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O COMPUTADOR MAGALHÃES, A INTEL E A MICROSOFT

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O computador Magalhães é um verdadeiro achado. Até, pasme-se, já é um caso de estudo da Intel. Diz a própria Intel, claro, em 7 de Outubro do ano passado…

magalhaes-caso-de-estudo-da-intel

Nota lateral

Analise-se a frase: “…estamos a procurar incluir o “e-learning” ( ensino à distância pela Internet)…”

Como é “à distância”, e no futuro – excluirá (irá tentar-se isso, evidentemente…) – a necessidade de professores humanos, uma vez que a “distância” gerará provavelmente programas automáticos que produzirão respostas em vez dessa coisa aborrecida que é perguntar a um professor…e obter uma resposta. Seráo “ensino de consumo imediato…”

Ou, possivelmente,  gerará um professor num qualquer local a falar para 100 mil alunos, ao mesmo tempo?

Cito “computador Magalhães e como este ajuda a destruir a escola”, na seguinte parte:

“(2) Outra forma de – a médio prazo – transformar os alunos em algo pior do que já são, é através deste brinquedo, proceder à desautorização completa da figura do professor, mais ainda do que ela já está.

Um professor afirma algo, e numa página acessível pelo computador está lá dito o contrário. Ou algo que não tenha nada a ver com o assunto.

Como se defende o professor desta situação?

Vamos antes pensar ao contrário: o objectivo é – também – retirar importância ao professor enquanto pessoa e profissional.”

Ø

Escusado será dizer que qualquer ideia de pensamento reflexivo e critico sobre o que se está a aprender desaparece com o “e-learning” via Magalhães ou outra coisa qualquer do mesmo estilo.

Ø

Voltemos à notícia do Expresso, e à responsável da Intel, Lila Ibrahim. E à “graxa” e elogios que esta dá ao pseudo projecto português.

A dada altura a senhora declara isto:

“…Lila Ibrahim considera que o mais importante é o projecto global de modernização do ensino básico (e-escolinhas), incluindo as aplicações de software e os conteúdos nacionais (por exemplo, a Diciopédia). Afinal, aquilo que torna o Magalhães diferente dos outros projectos ClassMate PC existentes no mundo.”

Como se fosse uma coisa “extraordinária a inclusão da Diciopédia no projecto – um produto, salvo erro, da Porto editora... uma entidade que tem extensos contactos com o Ministério da educação desde há anos…

O problema é que o Software é pago e bem pago; gerador de “imensos interesses”, quando poderia ser o  Estado Português a criar ou mandar criar software “livre” para isto, de raiz; ou aproveitando e melhorando o existente.

Ø

Lila Ibrahim que é a directora da Intel para os mercados emergentes, preparou-se bem. Sabedora que a psique nacional portuguesa carece de estima, preparou um discurso onde se diziam umas coisas específicas para lamber o ego aos portugueses e estes ficarem (como sempre ficam) muito satisfeitos por uma estrangeira tão importante os elogiar. E cita-se:

“Visito 20 países por ano, vejo muito tecnologia a ser usada no desenvolvimento económico e social, mas não encontrei nenhum projecto tão ambicioso e bem estruturado”

Aqui temos um argumento de autoridade e conhecimento. Visita 20 países e não viu nada como o que está a ser feito em Portugal com o Magalhães.

Importa dizer que:

Mesmo que tivesse visto não o diria. Uma das frases de propaganda deste produto é o facto de ser um projecto “único” ( quantas vezes já escutamos o senhor José Sócrates a dizer elogios ao Magalhães e ao seu governo utilizando este argumento…) por isso se Lila Ibrahim está a vender um produto, terá forçosamente que salientar as características únicas do mesmo, precisamente para aumentar o desejo de quem compra por esse produto…

Isto é o “básico” da publicidade…

E com o Bónus adicional que o produto não é único, mas sim uma adaptação do Intel Class Mate PC que a empresa chamada Intel fez – a criação de um Notebook de baixo custo para países subdesenvolvidos…

Na continuação dos discursos e dos elogios Lila Ibrahim diz ainda que:

“O Magalhães pode transformar-se no pólo de atracção para o desenvolvimento de “software” e conteúdos e até da produção de periféricos (por exemplo, o microscópio). Isto é uma oportunidade única, porque Portugal está a transformar-se num caso de estudo mundial”.

Repare-se: “pode” transformar-se e não “irá transformar-se”.

Pode é uma hipótese, um futuro hipotético qualquer. Nada aqui está assegurado.

Nota hilariante lateral: a produção de microscópios (periféricos?!?!) por causa do Magalhães é apenas chamar-nos imbecis…

Contudo:

O desenvolvimento de software e conteúdos estava assegurado, se isso fosse deixado ao cuidado desta empresa, que já produz software livre e bem desenvolvido desde pelo menos 2001.(Ou de outras que, concerteza, surgiriam…)

O problema é que esta empresa é (1) exclusivamente portuguesa e (2) trabalha software, usando um  (3) sistema operativo de que a Intel não gosta… e como não gosta conseguiu persuadir o governo português (com um dedo de ajuda da Microsoft, suponho)  a fazer com que o software instalado no Computador  Magalhães arranque em dual boot (duplo arranque) como se pode ver exemplificando,  na imagem abaixo, um computador organizado segundo esta lógica, embora neste caso usando um Linux Ubuntu, instalado ao mesmo tempo com um Windows Xp.

dual-boot

Isto é, o utilizador ao ligar o computador escolhe qual o sistema operativo a utilizar.

