DISSIDENTE-X

COMO SE FABRICOU A CRISE FINANCEIRA MEXICANA DE 1982

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Nos finais dos anos 70, o mundo político/financeiro discutia  abundantemente um problema que carecia de solução: a possibilidade de “o terceiro mundo” entrar numa crise de insolvência das dividas que todos esses países contraíram para fomentarem o investimento e se “desenvolverem”…

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Paul Volcker.

Nessa época, os factores que contribuíram para essa crise foram muitos, mas um dos principais foram as acções dos EUA (e Grâ-Bretanha), e a política de “combate à inflação” defendida pelo senhor Paul Volcker, nomeado chefe da FED – reserva Federal norte americana – o banco privado que faz as vezes de Banco Central, por duas administrações diferentes, uma Democrata e outra Republicana.

Paul Volcker foi, recentemente, há umas duas semanas atrás, com a idade de 81 anos, chamado para fazer parte da administração Obama – uma administração democrata (aquilo que passa por ser a esquerda nos EUA). Nos anos 80, Volker tinha sido nomeado por Ronald  Reagan, um feroz adepto do conservadorismo…

Retire-se conclusões do que se está a preparar de novo…

Volker é membro da Trilateral, uma organização “duvidosa” para não dizer mais…

Teve cargos na Federal Reserve Bank of New York, e no Chase Manhatan Bank, como economista, bem como no Us Treasury department– o departamento do tesouro norte americano.

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No ano de (1) 1972 e no ano de (2) 1979 existiram dois choques petrolíferos – aumentos brutais do preço do petróleo.   Esses factos levaram a que a inflação (a subida continuada e regular dos preços) fosse extremamente alta, especialmente nos EUA.

Começaram então a surgir (a serem aplicadas) as teorias monetaristas (um nome diferente – “mais técnico” – para “neoliberalismo) que preconizavam as ideias de choque ou “terapia de choque”  ( Recordar a este propósito o péssimo governo português de Durão Barroso (2001-2004) – o actual Presidente da União europeia e o seu programa de governo onde o “choque fiscal” provinha directamente destas ideias…).

O conceito subjacente às ideias de Volcker (retirado do Tatcherismo) era “cut and squeeze”/ cortar e apertar.

Como?

O mecanismo básico é o seguinte.

Primeiro começa-se por aumentar as taxas de juro base – preferencialmente  para valores muito mais altos.

Isto leva a que se torne quase proibitivo para industrias e particulares conseguirem ir ao mercado bancário financiar-se, para fazerem investimentos produtivos, e de modernização ou de simples consumo, no caso dos particulares….

(Quem é mais velho lembra-se da situação em Portugal nos anos 80, em que as taxas de juro chegaram aos 22 %…)

Ao mesmo tempo que as taxas de juro base são aumentadas para valores estratosféricos, o Banco Central de um qualquer país que use esta “terapia” começa a cortar crédito aos bancos, isto é, começa a restringir a oferta de moeda – o já famoso agregado M3. (Ver Dissidentex – a Crise financeira americana – a impressão de moeda…)

O resultado?

(1) Menos moeda em circulação e (2) juros mais altos fazem com que as pessoas/empresas não pensem em investir (até porque não podem) e fazem com que os preços tenham tendência a manterem-se ou a descerem.

A lógica que daqui decorre é que novos investimentos em (A) estruturas, (B) material e (C) formação de mão de obra não são feitos pelas empresas, e muitas delas acabam  – posteriormente – por ir à falência.

Do lado dos particulares, muitos deles  (quase todos) ficam completamente impossibilitados de adquirir novas casas ou outros produtos (as taxas de juro dos empréstimos são proibitivas e a poupança própria é quase inexistente ou nula).

E o desemprego aumenta sempre extraordinariamente.

Isto é o monetarismo (em termos médios) também conhecido por neoliberalismo económico, (versão antiga até aos anos 70) embora actualmente, no século 21, haja uma certa reciclagem…dos métodos.

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O monetarismo versão 2.0 (mais)  moderna e em evolução começou com Thatcher nos anos 80, e rapidamente se expandiu para os EUA tendo Paul Volcker como o seu principal artífice lá.

Os principais objectivos e exigências que os políticos (monetaristas) dos anos 80 (neoliberais) passaram a papaguear eram:

(1) Exigências constantes para que o “Governo” gastasse menos.

(2) Taxas de impostos muito mais baixas (ou a criação de uma taxa de  “imposto único” para todos…)

(3) Criação de legislação que desregulamente a industria e a banca (deixando de haver quaisquer limites restritivos para a actividade da banca e da industria).

(4) Atacar e quebrar o poder dos sindicatos.

Conjugadamente as taxas de juro aumentaram por todo o mundo.  E possibilitaram que os 4 pontos acima descritos fossem disseminados por muitos lados – após terem sido importadas estas técnicas” da Grâ-Bretanha  e do monetarismo radical de Paul Volker e do seu banco central – o FED.

