DISSIDENTE-X

MUSSOLINI E A ITÁLIA FASCISTA

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capa-mussolini-e-a-italia-fascista-m-blinkhornNa Inglaterra, uma colecção de pequenos livros concebida para apoiar o ensino secundário/pré universitário, serviu de mote à editora Gradiva, para os publicar em edição portuguesa, com o nome de “Panfletos Gradiva”.

O número 3 é dedicado ao fascismo italiano e a Mussolini. Um pequeno livro com 94 páginas, fácil de ler e fornecido com uma já extensa referência bibliográfica, sob vários ângulos de análise, dedicada ao fascismo italiano.

Ø

O livro pretende ser um guia indicativo  e explicativo do que era e como foi a ascensão do fascismo italiano, explicando os seus antecedentes, historicamente e como se chegou lá.

É apresentado um índice cronológico e mapas. Como se explica na página 16:

“…O que foi o fascismo? Como e porque emergiu e conquistou o poder em Itália? Como e com que consequências foi exercido esse poder?…

e mais adiante na mesma página explica-se que :

…”o fascismo só pode prosperar num meio socioeconómico muito especifico, da mesma forma que, para desafiar o poder, precisou de um vazio político no seio do qual se pudesse movimentar.”

Na página 17, fala-se do período italiano chamado a “Itália liberal” entre 1861-1915.

E diz-se que:

... O “Risorgimento”…. “legou à Itália um complexa herança, da qual nos importa aqui salientar dois aspectos: gerou entre os italianos politicamente conscientes expectativas exageradas quanto às perspectivas imediatas de poder e prosperidade para a Itália; e, ao forjar uma nova nação sem atrair ou satisfazer a massa da população  produziu um sistema sociopolítico minado por fraquezas potenciais.

Nota lateral: o Risorgimento pode ser – com as devidas proporções e reservas  “adaptadas” – comparado ao que se passou em Portugal aquando da implementação da 1ªRepública, e ao que se passou no alarido pseudo revolucionário que dá pelo nome de 25 de Abril de 1974…

Ainda na página 17:

…A consciência nacional era desigual e extremamente fraca em muitas regiões de província e da Itália rural; persistiam lealdades a dinastias destronadas e  fronteiras históricas, ao mesmo tempo que, para milhões de  camponeses, a única realidade era a administração local, sendo qualquer autoridade exterior considerada como um intruso potencialmente  explorador.

Nota lateral: o actual poder autárquico português está quase a este nível descrito, e a situação em Portugal – actualmente – apresenta semelhanças notáveis… nada disto é novo, já se passou historicamente e no entanto continuamos a ver serem apresentadas as mesmas soluções que eram apresentadas historicamente há 80 anos na Europa, com os resultados que se conhecem…

Estes parâmetros escritos por Martin Blinkhorn definem o “ambiente italiano” naquela época.

Martin Blinkhorn, o autor do livro depois explica como era o “liberalismo” italiano, como por exemplo, com o direito de voto que apenas consagrava esse direito a um milhão de italianos, de entre os 32 milhões de população na época, de como os partidos eleitos faziam sindicatos de votos (semelhanças com Portugal do século 19 são completas…e não só com o Portugal do século 19) de como esta política liberal definia uma sociedade (Página 19) de:

“…a consequência disto era que o Parlamento representava a própria classe política e todos aqueles que estivessem ligados aos seus membros  por laços familiares , locais e económicos, formando redes hoje em dia conhecidas pela designação de “clientelas”…

“…A política liberal reflectia com bastante exactidão  uma sociedade de forte predominância rural, caracterizada pelas estruturas tradicionais da agricultura, por um alto índice de analfabetismo e por uma fraca consciência política…”

Nota lateral: a ultima frase descreve o Portugal actual, e descreve que – apesar de todos nós nos andarmos a auto enganar ; que Portugal está transformado numa sociedade liberal (no pior sentido do que o termo significa), com poucos ou nenhuns direitos reais para quase toda a gente, índices de analfabetismo que se chamam índices de iliteracia (nos séculos 20/21, as palavras mudam) e uma consciência política de grau zero, que se resume aos patéticos apelos ao voto de 4 em 4 anos em que somos convencidos de que isso (apenas só isso) é que é “democracia”… .

Por causa desta situação e de várias outras adjacentes, pressões sobre este sistema italiano do século 19/20 começaram a emergir, quer no sentido de se exigir ter mais direitos de voto, quer no sentido de se alterar a situação e estender o leque de direitos e de participação cívica e política à generalidade da sociedade.

Consequência:

surgiram movimentos comunistas, socialistas, anarquistas, que por sua vez originaram contra movimentações católicas e de outras forças mais reaccionárias.

A coisa “liberal” aguentou-se enquanto a (1) economia funcionou e as (2) taxas de crescimento eram altas e enquanto (3) “causas nacionalistas” – como anexar ou fazer regressar à Itália continental territórios (em posse da Áustria) onde cidadãos italianos viviam, distraíam as atenções.

