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EDGAR MORIN: SOLIDARIEDADE E RESPONSABILIDADE

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Edgar Morin, o filósofo francês esteve em Lisboa para fazer uma conferência – no dia 22 de Maio de 2009.

Fonte da notícia Jornal Público de 17 – 05 – 2009.

EDGAR MORIN 1 - RTP - 22 MAIO 2009

As razões de Morin para acabar com a hiperespecialização são práticas e políticas.

(1) São práticas porque visam lançar ideias que tem como objectivo, acabar com situações em que pessoas, devido ao facto de se terem hiperespecializado numa dada área profissional; quando perdem um emprego ou uma posição que tenham, passem imediatamente a ter enormes dificuldades em mudar de área profissional ou em arranjar novo emprego.

Não são só questões de excesso de oferta de empregados para uma dada área, mas sim os problemas relacionados com esta hiper especialização.

Isto no mundo actual – um mundo complexo –  é particularmente gritante especialmente em novas profissões ou profissões de colarinho branco.

Por exemplo, um programador de computadores especializado numa dada linguagem de programação. Devido a alinhamentos estratégicos ou comerciais, muitas vezes fúteis, uma grande empresa decide “criar” uma nova linguagem de programação própria e incentiva o uso da mesma e dos correspondentes programadores a serem criados por um sistema de ensino “hiperespecializado” que agora muda radicalmente de “nova especialização”.

Antigas pessoas especializadas na antiga linguagem são assim convidados, de acordo com esta lógica, a saírem da posição que ocupam.

E a terem dificuldades em reentrar no novo “jogo” que são convidados a jogar. Não existiram eleições onde lhes foi perguntado se concordam com este tipo de organização económica/social.

Argumentar que isto é “evolução” e que deve ser aceite é fazer batota argumentativa. É o dinheiro de todos os contribuintes que serve para pagar estas “formações” sistemáticas de novos hiperespecializados.

(2) São políticas porque visam atacar um conceito de sociedade democrática – a sua não existência que deriva do acima descrito.

Um “técnico” especializado numa dada área é muito menos “aberto” a contestar a inovação, é muito menos flexível em dizer ao seu empregador que algo está errado (a dizer que não), é muito menos aberto a mudar de emprego, caso não esteja satisfeito, é muito menos “democrático” como cidadão. Uma pessoa nestas condições – acaso viva e esteja bem – apenas se preocupa só com a sua vidinha e com o seu estado profissional.

As “coisas” da Res pública”deixam de o interessar; como cidadão é alguém artificialmente “amputado” da participação política na sociedade precisamente porque a sua formação técnica o impele a só se “interessar” por coisas ligadas aos seus próprios interesses profissionais e a não prestar atenção ao que se passa noutras áreas da sociedade. (os seus interesses democráticos de participação foram “segmentados” para serem só exercidos na sua própria área…e mesmo assim “pouco”)

Esta “forma” que foi encontrada por quem tem “poder”  de condicionar o resto da sociedade é muito engenhosa. (e péssima para todos) Na pratica chama-se “dividir para reinar”.

E em termos de exemplos práticos pode-se ver isso em Portugal quando várias classes profissionais desdenham umas das outras e não prestam qualquer atenção aos problemas umas das outras. Antes pelo contrário existe “animosidade” entre profissões.

Estão demasiado “especializadas” e metidas para dentro, para conseguirem ver que as alterações que lhes tentam ser feitas, também irão afectar outras classes profissionais de forma negativa. (Também irão afectar a sociedade.)

É um “jogo” em que, no fim, todos perdem, devido à divisão derivada da especialização (feita durante décadas) em que as pessoas apenas vêem a Árvore e nunca a Floresta.

E como tal é um jogo que ataca o próprio conceito de democracia e de justiça.

EDGAR MORIN 2 - RTP - 22 MAIO 2009

(1) Uma das lógicas correctas de Morin, visa precisamente alertar para a questão do saber e do conhecimento.