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O Presidente americano Carter, um campónio (cultivava amendoins antes de ser Presidente) ignorante, foi aterrorizado a aceitar estas  “técnicas” e em 1980, antes das eleições – querendo ganha-las – aceitou assinar um pedaço de asno de legislação chamado “The Depository institutions deregulation antMonetary control Act of 1980”.

Title: An act to facilitate the implementation of monetary policy, to provide for the gradual elimination of all limitations on the rates of interest which are payable on deposits and accounts, and to authorize interest-bearing transaction accounts, and for other purposes. Retirado “DAQUI”

Tradução a martelo: Uma lei para facilitar a implementação de uma política monetária (monetarista) que consiga fornecer a gradual eliminação de todos os limites sobre as taxas de juro que são pagáveis sobre depósitos e contas…

A lei foi pela primeira vez apresentada a 27/7/1979 e foi aprovada em 31/3/1980.

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Esta lei  tinha ainda outras características:

– forçava todos os bancos a alinharem pelas regras do FED (o FED é um banco privado, note-se…)

– Permitia livremente (sem restrições relacionadas com problemas de direito da concorrência) fusões de bancos.

– Retirava o poder de veto dos governadores do banco em relação as taxas de juro das contas a prazo propostas pelos bancos.

– Permitia que qualquer instituição pudesse decidir a taxa de juro que quisesse.

Na prática dava a Paul Volcker o extraordinário poder de conseguir aplicar a sua “terapia de choque” , porque todos os bancos alinhavam pelas regras do FED, uma vez que a partir desta lei, o céu era o limite para as taxas de juro – abrindo o caminho a que a Reserva Federal (Volcker) decidisse subir as taxas. (E o bancos “subiam” a taxas…obedecendo a Paul Volcker…e ganhando mais dinheiro com isso…)

O que quer dizer que quem tivesse dividas – as pagaria – (entrando) “neste novo esquema” a taxas de juro muito mais altas do que seria o normal. *

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O cenário é o seguinte.

– Através de legislação altera-se a taxa de juro a pagar fazendo-a ser muito alta.

– O pretexto para tal é o combate à inflação.

– Gera-se um acordo tácito entre a FED (Banco central, mas privado) e os bancos comerciais para que as taxas de juros subam, sendo que muitos dos bancos privados que emprestavam dinheiro, eram ( ao mesmo tempo) donos do Banco central que tinha um chefe economista a determinar que as taxas de juro deveriam ser altas para “combater a inflação”.

– A economia “produtiva” fica desprovida de meios para se financiar e conseguir investir, os consumidores incapazes de investir, o desemprego aumenta extraordinariamente, e os bancos financeiros que engendraram toda esta lógica ganham em taxas de juros altas o que nunca ganharam antes…

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E o que tem tudo isto a ver com o México?

No inicio dos anos a “crise de divida do terceiro mundo” foi provocada pelo monetarismo de Volcker e o Tatcherismo (isto é, dos interesses económicos/políticos por detrás).

Lopez Portillo, o presidente mexicano, por idos de 1981/1982, decidiu empreender um vasto e ambicioso programa de investimento industrial para promover o desenvolvimento do México.

Nos Estados mexicanos de Vera Cruz e Tabasco, a companhia mexicana de petróleos Permex (de capitais exclusivamente públicos, desde 1938) tinha descoberto enormes  jazidas de petróleo. Com os rendimentos daí retirados Portillo lançou o seu programa (que já vinha do anterior Presidente).

Adenda, retirado DAQUI, Pdf  94 páginas, página 6 – o ensaio é sobre imigração, mas no que a esta parte diz respeito, mostra a “dimensão” e as possibilidades da economia mexicana:

But by December 1976/January 1977, with the nearly simultaneous inaugurations of U.S. president Carter and Mexican President López Portillo, Mexican fortunes were looking up. A 100 percent peso devaluation in 1976, followed by an IMF-managed austerity program restored eight to nine percent GDP growth levels. Peso stability and López Portillo’s “alliance for production” restored investor confidence. More importantly, by 1977 production based on vast new oil reserves discovered in May, 1972 had come on line. Mexican oil production increased from 311,000 barrels a day in 1970, to a million barrels a day by 1977, to 2.25 million barrels a day by 1980, one million of which were exported, reducing (theoretically) the need for new bank credits. In September, 1980, Mexico became the fifth- largest oil producer in the world, with announced proven reserves of 60 billion barrels, and possible holdings of 250 billion barrels.

Portillo era nacionalista, no sentido em que defendia os interesses do México. Isso veio a custar-lhe caro e ao seu país.

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Em 1981, certos sectores da política americana, não viam com bons olhos as ideias de Portillo. A ideia de um México industrializado, a sul das fronteiras dos Estados Unidos (um “micro Japão”), não era agradável, nem seria tolerada.

Era necessário fazer algo.

