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O FMI E OS SEUS MÉTODOS

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O FMI E A ETIÓPIA

JOSEPH STIGLITZ

JOSEPH STIGLITZ – WIKIPÉDIA

…O FMI, geralmente, só tem no local um único “representante residente”, com poderes limitados. Seus planos, de modo geral, são ditados por Washington e redigidos durante as rápidas missões de altos dirigentes. Desde que descem do avião, mergulham nos números do Ministério das Finanças e do Banco Central. Hospedam-se confortavelmente em hotéis de cinco estrelas das capitais.”

Ø

“…Não se deve ver o desemprego como uma simples estatística, como uma “enumeração de cadáveres” – vítimas não intencionais da guerra contra a inflação ou pelo pagamento aos bancos ocidentais. Os desempregados são pessoas de carne e osso, têm famílias, e todas essas vidas são dolorosamente afetadas, às vezes destruídas, pelas medidas econômicas que os especialistas estrangeiros recomendam, ou impõem – no caso do FMI.”

Ø

“…Do alto de um hotel de luxo, impõem-se, sem piedade, políticas sobre as quais se pensaria duas vezes caso se conhecessem os seres humanos cujas vidas vão ser arrasadas.”

Ø

Mas foi ao ir à Etiópia, um dos países mais pobres do mundo, em março de 1997, apenas um mês após haver assumido minhas funções no Banco Mundial, que, de repente, mergulhei no espantoso universo político-aritmético do FMI.

Ø

O social ou o financeiro?

Se a Suécia conceder uma ajuda financeira à Etiópia, para que construa escolas, a lógica do FMI impõe conservar o dinheiro na forma de reservas.

Ø

O presidente declarou-me que não havia lutado durante dezessete anos para ter um burocrata internacional a lhe dizer que não podia construir escolas e hospitais

A lógica do FMI coloca um problema evidente: implica que, se obtiver ajuda para realizar alguma coisa, um país pobre nunca poderá gastar o dinheiro. Se, por exemplo, a Suécia conceder uma ajuda financeira à Etiópia para que construa escolas, a lógica do FMI impõe a esta última conservar esse fundo em suas reservas. (…)

Mas não é para isso que os doadores internacionais concedem ajuda. Na Etiópia, os doadores, que trabalhavam independentemente e não tinham nenhuma obrigação para com o FMI, queriam que novas escolas e novos hospitais fossem construídos, o que era também a intenção do governo. Meles não mediu suas palavras: declarou-me que não havia lutado ferrenhamente, durante dezessete anos, para ter um burocrata internacional a lhe dizer que não podia construir escolas e hospitais para seu povo quando havia conseguido que doadores financiassem sua construção.

Ø

Entregar o sistema bancário, para “maior eficiência”

Queriam que a Etiópia não só abrisse seus mercados financeiros à concorrência ocidental como também que cindisse seus bancos em vários pedaços

O FMI queria mais que a mera abertura do sistema bancário à concorrência estrangeira. Pretendia “fortalecer” o sistema financeiro, criando um mercado de adjudicação para as obrigações do Tesouro do Estado etíope – reforma que, por mais desejável que pudesse ser em inúmeros países, não tinha nada a ver com o nível de desenvolvimento da Etiópia.

Também queria que esta “liberalizasse” seu mercado financeiro, isto é, deixasse as forças do mercado determinarem livremente as taxas de juros – o que os Estados Unidos e a Europa ocidental não fizeram até a década de 70, época em que seus mercados, e o necessário aparelho de regulação, eram infinitamente mais desenvolvidos.

Ø

A Etiópia tinha excelentes motivos para resistir ao FMI, quando este exigia que “abrisse” seu sistema bancário. Tinha visto o que se passara em um de seus vizinhos da África oriental – o Quênia – que havia cedido. O FMI insistira para que esse país “liberalizasse” o mercado financeiro, persuadido de que a concorrência entre os bancos iria provocar a queda das taxas de juro. Os resultados foram catastróficos.

A medida fez-se acompanhada pelo crescimento muito rápido de bancos de negócios indígenas, numa época em que a legislação bancária e a fiscalização dos bancos eram inadequadas, com os resultados previsíveis: quatorze falências somente nos anos 1993 e 1994. Na prática, as taxas não caíram, mas aumentaram. O governo etíope, compreensivelmente, foi cuidadoso.

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Written by dissidentex

24/03/2011 às 9:44

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