DISSIDENTE-X

COMO A LIBERDADE NEGATIVA LEVA A UM LEILÃO DE VIRGINDADE

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Primeiro existiram problemas.

E depois existiu Isaiah Berlin. O feiticeiro-criador da solução para os problemas.

No dia 31 de Outubro de 1958, Berlin, abriu a caixa de Pandora dos problemas e das soluções, numa conferência (chamada “Dois conceitos de liberdade”) onde demonstrou algo de novo.

O elixir da protecção que nos protegeria das “formas de liberdade errada”. E que tornaria a sociedade mais segura.

Mas, infelizmente, o elixir da protecção das formas de liberdade errada, levou-nos para um mundo sem significado.

Berlin, uma figura extraordinária, queria ajudar a definir politicamente, de forma saudável, o seu tempo e o tempo futuro, para as novas gerações. No centro do seu pensamento estava a questão da liberdade individual e o que fazer para a proteger.

Apresentou dois conceitos novos nessa conferência:a (1) liberdade negativa e a (2) liberdade positiva.

Berlin explicou os conceitos recorrendo ao passado.

As duas liberdades teriam começado na época da Revolução Francesa. A (1) liberdade positiva originava da crença dos líderes revolucionários segundo a qual, para existir verdadeira liberdade, as pessoas tinham que ser transformadas. E só os líderes saberiam quais os ideais a alcançar que essa transformação pressupunha.

As massas que não compreendessem o que a verdadeira liberdade era, tinham que ser obrigadas a compreender. As pessoas tinham que ser obrigadas a ser livres.

Esta era uma crença única para resolver os problemas dos seres humanos.

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Para atacar este ideal corrupto derivado da Liberdade positiva, existe a (2) Liberdade negativa.

A ideia de que todos os indivíduos devem apenas ter que fazer o que quiserem. Apenas devem existir governos e leis, para garantir que as acções individuais não interferem com as liberdades de outros.

Exceptuando isso, o poder deve ser reprimido. A liberdade negativa é assim, uma sociedade deliberadamente sem ideais, excepto os desejos individuais e a liberdade para os satisfazer.

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Esta é uma ideia similar às ideias dos economistas e dos tecnocratas. É uma ideia de liberdade apenas baseada na existência de milhões de indivíduos egoístas que apenas buscam o próprio prazer pessoal e aos quais deve estar a sociedade ajustada.

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Do ponto de vista prático:

A liberdade positiva seria aquela simbolizada pelos tradicionais revolucionários (geralmente conotados com a esquerda política) que queriam mudanças sociais rápidas e significativas que terminassem com injustiças ou desigualdades e o tentavam fazer através de mudanças baseadas em ideias e ideais de mudança.

Sendo que quase todas essas ideias e ideais de mudança eram pacificas inicialmente mas tornavam-se quase sempre violentas depois. Uma perversão desta lógica revolucionária levou ás teorias comunistas/marxistas e, posteriormente as diversas formas de Estados totalitários.

Ver : Dissidente-x – Equilibrium

Ver : Dissidente-x – A Vida dos outros

O conceito de liberdade negativa é uma ideia de sociedade que eliminaria as tensões das classes dentro da sociedade, e obteria esse objectivo de eliminação promovendo uma sociedade de pessoais sem ideais e tendencialmente todas egoístas e orientadas pelo seu interesse próprio.

Ver: Dissidente-x – Teoria dos Jogos

Ver: Dissidente-x – Teoria dos Jogos e os péssimos sub derivados

O único ideal seria constituído apenas pelo facto de as pessoas terem que se preocupar em ser felizes (realizarem a totalidade do seu potencial), sem incomodarem a liberdade dos restantes membros das sociedade (para estes realizarem o seu potencial…).

Ainda por outras palavras: a liberdade negativa seria a possibilidade de cada um poder realizar o seu potencial, através da sua vontade, não necessitado do “Estado” (Governo) para o fazer.

Ainda por outras palavras: a liberdade positiva seria a restrição destas possibilidades de cada um realizar o seu potencial, através da sua vontade, porque seria o Estado (Governo “paternalista”) a dizer-lhe o que fazer.

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A visão da filosofia política de Berlin assentava na ideia que deveriam existir muitas ideias, e não só uma ideia para explicar o mundo.

De acordo com isto, rejeitava pensadores como Marx, Platão, Rosseau, Hegel, entre outros, porque todos tinham pretensões a conseguir explicar o mundo apoiados num só sistema de explicação do mundo baseado apenas numa só ideia (uma só teoria central).

