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PORNOCRACIA- OU COMO A CENSURA EM PORTUGAL ESTÁ DE VOLTA

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a-origem-do-mundoPor causa desta imagem de Courbet colocada na capa de um livro, que estava a ser promovido numa feira do livro na cidade de Braga, Portugal, no dia 25 de Fevereiro de 2009, alguém chamou a policia e esta apreendeu todos os exemplares do livro que se chama Pornocracia, da autora francesa Catherine Breillat.

O novo Portugal democrático agora é isto…

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Cite-se o blog Obvious:

Estávamos em 1866 e Courbet era já um pintor conhecido em França pela sua destreza técnica mas sobretudo pela sua atitude crítica e corrosiva em relação à sociedade e moral burguesas, que não perdia ocasião de afrontar. Courbet era um socialista convicto, arrogante e autoconfiante, é preciso dizer. No entanto talvez isso não baste para justificar a obra que realizou nesse ano e que havia de o celebrizar mais do que todas as outras. Ao representar frontalmente as coxas e o sexo de uma mulher, A Origem do Mundo abalou profundamente o meio artístico da época. E não só!

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O quadro é profundamente perturbador ou mesmo chocante. O incómodo sentido pelo observador ao olhar de modo tão directo para o sexo que ali se exibe ostensivamente é enorme. Há uma espécie de pudor, de vergonha quase instintiva que se revela em nós ao observá-lo. Mais do que violentar a intimidade do objecto retratado, o artista violenta o público. De resto, Courbet adorava fazê-lo embora nunca tivesse ousado ir tão longe. Porque se atreveu desta vez?

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Esta tela surge assim como um manifesto contra o academismo mas também contra a falsidade vigente na Arte e na Sociedade oitocentista. Representa a libertação definitiva do artista de todos os estereótipos! Significativo é o facto da polémica se ficar a dever ao tema e à forma como foi abordado e não às qualidades pictóricas do quadro – se estava bem pintado ou não. A Origem do Mundo foi uma obra inspirada, visionária talvez, um acto estético da maior importância e uma obra de arte de primeira grandeza. A Pintura Moderna talvez tenha começado aqui, com origem no sexo de uma mulher.

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E cite-se o JN:

A apreensão pela PSP, anteontem, de cinco exemplares de um livro com uma capa considerada pornográfica” – “Pornocracia”, de Catherine Breillat – era assunto obrigatório entre os visitantes, a maior parte dos quais contra a intervenção policial.

…É o caso de Bruno Mendes, para quem o incidente reflecte o estado actual do país: “Há cada vez mais descontentamento das pessoas, o que leva a mais acções de controlo por parte das forças policiais”. O jovem, que fez questão de se dizer de “direita”, estranha a acção da Polícia face ao livro em questão, pois “já vi que há outros com conteúdos e capas piores expostos por aí”.

…É assim que se sente o livreiro António Lopes…“Sei que a PSP não recebeu ordens do Ministério da Cultura, mas a verdade é que se sentem, actualmente, à-vontade para adoptar medidas deste género”, critica.

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Importa perguntar:

e porquê  – exactamente agora – se sentem à vontade para adoptar medidas deste genero?

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A PIRÂMIDE – ISMAIL KADARÉ

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Autor: Ismail kadaré.

Editora: Dom Quixote.

Na wikipedia:

a-piramide-ismail-kadareO livro foi escrito em  Paris e Tirana (kadaré é albanês);  entre 1988 e 1992. Reflecte a visão do autor, em relação ao que viveu, antes dessa época e ao que estava a viver nessa época.

Para todos os que o leram ou o lerem agora,  podemos, se fizermos um esforço comparativo ver como aquela realidade descrita por Kadaré há 20 anos não está tão distante.

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Kadaré desejava, acima de tudo, contar uma história acerca do  totalitarismo.

Contudo é mais (muito mais) do que só sobre totalitarismo.

É, também sobre o poder; e toda a simbologia associada a esse mesmo poder. E de como isso influencia o próprio totalitarismo e as formas que  este reveste, de país para país.

kadaré, ao escrever, para se proteger da rigidez totalitária estúpida da Albânia comunista situou a acção do livro no antigo Egipto. (3000 anos antes portanto).

piramide-kadareCriou o enredo da narrativa centrado num problema político/de regime: a construção de uma pirâmide – dedicada ao Faraó Keops – que seria, simultaneamente, o túmulo deste, após morte, e uma obra simbólica feita em vida do Faraó, cujo objectivo seria o de servir para demonstrar todo o seu poder sobre o povo egípcio e por extensão, do próprio império egípcio, para os  vizinhos.