Conhecedores do perigo de deixarem os Magalhães virem só de raiz equipados com o “Linux Caixa mágica”, a Intel (e a Microsoft) fez “pressão” para (aqui utilizou o argumento da liberdade de escolha do utilizador…) para que viessem em dual boot instalados ambos os sistemas operativos.

O utilizador que apenas conhece Windows, não muda para Linux e assim se perpetua o ciclo.

A coisa é tanto mais grave quando estas cópias de Windows são pagas principescamente. Mais abaixo irá ver-se porquê.

Ø

Aqui vamos de viagem pela Blogosfera. Remeto para este post do blog bit.ate . org /José Rocha. E transcrevo:

...e dos milhões que uma “plataforma” candidata anda a mamar mesmo de forma ilegal, mais uma estrondosa evidência de como os nossos impostos andam a ser muito mal geridos:
– Direcção-Geral de Infra-Estruturas e Equipamentos, acaba de oferecer cerca de 10 milhões de € do erário público à M$ para, pasme-se, “Renovação do Licenciamento de Software – Microsoft“!

É fartar, vilanagem!

Ø

E já agora, mostre-se uma pequena imagem por mim retirada a partir da ligação do Bit.ate sobre o dinheiro gasto em licenças:

software-microsoft-comprado-pela-administracao

O primeiro “valor que ali está significa que DEZ (10) MILHÕES DE EUROS foram pagos à Microsoft em licenças de utilização de software.Apenas só no primeiro valor…eapenas só durante um ano. No ano a seguir continua-se a pagar licenças e assim sucessivamente…

Ø

Quais são os valores pagos pelo Estado Português para vir lá nos computadores Magalhães o software da Microsoft?

– Aparentemente nenhuns porque  “aquilo” parece ter sido instalado de borla.

Mas os custos estão noutro lado. O não desenvolvimento de casas de software portuguesas na área do Linux, que desenvolvessem software é uma realidade. É assim que se travam concorrentes…e se asfixiam projectos autónomos de países em vias de desenvolvimento…

Ø

Voltando à directora da Intel; como boa vendedora, Lila Ibrahim, oferece -também – uma promoção.

A promoção tem a forma de uma “cenoura”, um incentivo ao apoio à Intel e ao Magalhães e por inerência ao negócio todo que está por detrás disto. E cite-se:

“…Por isso, Lila Ibrahim espera que dentro de um ano o sector português de software já tenha criado um número significativo de aplicações e conteúdos, porque “o mercado de 500 mil Magalhães já é relevante”…”

O “mercado” é relevante para a Intel e para a Microsoft, uma aliada de longa data da Intel. Só.

Para os pais, para os consumidores, para os cidadãos, para as empresas, que pagam o orçamento de Estado é ruinoso este negócio.

Além disso a senhora “espera” que. Mais uma vez uma “frase hipotética” e vaga…

Ø

E porque é que tudo isto é dito?

Porque existiu em Portugal uma recente polémica acerca de um erro no Magalhães, (apresentada como um erro no Magalhães…) relacionado com um software chamado Gcompris e os erros de escrita do produto.

E repare-se nesta notícia (Jornal Destak) em que se vai despachar Magalhães para Macau. A coisa é tanto mais estranha quando ainda existem pessoas em lista de espera para receberem Magalhães, em Portugal,  mas enfim…

Observe-se e veja-se na imagem abaixo, retidado de uma notícia no Jornal Destak -11 -03 -2009,  como o responsável da JP Sá Couto faz lobby a favor da Microsoft:

destak-caixa-magica-linuxPessoalmente, não acredito – nem sequer por um instante – que um responsável por uma empresa de informática que monta computadores, não saiba que não existe nenhuma empresa chamada Linux, a preparar um programa chamado Caixa Mágica.

Este senhor está dentro do meio informático, e saberá o mínimo dos mínimos; saberá que existe uma empresa chamada caixa Mágica, que se dedica a produzir sistemas operativos em sistemas Linux.

E que essa empresa fabricou um sistema Linux chamado Caixa Mágica.

Ou é o responsável a dar uma “facada” ou é o jornalista que fez a notícia que não estava a perceber nada do que estava noticiar.

Qualquer das duas hipóteses é péssima.

Pelo meio temos mais uma vez a mistificação das coisas.

Esta hipotética “internacionalização” do Magalhães é muito boa, mas para a JP Sá Couto. Como aliás se vê em tudo, isto, na parte em que o responsável pela maquina, diz que nada tem a ver com os conteudos.

São os conteúdos e a forma como são feitos que gerarão dinheiro e rendimentos futuros e não a montagem do produto. Tudo o resto continua a ser o que era: licenças de software principescas a serem pagas à Microsoft, bloqueio das casas de software portugueses, e transferência de dinheiro para os bolsos de algumas pessoas.

Pelo meio, evidentemente, ataca-se o modelo de negócio – MUITO MAIS BARATO E DE MELHOR RETORNO PARA PORTUGAL – criado pela Caixa Mágica (e outras empresas que surgiriam).

Quem deveria “parar” isto seria oa ctual governo; o que vemos é o actual governo a incentivar isto.

Retire as conclusões quem quiser.


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Written by dissidentex

12/03/2009 às 15:20

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