DISSIDENTE-X

A MITOLOGIA IDIOTA DO EMPRENDEDORISMO

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Nas sociedades anglo saxónicas a ganancia levada aos extremos e o individualismo exacerbado são cultivadas de forma intensa.

Ao serem cultivadas de forma intensa, dai surge a necessidade de serem “marketizadas” e vendidas, para se chegar ao estádio seguinte: a exportação da mesmas como filosofia política a ser usada noutros países e povos.

E um dos produtos derivados que daí emerge é o mito do empreendedorismo. A ideia de que todos podem ser empresários em nome individual, todos podem ser patrões.

Como a lógica (perversa) pressupõe que todos podem ser patrões, isso leva a que a proposição varie nos termos.

Deixa de ser só “todos podem” e passa a ser também “todos devem” ser patrões.

E a partir desta evolução criativa do “poder para o dever” surge uma imposição e uma obrigação psicológica.

Que diz que todos devem ser patrões e “empreender” esse nobre acto de serem patrões, empresários, empreendedores.

Esta “exportação filosófica” desta ideologia tem tanto de estúpido como de perverso e de potencialmente destruidor das  sociedades; especialmente das mais pequenas ou das menos preparadas como é o caso de Portugal.

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E assim têm sido todos os portugueses recentemente convencidos com o uso de tecnologias de propaganda perigosas e recorrendo às maiores e variadas formas de pressão directa ou indirecta que “todos devem ser patrões” e que é isso é que dará dinamismo à uma sociedade – a esta sociedade decadente e corrupta.

Estas teorias esquecem-se que existem pessoas que (1) não querem ser patrões e gostam de trabalhar por conta de outrém (2) não tem feitio ou inclinação para tal (3) não tem preparação técnica de base nenhuma para tal (4) tem condicionamentos familiares que impedem de facto que tal aconteça ( filhos, esposos, idosos familiares a cargo, doenças que impossibilitam tal,etc) (5) não gostam de trabalhar para si próprios.

E que é impossível, numa sociedade de 10 milhões de habitantes – para dar o exemplo da sociedade portuguesa – que existam 10 milhões de patrões, todos a produzirem uns para os outros.(Até pelos problemas de falta de economias de escala que em dados sectores isso originaria…)

Tal sociedade atomizada nunca existiu nem virá a existir, é apenas uma derivação de sinal contrario, um espelho para onde se olha e a imagem sai do avesso; do marxismo, onde se pressuponha que “num glorioso futuro” (A) viria a existir uma sociedade sem classes.

Estas “ideias de empreendedorismo pressupõem que (B) “apenas existe uma classe social: a dos patrões.

Nota: talvez porque quem “defende geralmente estas tretas é ele/ela próprio (a) patrão (accionista).

E assim chegamos a algo de maravilhoso e de tão potencialmente mais destruidor como ideologia do que o marxismo o foi: o neoliberalismo “patronal”, a teoria que pressupõe que “todos devem ser os seus próprios patrões” e que assim a sociedade será economicamente racional.

É evidente que depois, quem quiser argumentar desejar trabalhar por conta de outrém, sejam quais forem os motivos que tenha, será olhado de soslaio e apelidado de “comuna” ou algo de semelhante ou de conformista.

Isto é tanto mais “engraçado” e perigoso como ideologia quando se percebe que “em face dos sistemáticos encerramentos de unidades industriais de grande produção ou empresas do mesmo estilo que empreguem números elevados de trabalhadores, será economicamente impossível voltar a gerar através da difusão do mito do empreendedorismo o mesmo numero de empregos que antes se perderam porque uma qualquer Fábrica se deslocalizou para um qualquer sitio onde os accionistas obtenham mais rendimento.

E assim temos um enorme problema. Mesmo que todos os desempregados que foram alvo de deslocalizações nos sítios onde trabalhavam por conta de outrem, passem, de repente, por passes de mágica, a tornarem-se empreendedores em nome próprio, o “mercado” não chega para todos estes novos “empreendedores” poderem sobreviver nele.

(Nota: uma das soluções perversas que tem sido adoptada para combater este problema tem sido o de atacar os desempregados, tornando-os párias (aos olhos do empregados), através das recusas de atribuição de subsídios de desemprego após “x” meses, exigências de apresentação de 15 em 15 dias nos centros de emprego para “controlo e verificação, etc).

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Estranho paradoxo este, onde os defensores do empreendedorismo do mercado e do “crie você próprio o seu emprego” se esquecem de explicar às vitimas da engenharia social/económica que propõem, que em nome da defesa de mais mercado, este afinal não existe em quantidade suficiente” para nele albergar estes novos “empreendedores”.

E na última campanha eleitoral para as eleições legislativas portuguesas de 2009 viu-se isso mesmo. Nenhum partido político nos conseguiu explicar de forma séria, como irá criar mais empregos, e até existiram alguns que continuaram a dizer-nos que “através do empreendedorismo” se criariam empregos…

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As origens da doença.

O “tipo de esquecimento” que os defensores da engenharia do empreendedorismo social/económico é o mesmo tipo de esquecimento (a doença é a mesma; tem apenas cores diferentes) que os defensores da engenharia social/económica da economia colectivista tinham e defenderam: ambas geram a aplicação de ideologias extremamente destrutivas na sociedade e baseadas em utopias perversas.

A utopia infantil de que o Estado trataria de tudo;

A utopia infantil que as pessoas sozinhas tratarão de tudo nas suas próprias vidas e na sociedade.

Bottom line: é impossível sermos todos empresários e não é sequer desejável.

Provavelmente 90% da população não saberia como ser empresário/patrão e caso fosse forçada a ser, teríamos “maus empresários” dentro do mercado a destruírem o que já dificilmente funciona.

E no entanto temos inúmeros casos de políticos e “fazedores de opinião” a defenderem encarniçadamente “mais empreendedorismo.

A defenderem que se atire “mais caos” e impreparação dentro de um local”  – o mercado” –  que já é caótico.

Isto porque se apostou (como um jogo de roleta russa) numa política de desindustrialização e derrube do emprego por conta de outrém, seguindo as lógicas dos dois blocos económicos – políticos que nos emparedaram como país no sitio onde estamos: a UE e os EUA.

E aquilo que os políticos portugueses (a suposta elite) tem para nos oferecer (à população)  como solução é uma ideologia perversa e inadequada para vivermos em condições dignas: o facto de “sermos empreendedores” num local (a economia de mercado) que não tem condições para sermos tal.

Somos um peixe num charco que os defensores do empreendedorismo de mercado estão lentamente a secar enquanto nos dizem para nele nadarmos mais e de outras formas mais empreendedoras.

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