Do ponto de vista da leitura, o livro não é nada simples; a tradução não ajuda, e está cheio de metáforas e alusões subliminares ao regime comunista albanês  (isto é, a uma forma peculiar de totalitarismo), mas não só. Podemos reconhecer os “tiques” de poder de qualquer regime ali explicados.

E também reflecte a influência a algum do ambiente pré queda do muro de Berlim (1989), de que o autor se apercebeu estando ainda a viver na Albânia (Kadaré saiu algum tempo antes da queda e pediu asilo político em França); mas o que é interessante verificar, por análise comparativa, da leitura do livro, é como todos os mecanismos de poder totalitários de uma ditadura obtusa, também podem, pelo menos alguns, ser replicados e encontrados numa  qualquer simpática democracia ocidental.

Como Portugal. Caso se preste atenção, bem entendido. Caso se queira prestar atenção, bem entendido. E independentemente dos partidos ou forças políticas que estejam no poder.

É um “estado das coisas” que Kadaré  mostra e nos convida a pensar sobre.

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A história começa com o Faraó Keops a anunciar, poucos meses depois de tomar posse, que não deseja mandar construir nenhuma pirâmide, tal como os seus antecessores tinham feito.

Esta declaração política perturba o equilíbrio.

Os vassalos, servidores, cortesãos, funcionários públicos, enfim toda a fauna social,  fica intensamente perturbada com a notícia.

Para sublimarem a preocupação há que encontrar uma explicação. E a explicação é passar-se a julgar essa atitude do Faraó como  sendo  uma manobra politica do Faraó, mas apenas feita, para testar a lealdade de todos a si, o recém nomeado Faraó.

Paralelamente a este hipotético teste que a sociedade julga ver, o anuncio da “não construção” cria um terrível problema filosófico e metafísico: como iria o Faraó subir até ao céu depois de morto, e levar a sua alma e as bagagens correspondentes, se não existiria pirâmide, como veiculo sagrado de transporte, para o fazer?

E é a partir destes dois pontos que kadaré demonstra como a perturbação entre a fauna cortesã de uma sociedade pode ser lançada – pelo “poder”.

Tal estado das coisas leva a que o Sumo-sacerdote, o Magico-astrólogo e algumas outras figuras da burocracia do Estado se afadiguem a convencer o Faraó de que deve ser construída a pirâmide.

Em baixo uma pequena transcrição de como o Magico-astrólogo tenta criar as bases do convencimento e da influência no Faraó. O Mágico astrólogo, primeiro,  identifica o problema, quando em acto de pensamento e reflexão para si próprio:

“…o bem-estar, ao mesmo tempo que tornava as pessoas mais independentes, mais livres de espírito …as tornava, de igual modo mais reticentes à autoridade em geral e nomeadamente ao poder do Faraó….”

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Percebendo que o seu poder poderia ser posto em causa por não querer mandar construir a Pirâmide e depois de ser persuadido pela fauna de cortesãos (pelos interesses), o  Faraó procura criar uma solução em que sinta ter sido ele próprio a encontra-la, (para fazer assim uma auto demonstração de poder) e para tal envia o Mágico-astrólogo para o Sahara para que este encontre uma solução que satisfaça os desígnios do Faraó.

40 dias depois este retorna e afirma ao Faraó que: “era preciso eliminar o bem-estar

Kadaré demonstra que, no exercício de poder, muitas vezes, não é o soberano/ o ditador/ o líder que de facto comanda, mas sim, julga que comanda, apenas influenciado por “sombras” de interesses que pairam à volta.

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Para eliminar o bem estar, surge a ideia de que é necessário fazer algo:

Mas o quê?

“Algo de fatigante, de destruidor para o corpo e o espírito e absolutamente inútil. Ou mais exactamente, uma obra de tal forma inútil para as pessoas que se tornasse indispensável ao Estado…!

O resultado:

“…o soberano e os seus ministros chegaram …. À ideia de um grande monumento funerário. De um grande túmulo.”

