DISSIDENTE-X

CRISE FINANCEIRA AMERICANA – CLINTON, RUBIN, SUMMERS, GEITHNER, OBAMA E A DESREGULAMENTAÇÃO.

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A lista completa de artigos relacionados com este assunto pode ser encontrada na página da barra lateral ” Z – Crise financeira norte americana”

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Em 1933, nos EUA, foi feita uma lei que proibia os bancos comerciais de terem actividades   definidas como sendo actividades próprias e atribuídas à banca de investimento.

Chamava-se “Glass – Steagal Act”.

O objectivo desta lei era o de evitar que os bancos comerciais executassem ou participassem directamente em actividades de sectores não financeiros estritos (por exemplo terem (1) participações através de acções no capital social de outras empresas ou (2) actividades mais arriscadas como participações directas em mercados de futuros).

Visava-se separar actividades. Por negócios e área respectiva, para evitar problemas de “contágio financeiro” (falências) entre instituições mal geridas com instituições bem geridas, ou entre produtos financeiros diferentes,  por exemplo.

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Em 1999, a 12 de Novembro, esta separação que existia, para proteger a economia e as próprias instituições foi parcialmente repelida.

Foi feita uma lei chamada Gramm-Leach-Biley Act, que revogou parcialmente muitos  artigos da lei de 1933.

Bancos especializados na emissão de obrigações, de futuros, de derivados financeiros, de acções, etc, passavam a poder concorrer com bancos especializados na concessão de empréstimos para a habitação ou para o consumo, e passavam também a poder concorrer com companhias de seguros; e estas com estes.

Todos contra todos era o mantra neoliberal que estava por detrás desta “reforma” da lei de 1933.

Em termos práticos, o que isto significava era que ANTES de 1999, não seria possível uma companhia de seguros juntar-se através de uma fusão com um banco comercial, por exemplo.

Tal sucedeu devido à pratica de lobbying por parte dos interessados, uma vez que em 1994/95 existiu uma “fusão” entre o Citibank (actualmente conhecido por Citigroup e que vemos a vender cartões de crédito em supermercados portugueses…) e o Travellers Group, uma companhia de seguros e produtos financeiros pré pagos, que fazia por exemplo os Travellers cheques…fusão essa que seria considerada “ilegal” se não existisse a “alteração” da lei Glass Steagall

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Politicamente foi “aquilo” que passa por ser a “esquerda” política norte americana que possibilitou a revogação da Lei Steagall de 1933, substituindo-a pela versão actual. Tudo isto aconteceu durante a administração Clinton.

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Agora mudemos de “cenário” exemplificativo e façamos uma pequena “derivação” através da qual; importa explicar qual era o “ambiente” que existia no inicio dos anos 90.

Durante esses anos, surgiram teorias económicas baseadas nas “teorias dos  jogos”, segundo as quais, todos os elementos de uma sociedade funcionariam apenas baseados no seu interesse próprio, e não na ideia de “um bem comum a atingir” . Ver também “Teoria dos jogos e os seus péssimos sub derivados”.

Caso se acredite nisto, de acordo com as teorias do “interesse próprio”; todos os indivíduos querem maximizar o seu prazer pessoal e rejeitam “um bem comum a atingir”.

Mas aqui surge um problema.

Como é impossível conseguir conjugar todos os desejos de múltiplos indivíduos num mundo assim (chama-se a isto a “teoria da impossibilidade”) então é necessário procurar uma “solução”que “ordene isto”.

(1) A “solução (convenientemente encontrada) que ordena isto” foi apresentada como sendo o “mercado livre”.

(2) Não a política (as acções dos políticos quando governam).

(3) Nem a democracia (um sistema que “pode obstruir” pela sua própria natureza e por lei a acção do mercado”)

A teoria da impossibilidade, também diz que os indivíduos procuram maximizar o seu próprio prazer, quando estão a actuar no mercado,  mas que não o fazem numa situação política – tal como é o caso de uma “votação”.