Os políticos liberais sentindo o perigo, optaram por uma “troca”. Derivada de uma lógica política perversa.

Fecharam os olhos aos desejos dos patriotas do Risorgimento, relacionados com o “voltar para Itália” dos territórios naquela época na posse dos austríacos, percebendo que esse “fechar de olhos” lhes conseguiria fazer ter/manter/aumentar um império além mar ( anexar Etiópia e Líbia) ou pelo menos conseguir ter esse império sem ser contestado por outras potências com interesses (França e especialmente  Inglaterra…)

Mas o preço viria a ser pago a seguir: com o aumento das forças de contestação, dentro da Itália e dentro do sistema político.

Ø

A partir da década de 1890, e com o decorrer dos anos, outros problemas avizinhavam-se no horizonte. Como explica Blinkhorn, na página 22:

“…Por volta de 1914 emergira no norte de Itália, uma classe poderosa de banqueiros e industriais estreitamente ligados entre si  e a um estado proteccionista. A par da nova classe operária”…”começava a emergir uma  outra “nova” classe urbana: o desenvolvimento do sistema de ensino  nas cidades  italianas  em rápido crescimento ia produzindo uma pequena burguesia  ávida de ocupar lugares  na administração, burocracia e serviços e preocupada em manter as suas distâncias em relação ao proletariado…”

Nota lateral: o que é Portugal actualmente, pelo menos na parte dos banqueiros senão isto “…uma classe poderosa de banqueiros e industriais estreitamente ligados entre si  e a um estado proteccionista…” retirados evidentemente os Industriais e o Estado proteccionista, mas este ainda e só no sentido em que só protege banqueiros…

Ø

E assim chegamos ao efeito de toda esta política perversa, de não satisfação das aspirações de várias classes profissionais e comerciais, de não satisfação da sociedade.

E o efeito foi a criação, vinda de dentro das fileiras deste sistema absurdo e que não satisfazia ninguém,de um homem “providencial” – Mussolini.

Mussolini tinha sido membro do partido socialista italiano, antes de ter saído farto da política de catavento que ali existia.

Durante os anos 10 e 20 do século (depois intensificado com o exemplo externo da Revolução russa de 1917) exigia-se uma “revolução”, mas percebeu-se quer em sindicalistas, quer no PSI italiano, que a culpa não seria do (1) capitalismo italiano, mas sim do (2) poder politico clientelar.

Que era isso, primariamente, segundo explica Martin Blinkhorn, que era preciso mudar.

Nota lateral: em Portugal temos, infelizmente, os dois problemas.

Ø

Após a guerra – primeira guerra mundial, em que a Itália participou, isso alterou a  sociedade, e criou a exigência de satisfação de expectativas criadas em milhões de ex combatentes,aquando do seu regresso após guerra.

Expectativas essas que foram defraudadas.

Imediatamente, surgiram dois problemas: (1) agitação social (2) o ressentimento nacionalista.

A agitação social provocou o medo; poderia estar iminente uma revolução bolchevique? (comunista)

Os grandes proprietários de terras interpretaram a “agitação” como o prenuncio de tal, e lançaram um contra ataque.

Usaram a lei, e deixaram de aceitar o principio da imparcialidade praticado pelos governos liberais italianos nas relações de trabalho, passando a exigir a relação tripartida entre capital, Estado e trabalho.

Isto foi usado como uma forma de “anti socialismo”, no sentido em que atacava o governo socialista italiano por esta época, que ao mesmo tempo que proclamava socialismo, mantinha leis de trabalho absolutamente liberais.

Este anti socialismo era também apoiado pelos pobres italianos que estavam descontentes com os monopólios nas oportunidades de emprego nas regiões pelo partido socialista italiano controladas.

O ressentimento nacionalista era alimentado, por exemplo, pelos ataques verbais que eram feitos contra os veteranos  de guerra.

“… o termo fascio,que já fora um exclusivo da esquerda, era agora mais comum à direita., para cujos devotos  com o fasces, os feixes de varas que eram a insígnia da magistratura da Roma Italiana, e com a noção de “força na união”. (Página 37)

Nota: o fascismo urbano e o fascismo rural coexistiam. Mas tinham lógicas diferentes.

Nas eleições de Novembro de 1919, o fascismo teve péssimos resultados ao concorrer, apenas conseguiu obter 5000 votos  em Milão num universo eleitoral de 275000.

Grande parte do esquerdistas que aderiram ao fascismo afastaram-se.

Mussolini que já nessa altura emergia e tinha-se afastado das suas raízes socialistas porém ,”manteve-se firma com o apoio de alguns milaneses abastados que pressentiam o potencial anti socialista do fascismo... (página 37).

mussolini-em-milao-9-8-44

O resto já sabemos.

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Written by dissidentex

23/04/2009 às 12:41

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