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Esta ideia fascinou sobremaneira o Faraó.

E dessa forma, o “novo” edifício principal do Egipto já não seria um templo, nem um palácio real, mas um túmulo. Progressivamente, o Egipto identificar-se-ia com este, e este com o Egipto. (o nacionalismo de mãos dadas com o poder…)

O Faraó fala – para simbolizar o facto de ter decidido tal – e diz:

“A pirâmide será construída. Será a mais alta de todas. A mais majestosa.”

É o “poder” simbólico do Faraó a manifestar-se.

E após o Faraó falar – uma metáfora do poder e do totalitarismo, aplicada de forma prática –  surgem os éditos reais a notificar o povo da construção.

O povo alegre ?!?! por o dia finalmente ter chegado – o início da construção da pirâmide – tem esta manifestação:

“As pessoas saem dos templos, aliviadas. Como somos felizes, diziam, por termos a nossa pirâmide.”

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No livro decorrem acções paralelas. São explicadas as  descrições das decisões técnicas dos arquitectos, a inveja dos embaixadores estrangeiros, a abertura e construção de estradas, necessárias para transportar os enormes blocos de pedra, vindos de barco Nilo acima, a escolha das pedras, o deslocamento dos funcionários públicos para sítios remotos para supervisionarem os trabalhos…tudo se descreve, para mostrar um grande elefante totalitário em movimento.

Assim é-nos dado a observar o simbolismo de toda uma burocracia a movimentar-se ao serviço de uma fachada de poder totalitário.

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Também existem os pormenores cómicos e irónicos: os boatos e as conspirações que dão origem a afastamento sucessivos de responsáveis pela construção, as manobras da policia secreta…

Ou quando se passa à construção propriamente dita, onde todas as pedras são numeradas e tem um nome atribuído.

A meio da construção keops exige ser colocado mais acima (o seu túmulo) no interior da pirâmide:

“Mais alto – disse ele com voz abafada – ainda estou muito abaixo.”

“Compreendo, majestade – respondeu o arquitecto – chefe”.

“- Quero ficar no centro – declarou keops”

“-Compreendo, Majestade.”

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Kadaré ironiza profundamente sobre o “aspecto humano” dos ditadores, por intermédio de interposta personagem – o Faraó Keops. Este, a determinada altura sente melancolia e tristeza por saber aproximar-se o fim da construção e reflecte “humanamente” sobre isso:

“As vezes arrependia-se de ter martirizado o Egipto daquela maneira!…

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Tudo isto também misturado com os problemas com os linguistas do reino e com os filhos de Keops, bem como uma, de várias conversas alucinantes, de Keops com o Magico-Supremo:

“o seu corpo conhecerá um fim, a sua alma nunca!

Mais uma metáfora para o poder e para o facto de os líderes políticos, passado algum tempo de estarem rodeados de pessoas que lhes dizem apenas sub-verdades agradáveis, se tornam completamente autistas para com a realidade, e são sempre bajulados com promessas de intemporalidade da sua obra…

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Também existem crónicas, brilhantemente macabras, acerca da construção usando as  pedras numeradas:

“Centésima nonagésima segunda pedra. Da pedreira de Abousir. Nada de especial”.

Ou:

Antepenúltimo degrau, da nona à quinta pedra, segundo o relatório do gabinete de controlo.

“…a sétima pedra …a pedra negra, a má…as causas do deslize permanecem misteriosas …mas ao nível do nono degrau, a queda acelerou. Foi para lá do décimo segundo que começou a esborrachar as pessoas…ao todo 90 mortos, sem contar com os feridos.

Ou:

“Sexta pedra…ainda que tivesse feito vitimas, parecia um anjo comparada com a anterior. Por isso chamaram-na de pedra boa.”

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Também existe a descrição “vista de fora”. Frustrado pelo facto de ter siso enviado para um local que não queria, e devidamente pressionado incentivado  pela sua sexualmente activa mulher, o Embaixador da Suméria consola-se através de um devaneio sexual analítico:

“Ela acariciou-lhe a barriga, depois o sexo. Reparava que, cada vez que enviava para a sua capital um relatório no seguimento do qual aumentava a esperança de ser nomeado ministro dos negócios estrangeiros, o sexo dela se molhava”.