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Esta é uma visão – baseada em teorias dos jogos – que apela ao pior das pessoas;  uma visão muito limitada do que são as pessoas e do que é a política.

Esta visão leva ao seguinte raciocínio: que (A) os indivíduos são apenas processadores de informação, e que (B) o mercado é um processador de informação melhor do que os indivíduos.

Consequentemente: a votação e/ou a democracia, são processadores de informação fracos. (Ineficientes)

É com base neste “simplismo” que as pessoas na sociedade são vistas – de acordo com estas teorias.

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walter-wrsiton-capa-o-crespuculo-da-soberaniaNos anos 90 este tipo de argumentação totalitária e anti democrática dominou quem trabalhava nos mercados, e dominou quem os tinha que gerir.

Exemplo: o livro (campeão de vendas) de 1992 de Walter Wriston, chefe do Citigroup, chamado “o Crepúsculo da Soberania” onde ele previu ( estas teorias tem sempre profetas auto designados ou deificados…) uma nova forma de democracia chamada “democracia dos mercados”.

Tese central: o mercado tomaria a responsabilidade por gerir a maior parte da sociedade, em vez dos políticos (em vez da democracia).

Consequência: O mercado seria a única e verdadeira maquina eleitoral (em vez da votação feita pelas pessoas).

Consequentemente, se acreditarmos nestas “teorias“: O mercado teria que ser deixado “à vontade” livre da influencia de políticos e de votos, passando ser considerado como representando a verdadeira vontade da população.

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Em 1992 Clinton ganhava as eleições – através de votação, não de mercado.  Clinton prometeu que faria “política” e que usaria o poder político de que dispunha para fazer a América sair da recessão económica.

Umas 3 semanas antes da tomada de posse, Robert Rubin, chefe da Lehman Brothers, e Alan Greenspan, chefe da Reserva Federal, tiveram uma conversa com Clinton. Rubin era o novo conselheiro económico de Clinton para os 4 anos seguintes…

Ambos trouxeram uma mensagem (totalmente manipulada) que foi entregue a Clinton, relativamente às ideias peregrinas de “fazer política de Clinton”.

Que se resumia ao seguinte: os planos políticos de Clinton eram impossíveis.

(1) Que tinham que existir cortes governamentais na despesa.

(2) Que intervenções políticas do “Estado” não seriam possíveis.

(3) Que não existia alternativa.

(4) Que se Clinton quisesse endividar-se para aplicar os seus programas sociais, isso geraria inflação, e mais recessão.

Rubin certificou-se disso, durante os 4 anos seguintes, em que permaneceu em funções.

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Demos um salto no tempo e cheguemos ao ano 2000.

No ano de 1999, um senhor chamado Larry Summers, foi promovido. O seu chefe, Robert Rubin, saiu do governo norte americano (em 2000) para ser Vice Presidente do Citigroup (provavelmente uma recompensa por serviços prestados; isto é, pela “ajuda na revogação da Lei Steagall Act; a tal que impediria a fusão do Citigroup com o Travellers Group…) (o mesmo Citigroup de onde tinha saido o livro de Walter Wriston…já citado acima…)

Rubin tinha trabalhado durante 4 anos como secretário do Tesouro do governo de Bill Clinton; quando deixou de ser necessário lá estar, uma vez que o favor necessário estava feito, saiu, deixando Larry Summers no seu lugar.

Summers querendo deixar a sua marca, foi ainda mais longe que Robert Rubin. Ao que parece, convenceu o Presidente Clinton, para que este aceitasse aceitar uma série de propostas de lei do Partido Republicano (os “malandros da direita…).

Apoiou a criação e existência de uma nova lei que tinha o nome de “Commodity Futures Act of modernisation 2000”, uma lei que queria alterar a forma como certos produtos  a serem vendidos nos mercados de futuros (acções ou outros) seriam classificados ( ou não) como tal.

