DISSIDENTE-X

JOÃO FERREIRA DO AMARAL – “A prioridade do governo não é cortar o défice, é cortar salários”

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Concorda com o Presidente da República em relação à injustiça das novas medidas de austeridade?
Sim. Estas medidas terão um impacto recessivo maior do que se esperava. É completamente iníquo.

Serão eficazes contra o défice?
Não me parece que a prioridade do Governo seja o défice público, mas os custos salariais. Está a ser aplicada uma fórmula para ganhar competitividade que passa por

gerar desemprego,

aumentar o horário de trabalho

e flexibilizar a legislação,

conseguindo assim baixar o nível geral dos salários.

É um modelo que sempre foi discutido, mas nunca foi aplicado com esta dureza. E estou convencido de que não funciona em Portugal.

Porquê?
As famílias estão demasiado endividadas. Esta fórmula até pode dar resultado se o ajustamento necessário for pequeno e as famílias tiverem menos dívidas. Neste caso, vai provocar um aumento significativo do incumprimento junto da banca.

Não é só o problema da equidade; há ainda a estratégia económica?
Parece-me que a preocupação do Presidente foi chamar a atenção para o problema da equidade, mas também para o facto de as medidas serem erradas. A estratégia é, de facto, errada.

Que alternativa preferiria?
O mais justo seria introduzir uma regra no IRS aplicada a todos. Mas, ao contrário da sobretaxa deste ano, os rendimentos de capital também teriam de ser incluídos.

Existe o risco de uma escalada na tensão social?
Quando se tira dois meses de reforma, não se está apenas a tirar rendimento, mas a confiscar património acumulado. As pessoas não são parvas. Haverá protestos permanentes.

[…]

Portugal vai conseguir cumprir as metas do défice?
Este ano, sim. Em 2012 acho que o Governo não vai conseguir. Está a sobreavaliar as receitas fiscais e a recessão será pior do que estima. Deve ficar acima dos -3%.

O pacote de financiamento de 78 mil milhões de euros é suficiente?
Não. Terá de haver, inevitavelmente, um segundo pacote. Percebo que o Governo não possa admitir isso publicamente, mas acho que já todos perceberam. O montante é curto e o prazo também. E esse segundo pacote teria de ser superior a este.

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João Ferreira do Amaral, entrevista à comunicação social, dia 22 de Outubro de 2011.

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