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Após conclusão da “obra do regime” , o Faraó procura “interrogar-se”  e “saber” qual o “sentido” metafísico da construção. Kadaré ironiza com as tentativas de auto justificação que todos os protótipos totalitários demonstram após acções deste tipo.

Procurando “saber” interroga o Mágico acerca da pirâmide. E o Mágico responde:

— “Se construíste o maior túmulo do mundo é porque a tua vida é suposta ser a mais longa que se já se conheceu À face da terra. Nenhuma outra sepultura este poderia albergar.

Eu sofro – disse Keops.

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Após a obra concluída, os ladrões de túmulos roubam a pirâmide; um dos filhos do faraó é morto pelo irmão, para no futuro reinar e poder ter também a nova grande honra de construir mais uma Pirâmide, e os historiadores querem exumar o corpo do irmão morto, mas tal não lhes é permitido.

(Metáfora do poder totalitário ou democrático que se auto preserva de “olhares estranhos”…)

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É um livro algo datado, sobre totalitarismo e poder, e visando acima de tudo cravar estacas e acertar contas no comunismo albanês.

Contudo, quem resistir à leitura verá que é apropriado para reflectir sobre os tempos que correm, os tempos do medo diferente, … e onde a subversão da democracia é uma constante, tentando-se, sub-repticíamente, impor regras aparentemente democráticas (mas que não o são…) com uma regularidade constante.

Nota final: O livro será, possivelmente, difícil de adquirir, dado que foi publicado pela dom Quixote em 1994.

Contudo está acessível em bilbiotecas públicas.

FILME – A SCANNER DARKLY – DISTOPIA.

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No filme “A scanner Darkly” baseado na obra de Philip K. Dick, (PKD) um escritor de ficção cientifica já falecido, temos a descrição de uma distopia muito especial.

A história é simples e tem espantosos paralelos com aquilo que se passa actualmente, não só nos EUA, mas no mundo, e para o que interessa pelos danos colaterais, em Portugal.

Uma empresa privada, chamada New Path (Novo caminho) combate uma epidemia de droga num mundo futurístico.

Essa empresa criou um sistema de camuflagem – uma capa – que é posta por cima dos agentes policiais que a envergam, para evitarem ser reconhecidos no trabalho de agentes disfarçados – pelos seus colegas. (Uma forma irónica de PKD de apontar a corrupção como problema existente…)

Constitui também uma metáfora acerca dos comportamentos sociais de quase todas as pessoas. A colocação de máscaras, de capas de camuflagem constantemente em mutação. PKD coloca as “capas” na história de uma forma indirecta, subtil.

Criticando esta “necessidade” e de como a sociedade joga este jogo de forma inconsciente e a um ponto em que dá quase por adquirido que isso é a verdadeira natureza humana.

A New Path (Novo Caminho) é também uma metáfora não só pelo nome que tem ( O novo caminho – caminho novo para onde e o quê? Um constante “argumento de venda” de empresas charlatães…) como também pelo facto de, no fim do filme, percebermos que a New Path é a empresa, a entidade que é responsável pela existência da epidemia de droga, a chamada “Substancia D”.

É uma tremenda parábola do que é a sociedade actual, mesmo nas relações pessoais. Isto é:

– A coisa é o veneno e o seu próprio antídoto – por um preço, que apenas alguns pagam com custos pessoais tremendos e muitos poucos beneficiam dos lucros manchados de “sangue”.

– Uma parábola para o que são as corporações?

Fabricam a droga, comercializam-na, provocando uma epidemia (dois em 8 americanos viciados…) e providenciam (1) quer os centros de reabilitação e tratamento, quer (2) os meios para lutar contra a droga (droga essa que os próprios criam).

Aqui temos outra metáfora, infelizmente verdadeira, e ali apresentada de uma forma distópica muito suave mas dura e cínica, mas não tão afastada da realidade actual quanto isso ( PKD escreveu o livro em 1977) acerca do que é o actual capitalismo (ou lá o que isto é…).

Uma máquina de criar problemas complicados de resolver e soluções lucrativas ao mesmo tempo que cria problemas complicados de resolver para providenciarem soluções lucrativas.