Também fazia o contrário: que certos produtos a serem vendidos no mercado bancário, embora tendo características de acções ou produtos parecidos, passassem a ser classificados como “não o sendo”.

Objectivo: transferir o “risco” de quem vende para quem compra, mas parecendo não o estar a fazer.

( Nota: os actuais Clientes do BPN, em Portugal, que estão a queixar-se em tribunal , queixam-se precisamente por isto. Certos produtos que adquiriram, convencidos que eram produtos com características de depósitos a prazo, não o eram afinal, mas sim produtos que tinham características de Credit default swaps – ver mais adiante… * )

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enrononlinescreenEsta lei criou (ajudou a criar), por exemplo, os problemas na Enron, que já foram parcialmente tratados em “Crise Financeira americana – o prévio micro precedente da Enron”, especificamente relacionados com o negócio da Enron Online – uma “habilidade” financeira – contabilística criada para “vender energia eléctrica” pela Internet.

Mas vender energia – também – como se fosse um  mercado de futuros.

O consumidor comprava “agora” energia,  mas só a receberia no futuro, pagando o preço “agora”.

A “lei” foi também “criada” devido ao lobby da Enron, que  a queria, precisamente para poder criar a Enron Online.

Passado um ano e pouco a Enron foi a falência.

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Mas o que é que interessa a questão da Commodity Futures Act of Modernisation 2000?

Interessa porque esta lei visava anular as acções da agência do governo norte americano responsável pela fiscalização de produtos financeiros. (o equivalente à nossa portuguesa CMVM…) e que se chama Commodity Futures Trading Comission.

Esta lei que anulava as acções da CFTC, passava a permitir que produtos financeiros derivados chamados * “Credit default swaps” passassem a ser geridos, emitidos e transaccionados sem que existisse qualquer (1) regulamentação governamental ou (2) fiscalização a controlá-los.

Os “Credit default swaps” são derivados, produtos derivados do negócio principal e que foram segmentados em muitas formas.

Objectivo: diluir o mais possível o risco de incumprimento de um contrato.

Uma parte (o comprador) paga um prémio extra (um preço a mais) mas pode receber em troca uma soma de dinheiro se algo acontecer e que seja previsto neste tipo de contratos.

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Este tipo de manobras – abrir as portas para que estes instrumentos financeiros por um lado (1) deixassem de existir restrições sobre quem os vendia e por outro lado (2) deixassem de existir fiscalizações e controlos sobre o que era vendido possibilitaram que “bolhas de contratos” com riscos de crédito tremendos associados florescessem por todo o lado.

O risco era “diluído” em milhares de produtos e serviços destes, mas todos ligados.

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E saímos de Summers, Rubin, Clinton, Credit default swaps para chegar a Geithner.

Quando Larry Summers era o secretário de Estado do Tesouro, nos anos Clinton,(1992-2000) tinha um ajudante, um senhor chamado Tim Geithner.

Actualmente Tim Geithner é o secretário de Estado do tesouro (o cargo que durante os anos Clinton tinha sido ocupado, respectivamente por Robert Rubin e por Lawrence Summers) e é o responsável pelo “novo plano” de reestruturação da banca norte americana.

Larry Summers, neste momento é o chefe conselheiro económico de Obama…

O novo plano – feito por um herdeiro dos anteriores erros propositados – que geraram o que geraram tem como objectivo “canalizar” dinheiro dos consumidores e outros investidores privados para um determinado grupo de bancos”.

Não existe qualquer objectivo em alterar o modelo de desenvolvimento inserindo dinheiro no sistema que leve a que o crédito possa ser de novo facultado a empresas e particulares.

Antes visa meter dinheiro nas grandes firmas de Wall Street, não exigindo a estas que exista qualquer alteração na forma como fazem negócios; antes poderão continuar a fazê-lo como até aqui, utilizando as mesmas leis que levaram ao estado financeiro em que isto está.

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