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O que levava, em última análise, a ter que saber-se qual a natureza da liberdade. E ao duplo problema que encerra:

A) A liberdade não pode ser absoluta, porque os mais fortes destroem os mais fracos.

B) A liberdade é regulada, mas aí põe-se o problema de saber quem é que regula e com que direito o faz?

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Berlin, que era muito sábio, avisou, no entanto, os seus seguidores e “implementadores” deste tipo de sociedade, que a tarefa não era isenta de perigos – que o conceito de liberdade negativa não era isento de se auto corromper…

Que quem promovesse o conceito de liberdade negativa, nunca deveria acreditar tratar-se dum ideal absoluto.

Se a lógica da implementação do ideal de liberdade positiva levaria inevitavelmente ao caos e a revoluções (subvertendo a ideia original do conceito), também este ideal de liberdade negativa, teria a mesma tendência a se auto subverter ou a ser subvertido “por dentro”, caso os seus criadores e desenvolvedores acreditassem que o mesmo seria infalível e absoluto.

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A profecia de Berlin, acerca do seu próprio conceito degenerou, como podemos ver todos os dias, na maneira como a sociedade está organizada.

O culto da felicidade e da ordem social – agora – é o de não existirem nenhuns ideais, nenhumas ideias, nenhuns valores cívicos, sejam quais forem o sentido dos mesmos;apenas uma multidão de ocos à solta.

Nenhum amor ou respeito pela democracia (antes pelo contrário, pactua-se com quem a desgasta e subverte), nenhum principio ou caminho a seguir, nenhum ideal colectivo assente num destino colectivo como povo, no que a Portugal diz respeito..

É a efectivação da subversão do conceito que Isaiah Berlin definiu: o “ideal” da liberdade negativa tornou-se o seu próprio inimigo e o mecanismo de subversão de si mesmo.

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Como todas as subversões, viajamos na linha de comboio do paradoxo completo.

Estamos totalmente construídos como pessoas numa cultura que defende e afirma falar em nome da liberdade, (para que nós possamos realizar a totalidade do nosso potencial) mas, simultaneamente, tenta restringir todos os ideiais de liberdade que existam (restringindo conceitos como o de privacidade, e estabelecendo cada vez mais controlos sociais e económicos, por exemplo).

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Existe sempre um inicio.

Para se começar a restringir ideais e valores, é necessário restringir os que – tendencialmente – mais os deveriam ter: os jovens.

É é por isso que o neoliberalismo (económico) teme e tenta “tapar” o idealismo dos jovens.

Daí até estender o manto sufocante ao resto da sociedade é apenas um pequeno passo, que se transpõe depressa e facilmente.

E chegamos ao neoliberalismo pleno.

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São normalmente 3 as formas que neoliberalismo utiliza para neutralizar as motivações utópicas da juventude.

1. O “tempo” é tornado “rápido” e deixa de ter um carácter histórico. Deixa de existir “história”, o tempo transforma-se num movimento cíclico. Tudo é rápido e tudo é prazer imediato, e organizado por essa via.

– Uma forma de combater isto é a participação política e cultural. Direitos Humanos, acções cívicas. A escola como centro de formação política, sem partidarismo, querendo formar cidadãos e não consumidores.

2. A redução da cultura ao mero entretenimento. Apenas o apelo aos sentidos, o jogo de imagens, o voyeurismo, a pornografia e a violência. Pensar e sentido critico, não.

– Uma forma de combater isto é a cultura. Incentivar crianças no gosto pela cultura e pelos livros. Analisar criticamente filmes e anúncios publicitários.

3. O consumo como fonte de valor humano. A pessoa nada é, nada vale. A pessoa apenas vale quando tem bens materiais. Esta cultura diz que a pessoas apenas tem valor porque tem.

– Uma forma de combater isto é a espiritualidade pessoal. A busca do equilíbrio pessoal.

E após o início temos aquilo que temos:o meio da sociedade onde todos estão apostados em “realizar todo o seu potencial”. Fonte AQUI.

virgindade1

Correndo o risco de ser chamado de “paternalista” e adepto da liberdade positiva, temos um mundo sem ideais na notícia do AEIOU, bastante definido.

Isto é evolução.

Chegamos ao mundo sem significado.

Vamos abrir uma garrafa de champanhe e comemorar efusivamente por termos chegado aqui.

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Written by dissidentex

01/12/2008 às 23:55

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