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A segunda dimensão do livro é a apresentação dos EUA (isto é, de uma versão da humanidade) como uma sociedade totalitária, mas baseada em algumas coisas bastante simples para aplicar esse mesmo totalitarismo e que passam se não olharmos para elas, como sendo liberdade.

A sociedade é totalmente desprovida de valores – sejam quais forem os valores – e sujeita a vigilância electrónica constante, que se materializa em escutas telefónicas e electrónicas quase instantâneas. A sociedade é monitorizada, mesmo dentro das suas próprias casas, devido ao uso intensivo de tecnologia, exercida pela polícia e de forma sistemática.

Esta alta vigilância (o conceito) é praticada e os recursos para ela existem, enquanto que, ao mesmo tempo, a epidemia de droga da Substância D floresce, o que leva à situação de a polícia/meios electrónicos servirem para vigiar potenciais traficantes de droga, mas também, e com isso, vigiarem tudo o resto.

Infere-se isso do conceito do filme baseado na obra de PKD.

Os meios tecnológicos são a oportunidade e a oportunidade é providenciada pelos meios tecnológicos.

A técnica totalitária é ali descrita em todo o seu esplendor; de uma forma crua.

1. Existe uma ameaça que é amplificada para ser mais terrível do que é.

2. A guerra travada contra essa ameaça é perdida. A ameaça concreta ali é a droga ( Substância D) originária de uma misteriosa flor azul.

3. Para combater a ameaça terrível, são necessários meios terríveis ( no filme não se diz isso, mas infere-se no decorrer da acção) – uma massiva vigilância electrónica apoiada por agentes de polícia infiltrados e informadores, originando uma redução das liberdades individuais de todos.

4. O patriotismo (e o dever) é aplicado como chamariz e agentes infiltrados são colocados no meio dos sítios de trafico para desmantelarem o fornecimento, mesmo que venham a ser sacrificados por isso em nome de um “interesse superior”.

E conjugado com isto, existe a dimensão humana individual e a luta de contrários, os demónios interiores, o logro e a decepção entre pessoas que juram não o praticar, o jogo de opostos entre a identidade real e a identidade falsa de quem vive entre dois mundos totalmente distintos, acabando por ficar sem perceber quem é e em qual dos mundos vive.

Keanu Reeves é Robert Arctor, o agente infiltrado, que, por via da capa de camuflagem, destinada a ocultá-lo (a sua verdadeira identidade) dos seus colegas policias, se infiltra.

Arctor (Reeves) para chegar à origem do fornecimento tem que tomar a Substancia D”- e com isso começar a fritar os neurónios…

E a coisa complica-se quando chega ao seu chefe de nome Hank e este (também a usar uma capa de camuflagem) diz-lhe para “acelerar a vigilância pessoal e electrónica” aos suspeitos com quem ele se dá e que vivem todos na mesma casa” e especialmente ao suspeito Robert Arctor, o que é o considerado o mais suspeito e é considerado como sendo o “traficante que levará aos cabecilhas”.

A coisa é assim bizarra para Arctor que recebe ordens do seu chefe, para se vigiar a si próprio. Quase como colocado numa dimensão em que é um espelho que se vigia a si mesmo, numa enorme metáfora acerca de como as pessoas se reprimem e se vigiam a si mesmas para controlarem comportamentos (alguns lícitos e outros ilícitos) que outros (a sociedade) não tolera.

A dimensão do jogo de espelhos, da traição e da manipulação virá no fim a ser – também – revelada quando percebemos que a namorada de Arctor no seu trabalho (e quem lhe fornece a droga Substãncia D) como agente infiltrado é na realidade o seu chefe Hank, disfarçado.

Hank, quando em “modo disfarce” chama-se Donna Hawthorne e era o principal fornecedor a Robert Arctor da Substancia D, sendo ela (ele) próprio um consumidor de cocaina.

Pelo meio disto tudo, de um ponto de vista cinematográfico/diálogos temos a demonstração de alguns diálogos brilhantes, que simbolizam a “pedrada” que a substancia D causa levando os personagens a delírios retóricos absolutamente doidos, bem como a terem visões de insectos que os estão a invadir (efeitos alucinatórios da droga) ou paranóias de perseguições e de “misteriosos eles” que estão a vigiá-los.