Porque é que em escolas e Universidades  – sítios supostamente onde se ensina “saber e conhecimento” às pessoas não existem áreas de estudos dedicadas ao “saber”?

Mais uma vez a questão é política.

(2) Se existissem áreas de estudos dedicadas ao “saber” e à sua promoção ou perguntas escolares querendo dizer “o que significa ser humano?” isso levaria a que inúmeras pessoas – gerações de alunos – começassem progressivamente a questionar o modelo social e económico em que vivemos.

Convenientemente estas áreas foram afastadas das escolas. (um exemplo recente em Portugal, foi a eliminação da obrigação de se fazerem exames de acesso ao ensino superior, tendo como base a disciplina de filosofia)

Os políticos e os interesses por detrás dos políticos – por todo o mundo – viram o perigo que isto significa. Um formação massiva de cidadãos com noções claras da vida em conjunto, em sociedade, e que saberiam pensar nos seus melhores interesses.

Isso excluiria, logo à partida, a necessidade da existência de tantos cargos públicos e de tantos cargos políticos: em suma, de tantos políticos e de tanto ruído.

E impõe, um maior nivelamento social/intelectual entre cidadãos e políticos (e quem os controla).

Precisamente para “evitar” esse aumento da liberdade e da democracia e aumentar o controlo da situação por políticos (e pelos interesses por detrás deles) que todos os cursos são “desprovidos de questões relacionados com o saber e o conhecimento”. São cada vez mais “apenas técnicos”.

E orientados para “a formação de recursos humanos” para usar o jargão.

É por isso que a palavra ” ensino” tem vindo a ser progressivamente substituída pela palavra formação.

Ambas não significam a mesma coisa.

Ø

Cita-se em defesa do que acima foi escrito o seguinte:

“Se pudesse existir um progresso de base no século XXI, seria que os homens e mulheres não fossem mais os brinquedos inconscientes não só das suas ideias mas das suas próprias mentiras. É um dever capital da educação armar cada um para o combate vital pela lucidez.”

Edgar Morin, Os Sete Saberes para a Educação do Futuro, (1999), 2002, p. 43

E acrescento a partir deste mesmo blog:

“…Isso explica que pessoas exímias numa determinada área do saber, tenham enormes dificuldades em produzir conteúdos originais, deduções fora do padrão académico-tipo a que foram habituados e tenham grandes dificuldades no conhecimento das relações humanas, revelando sérias dificuldades de relacionamento interpessoal…”

E ainda:

…a educação superior mais não é que um conjunto importante de ferramentas que permitiam atingir outro patamar de conhecimento, e que a maioria das pessoas achava que era um fim em si, quando é apenas um ponto para subir a um outro patamar que envolve mais que o conhecimento cientifico.”

Ø

Cita-se uma micro entrevista, transcrita por mim, que foi passada na RTP2 , na sexta feira dia 22, em que Márcia Rodrigues entrevista Edgar Morin.

Ø

Márcia Rodrigues : qual é que é o caminho?

Edgar Morin: O caminho seria uma multiplicidade de reformas que possam chegar a todos o0s campos, económicos, evidentemente, reformas sociais, reformas do conhecimento.

E porque do conhecimento?

…do conhecimento escolar, escolástico, compartimentado, em pedaços, sem comunicação que impede de perceber e nos não podemos…

Márcia Rodrigues: sem uma visão global a humanidade não entende que a humanidade está ameaçada por grandes ameaças, que segundo ele fazem muita falta nos dia de hoje…

Edgar Morin: solidariedade e responsabilidade. o mundo actual, a nossa civilização; o desenvolvimento do individualismo, (1) que teve traços muito positivos na autonomia (2) mas gerou o desenvolvimento do egocentrismo e a desintegração das antigas solidariedades.

Vídeo AQUI

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Written by dissidentex

30/05/2009 às 11:05

Publicado em EDGAR MORIN, PERSPECTIVAS

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