africanos de todos os tipos demoraram 5 segundos a escolher um lado.

Até agora a China (infelizmente) tem jogado muito melhor este jogo geopolítico. Com as consequências (parciais) que se tem visto no preço do petróleo durante o ano de 2008.

Em Novembro de 2006 a China convocou uma cimeira em Pequim, com 40 chefes de estado africanos. A ideia era fazer uma operação de charme – e arranjar contratos de concessão e exploração de petróleo em África.

E o “comércio” com África, aumentou, como se pode ver nesta parte de uma notícia transcrita do People´s Daily.

Um exemplo das condições suaves que a China oferece é:

“…China has given zero-tariff treatment to 190 export items from the 28 least developed countries in Africa that have diplomatic ties with China, he said.

By the end of 2005, China’s investment in Africa totaled 6.27 billion U.S. dollars. So far, China has signed investment protection agreements with 28 African countries, and agreements on avoiding double taxation with eight African countries, he said.

Under the framework of the FOCAC, China undertook 176 whole-set projects concerning roads, schools, hospitals and stadium in 42 African countries, offering timely humanitarian aid to some African regions hit by natural disasters, he said.

China has canceled debt totaling 10.9 billion yuan (1.4 billion U.S. dollars) owed by the heavily indebted poor countries and the least developed countries in Africa that have diplomatic relations with China, signed 27 framework agreements on preferential loan, and trained about 10,000 professionals for African countries, he said.

Basicamente a China fez o seguinte:

1. Tarifas a pagar por 28 países que exportam para a China são zero. Os produtos não sofrem taxas alfandegárias exportados desses países para a China.

2. Acordos para evitar a dupla taxação com oito países africanos.

3. Lançamento de 176 projectos de construção de infraestruturas em países africanos.

4. Perdão da divida externa no montante de 1,4 biliões de dólares aos países mais pobres do continente com os quais a China tem relações diplomáticas.

Em 2006, a China despejou só 8 biliões sobre a Nigéria, Angola e moçambique. O Banco Mundial despejou 2.3 biliões para toda a África subsariana.

E conforme se pode ver clicando nos 2 primeiros mapas lá em cima existe uma linha vermelha – que representa um pipeline/oleoduto, construído pelos chineses, que leva o petróleo extraído do sul do Sudão até ao Norte do Sudão – até Port Sudan, onde os petroleiros chineses o levam de volta para a China para ser refinado; o petróleo das suas 3 explorações.

bloco-6-darfur1Um dos blocos que a China detém está situado junto à fronteira com o Chade. É o bloco 6.

E este problema geoestratégico foi amplificado (o que quer dizer que a guerra nunca terminará ali) porque em 16 de Abril de 2005, o governo do Sudão anunciou que tinha sido descoberto uma nova reserva de petróleo no Darfur, capaz de produzir 500 mil barris por dia.

Entre riquezas em petróleo enormes, outros assuntos misturadas aparecem. O norte do Sudão é predominantemente muçulmano, com um regime feudal e déspota. O sul é cristão animista (penso que com um regime feudal, mais anárquico e também déspota…).

No Sul existem as maiores reservas de petróleo do país e foi onde foram descobertas estas novas.

E curiosamente, no Sul do Sudão, existe uma longa guerra civil (que é parcialmente financiada pelos EUA), com o objectivo de “partir” e separar o norte predominantemente islâmico, mas com poucas riquezas, do sul cristão animista e mais francófono (perto do Chade).

E é assim que o perigo do fundamentalismo islâmico “alastrar” (um problema verdadeiro, mas que aqui é usado como “camuflagem”…para resolver outros assuntos) é usado como uma causa pela qual combater, visando chegar-se a outros interesses: controlar a exploração e o acesso ao petróleo do Sudão, por parte dos EUA.

Temporalmente as datas dos acontecimentos coincidem com a estratégia que também foi seguida para com o Iraque, com excepção de que, aí, existiu uma invasão.

A lógica é simples: libertar o Iraque da tirania de Saddam Hussein.

A lógica é simples: libertar o sul do Sudão, do norte do Sudão, e libertar os poços de petróleo que ajudam um regime tirânico a manter-se no poder, para ser substituído por outro regime tirânico, mais amigável aos interesses geopolíticos dos EUA..

Uma dos grandes problemas aqui é que se afirma sempre – para influenciar opiniões públicas ocidentais – que “primeiro está o combate à tirania” e não que “primeiro está o combate para obter recursos – criando com isso uma guerra de obtenção de recursos, mas falando de “crise humanitária”, ou “genocídio”.

Ø

Pelo meio existe (existiu) a palavra genocídio. usada para tentar justificar outras coisas. Existiram evidentemente atrocidades cometidas pelos combatentes na guerra de guerrilha em luta pelo controlo da região, mas a palavra genocídio é muito forte e manifestamente exagerada. O único governo que através da sua diplomacia o usou foram os EUA.

genocidio-sudao-sauerbrey

É caso para se pensar porquê.

Quem quiser pensar porquê.

O governo americano afirma isto desde o ano de 2003. Em 2004, um painel de observadores da ONU – “Notícia washington Post de 1 Fevereiro de 2005” – liderado por um juiz de direito italiano, chamado Antonio Cassese, analisou o Darfur e não encontrou provas de genocídio, deliberadamente planeado pelo governo muçulmano do Sudão, mas sim de graves violações das milícias Janjaweed patrocinadas pelo Governo, que podem constituir crimes contra a humanidade. Mas não genocídio. (como é óbvio que tal não significa que se apoie estas acções da milícias…)

Ø

Então porque é que o governo americano fala sistematicamente em genocídio?

Porque os EUA, treinaram o senhor Jonh Garang, antigo líder dos rebeldes.

Porque Garang era cristão (animista) tal como a maior parte da população do sul do Sudão.

(Indirectamente) Porque a ideia era fazer a Nato intervir no Sudão.

(Ver á propósito a magnifica intervenção da candidata derrotada às eleições 2008, a senadora Hillary Clinton, actual secretária de Estado (2008), incitando o Presidente Bush a “intervir no Sudão, para parar o genocídio…)

(Os motores de busca também indicavam que o Senador Joe Biden, actual vice Presidente, também tinha feito uma declaração idêntica; a ligação já estava no entanto indisponível…)

E existe uma resolução do Senado norte americano chamada Senate Resolution 383, introduzida pelos senadores, Biden (actual vice presidente do EUA), Brownback, Obama (actual presidente dos EUA), Lugar, Feingold, Dodd que defende que a Nato devia intervir no Sudão.

E eis como, questões humanitárias são misturadas com questões de petróleo, com o uso da Nato a intervir “fora de área”…usado como “solução”

É um pequeno exemplo que serve para demonstrar que em matéria de política externa, e de interesses dos EUA, o que vale são as ideias da política norte americana, e não o facto de os senadores serem democratas ou republicanos…

Ø

O ping pong geoestratégico norte americano continua, para contrabalançar as ofensivas em busca de recursos feitas pela China, através da CNPC.

Existe o interesse de criar uma base militar norte americana em São Tomé e Príncipe. Os radares já vieram primeiro.

Para controlar a zona do golfo da Guiné. Golfo da Guiné onde a actividade chinesa, económica e diplomática tem sido fervilhante.

Mas decerto que isto é apenas uma coincidência espantosa.

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