Arctor vive com Barris ( Robert Downey Jr) e com Ernie Luckman ( Woody Harrelson) dois passados da cabeça do pior e ainda com Charles Freck (Rory Cochrane), um informador da polícia completamente alucinado pela droga e que julga que está permanentemente a ser assaltado por insectos.

A personagem Barris é o “elo” que leva aos cabecilhas da New Path. É também doido e paranóico para láde usar uma retórica muito bem educada entremeada com palavrões e perdas de calma.

Origina uma cena hilariante quando chega à esquadra da polícia (a Hank e a Arctor disfarçados nas suas capas ) e diz que quer revelar à polícia que Arctor é o Arqui-mestre do crime, de uma conspiração, conjuntamente com Donna Hawthorne, e quer, após providenciar as informações, que o deixem alistar-se na polícia?1?1

Hank (Donna Hawthorne) e Arctor ficam boquiabertos com o facto de Barris os estar a denunciar ali à frente, sem saber as suas verdadeiras identidades e da crença dele…

(A metáfora aqui é também a do segredo totalitário e dos métodos das sociedades totalitárias…)

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Simbolizando muitas coisas, relacionadas com drogas, mas não só, há uma parte no filme muito interessante. O chefe de Arctor (Hank/Donna Hawthorne) revela a dada altura, numa reunião de trabalho com Arctor, que já descobriu que ele é que é o agente infiltrado (devido à capa de camuflagem não se conheciam previamente…).

Mas devido ao uso por parte de Arctor da droga “Substância D, este começou progressivamente a perder a noção ( luta entre os hemisférios direito e esquerdo do cérebro) de quem é. Ao ser-lhe revelado pelo seu chefe que este sabe quem ele é, Arctor tem dificuldade em perceber e fica surpreendido ao perceber quem é, começando a ficar desorientado e confundido já tendo dificuldades em perceber quem é na realidade.

Uma metáfora simbólica, muito bem construída por PKD, também, relativamente à maior parte das pessoas na maior parte das suas vidas e ao estilo de vida e de sociedade que temos.

Em que por vezes, encontram( tem a sorte de) alguém que lhes revela quem verdadeiramente são…

Arctor acaba por ser cuspido pelo sistema, e posto fora, uma vez que está incapaz de trabalhar e de distinguir quem é verdadeiramente: a Droga “Substância D” fritou-lhe completamente o cerebro.

Mas é-nos dado a ver, como metáfora do que é a vida em sociedade, que Arctor apenas foi um voluntário relutante para fazer aquele serviço, e que foi sacrificado em nome de se conseguir colocar alguém dentro das secretas quintas de reabilitação da New Path.

Para, esperava-se, da parte da polícia, vir a conseguir provar que a New Path é a empresa que produz a droga Substãncia D”.

É já um Arctor despedaçado e quase completamente catatónico que está numa quinta após reabilitação e descobre no meio de campos de milho verdes a flor azul que dá origem á Substãncia D”. Arctor, já despedaçado, como tantas pessoas numa dada sociedade o estão emocionalmente, percebe qualquer coisa.

E pega numa flor azul, para levar como recordação aos seus amigos do centro de acolhimento – uma ideia que nos é lançada enquanto espectadores, de esperança, de redenção, de que tudo que de terrível a vida tem poder vir a ser ainda corrigido pelo sacrifício de alguns, entregando as provas dos culpados, aos que perseguem os culpados utilizando métodos tão culpados como os que os criminosos o fazem.

O filme é “difícil” e não tem perseguições de carros, nem senhoras sem roupa. É filmado pelos actores e depois foi trabalhado em computador para dar a imagem de um filme visto através dos olhos de um scanner, mas um scanner humano (se é que se pode pensar assim…

Ficou obviamente com notoriedade pela “parte técnica” e não pela história…(Qual é a novidade…)

PKD escreveu o livro, também como “manifesto” contra a droga e o trafico de droga. No fim do livro incluiu uma lista de pessoas que conheceu, que morreram de overdoses ou ficaram com lesões permanentes. PKD incluiu o seu próprio nome na lista de pessoas que ficaram com lesões permanentes.

Mas não é só sobre droga, mas também sobre uma sociedade totalitária e sobre o individuo e os seus sentimentos acerca de saber quem é e qual a sua posição dentro de tudo isto.