E a “terapia de choque” de Paul Volcker serviu (entre outras coisas) para “sabotar” os projectos de desenvolvimento industrial do México. E coarctar estrategicamente e industrialmente a ascensão do México ao estatuto de grande potência económica.

A ideia era “assegurar” de forma absoluta que a divida externa mexicana, seria paga, e sempre paga, a taxas altíssimas. *

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No Outono de 1981, uma “corrida ” à moeda mexicana – o peso – foi feita (inventada). Artigos de imprensa nos jornais dos EUA começaram a circular afirmando que estava a existir uma fuga de capitais – feita por “sábios” homens de negócios mexicanos – que, após terem trocado os seus pesos por dólares, os estavam a fazer sair do país. Antes que a “crise” explodisse.

A ideia desta jogada jornalística/ de imprensa era “forçar” a desvalorização do peso em relação ao dólar.

Porquê?

Porque dessa forma, as companhias mexicanas e o Estado Mexicano – que tinham contraído empréstimos vultuosos em dólares – para realizar os ambiciosos projecto de investimento e industrialização do país, mas obtinham rendimento para os pagar em Pesos mexicanos, ficariam colocados numa situação caricata.

(1) A terem que pagar o serviço de divida pelos empréstimos que contraíram, em dólares, cujo valor era cada vez mais alto;

(2) enquanto que, ao mesmo tempo, o Peso, era atacado e forçado a descer o seu valor.

A 19 de Fevereiro de 1982, submetido a uma fuga de capitais intensa, o governo de Lopez Portillo teve que ceder e desvalorizou o Peso mexicano em 30 % – a ideia era tentar parar a enorme fuga de capitais, com esta desvalorização.

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Para a industria privada mexicana as consequências foram desastrosas.

Esta industria tinha pedido emprestado em dólares para financiar investimentos, mas obtinha ganhos em pesos, e entrou em falência quase da noite para o dia.

Apenas para manter as posições relativas idênticas ao que se verificava antes da desvalorização de 30% do Peso, as industrias tinham que:

ou aumentar o que vendiam em 30%

ou cortarem custos através da redução da sua força de trabalho, isto é, desempregarem pessoas.

Um dos exemplos disto era o poderoso grupo Alfa Group – Monterey, que ficou completamente endividado, só conseguindo recuperar posição em meados da década de 90. (o que quer dizer que a sua capacidade de se tornar uma empresa multinacional foi “parada”…)

Paralelamente a isto, e com o decorrer da crise, o México era agora olhado como:

(A) um país de alto risco;

(B) um país com sérios problemas para pagar dividas;

(C) o que originou que as praças financeiras europeias e americanas recusassem planos de reestruturação das dividas mexicanas, consequentemente afundando ainda mais a economia mexicana.

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A 20 de Agosto de 1982, na sede da Reserva federal, (FED) o ministro das finanças mexicano comunicou que o México estava impossibilitado de pagar a divida. Nessa altura ascendia a 82 biliões de dólares.

A 20 de Setembro de 1982, na Televisão, Lopez Portillo anunciou que a banca mexicana seria nacionalizada.

As ideias por detrás desta nacionalização seriam “parar” a confusão generalizada e parar a fuga de capitais que tinha continuado desde Fevereiro.

Lopez Portillo depois fez várias intervenções públicas afirmando que “o não pagamento da divida não era do interesse, nem de credores, nem de executados”.

E apelou a uma união de países sul americanos (Brasil e Argentina, especialmente) para que denunciassem a situação e recusassem pagar todos em conjunto uma divida, cuja estrutura da mesma era absurda e injusta.

A partir daí começou um “discurso” médio que nos conhecemos também nos dias de hoje.

Na imprensa internacional começaram a escutar-se “vozes” falando dos prejuízos que os bancos que emprestaram o dinheiro aos países credores teriam; e de como isso afectaria a economia mundial gerando uma crise, etc.

E surgiu a solução “mágica”:

Os bancos “socializaram” os seus riscos de emprestar dinheiro forçando os governos da altura a responsabilizarem-se pelas dividas (também), enquanto que os ganhos eram privatizados para esses mesmos bancos.

E após isso a casa Branca chamou Paul Volcker, e o FMI, para imporem regras ainda mais restritas para “estancar a crise”.

Cada país devedor passou a ser considerado “uma caso separado” ( para evitar que outros Lopez Portillo, fizessem discursos a apelar à união dos países devedores…e estes não pagarem).

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O FMI aparece no meio disto porque foi uma ideia americana. Os rigidos programas de ajustamento do FMI. Irving Friedman foi o autor da ideia e era um enorme advogado a que a banca comercial emprestasse a países do terceiro mundo , como se pode ler nesta “entrevista”...

Friedman foi depois “recompensado” com um lugar de topo no Citicorp, um dos bancos que tinha engendrado e beneficiado de toda esta história das taxas de juro…

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Written by dissidentex

07/01/2009 às 17:58

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