Written by dissidentex

06/10/2008 at 14:38

LIVRO – SCHISMATRIX – O MUNDO PÓS HUMANO – BRUCE STERLING

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CAPA PORTUGUESA

CAPA PORTUGUESA

Livro: Schismatrix: o mundo pós humano. O livro foi originariamente publicado nos EUA, em 1985. Em Portugal em 2003, na Editorial Presença.

Uma estranha história, um romance que mistura ficção cientifica, futurismo, e o conceito de evolução da espécie humana num futuro a 100/200 anos, assim como a ideia de encontro da raça humana com extraterrestres.

Autor: Bruce Sterling, que pode ser encontrado no blog pessoal, acoplado à revista Wired.

Sterling é bastante estranho no livro e cria um universo convincente mas bizarro. O livro não parte do principio que terão que ser formas de vida extraterrestres a condicionar desde o inicio toda a série de histórias que deram origem a Schismatrix, como sucede em muitas histórias de ficção científica.

O ponto de partida é no entanto, muito interessante. Sterling cria uma ideia de desenvolvimento futuro da raça humana assente em dois caminhos:

  • A facção humana “Mecanista”
  • A facção humana “Modeladora”.

Os mecanistas são humanos que escolheram “aperfeiçoar-se e combater o envelhecimento”, usando técnicas de software e aparelhos mecânicos de ajuda ás funções biológicas, para viverem.

Os modeladores são humanos que escolherem fazer engenharia genética em grande escala para se auto desenvolverem e viverem, incluindo nascerem planeados geneticamente.

Ambas as opções são sugeridas por Sterling como caminhos possíveis para a espécie humana e ao mesmo tempo. Cria um conceito de um mundo (sistema solar) sempre em permanente rebelião, com micro guerras, interesses particulares e conspirações, golpes de estado, mudanças de personalidade e de estado físico/biológico de vários dos intervenientes, mudanças na forma como planetas ou asteróides são geridos, quer como sistema político, quer por quem ( sub grupos ou sub facções) os gere.

Existem duas facções principais em luta pelo controlo do sistema solar que se combatem, embora não de forma aberta numa guerra total mas antes, através de conspirações dos mais variados tipos.

O livro segue – como personagem principal – a vida de um modelador chamado Abelard Malcom Tyler Lindsay, que por volta dos 30 anos de idade é banido da sua República – a República Corporativa Circunlunar Mare Serenitatis e os acontecimentos subsequentes.

História:

Abelard Lindsay nasce na colónia lunar que dá o nome à República, de um família de mecanistas aristocratas. É enviado para o “Conselho do Anel Modelador” para receber treino genético especializado em diplomacia e a partir dai adere à causa modeladora renegando as suas origens mecanistas.

Mais tarde lidera uma rebelião, contra os chefes modeladores da República, pelo facto de estes usarem tecnologia mecanista para prolongarem as suas vidas. Luta também, influenciado pela sua mulher (uma Preservacionista) em favor das ideias de um grupo chamado os “Preservacionistas”, um movimento reaccionário da juventude da República, ligado à arte e ao romanticismo, que pretendia voltar a instaurar a cultura do passado para não perder a ligação à cultura originária do Planeta Terra.

Inicialmente, o seu amigo de infância, Phillip Constantine junta-se a Lindsay (e trai-o depois), mas sendo Constantine um “plebeu”, apesar disso, possui conhecimentos “Modeladores” de biotecnologia elevados e é autorizado (apesar de ter participado inicialmente na traição) a permanecer na República, enquanto Lindsay é banido.

Este tinha previamente feito um pacto de suicídio (a única forma de tirar a vida a alguém permitida pelo regime Modelador) com a sua mulher, Vera kelland, e, depois da morte dela por suicídio, Lindsay renega-o, apenas para vir a saber que o seu melhor amigo o tinha traído e o tinha tentado assassinar.

Fonte/ Source “Entropy Pump”

Todo este conceito é desenvolvido num contexto em que a raça humana, já não habita o planeta terra, (uma ideia do que poderá vir a suceder?)

Antes, tinha saído para o sistema solar e cortado ligações com a Terra e os seus habitantes.

Vivia, usando a tecnologia disponível, em asteróides, ou planetas, vivendo do comércio e da extracção de minérios nos mais variados sítios e das mais variadas maneiras.

Grande parte das “nações humanas”, Modeladoras ou Mecanistas, situava-se nos anéis de Saturno e na cintura de asteróides de Júpiter.

Sterling dá vida às mais variadas histórias e personagens, golpes e contra golpes, desenvolvimentos tecnológicos num mundo sempre bizarro, e sempre em constante mutação.

O leitor segue tudo isto (com extrema dificuldade no principio do livro diga-se), através da vida e das movimentações de Lindsay e das interacções deste com as personagens que encontra.

Desenvolvimento:

Quando Lindsay é banido para uma zona de párias, conhece um velho mecanista ( Ryumin ) e Kitsune (a gestora do banco de geishas) modificada geneticamente pelos Modeladores para ser a “Prostituta ideal” e a história desenrola-se, formando Lindsay o “Kabuki intra solar”. (É lançada a ideia da modificação genética para criar “tipos” de pessoas adequadas, no caso a prostituição?)

Os modeladores representam uma ideia de totalitarismo (assente na genética), enquanto que os mecanistas são desapaixonados e fascinados com tecnologia (assente na desumanização). A cintura de asteróides de Júpiter é dominada pelos Mecanistas, os anéis de Saturno pelo “Conselho do Anel Modelador”.

Sterling descreve os problemas com bactérias e vírus, (uma pista futurista acerca dos problemas da exploração espacial?) que quaisquer membros das facções enfrentam ao mudar de um mundo para outro, (ou de uma nave para outra) e a forma como os corpos se adaptam ou não a diferentes tipos de vírus.

Descreve como refugiados ou banidos se tornam, (Modeladores ou Mecanistas) formadores de novas repúblicas/regimes em asteróides ou pequenos planetas desabitados e de como isso gera inúmeros e múltiplos povos em que modeladores e mecanistas se misturam, fazendo parte da mesma população de um novo regime.

Existem vários conceitos lançados como ideias muito interessantes de analisar. Na facção modeladora existe condicionamento genético intelectual levado ao extremo o que origina tentativas de criar seres com QI de mais de 200 – os Super inteligentes – que acabam por correr mal ( são seres não dotados de capacidade social de relacionamento).

CAPA DA PRIMEIRA EDIÇÃO AMERICANA - FONTE WIKIPÉDIA

CAPA DA PRIMEIRA EDIÇÃO AMERICANA - FONTE WIKIPÉDIA

Os contratos de casamento são a termo certo, com clausulas definidas.

As lutas de poder, são feitas mandando assassinar alguém usando a tecnologia, que cria “assassinos” para isso. (Uma pista para o futuro?)

Na área da privacidade pessoal pública tudo é controlado por instrumentos electrónicos de vigilância fixos e “robots (designados por cães). Excepto as zonas chamadas “Discreto”. Onde não existe controlo e tudo acontece desde orgias sexuais a reuniões de negócios e conspirações. (Uma pista para o que será o futuro da privacidade – a inversão dos termos da mesma?)

Existem Nações apenas dentro de naves espaciais – uma delas é a nave de guerra e mineração “Consenso Vermelho.” Lindsay chega a ser cidadão desta “nação” que existe dentro da nave espacial.

Não existem conceitos de dia e de noite nas naves espaciais – dorme-se a qualquer hora.

A chegada do extraterrestres:

Em 2217, quando conhece a sua segunda mulher, Nora Mavrides, uma modeladora, e está num enorme aperto, Lindsay tem sorte:o sistema solar assiste à chegada dos “Investidores”, a primeira raça de alienígenas a chegar a este sistema solar.

A chegada dos “Investidores” gera o período conhecido por ” a Grande Acalmia”, uma area de tempo onde não existem guerras, apenas paz e competição comercial.

Existem aqui alguns paralelos com “os tipos do dinheiro e a forma como investem”, na descrição de Sterling. Os investidores são fanáticos por comércio e estabilidade e só por isso. Compram e vendem tudo o que podem – aos humanos e a outras raças pelo preço mais vantajoso possível, cobrando além disso taxas pelo uso do sistema de propulsão secreto que tem, e que permite aos humanos conhecerem novas raças inteligentes – viajando nas naves dos “Investidores”.

Na história Lindsay vê nisso uma oportunidade, para, pela segunda vez “desaparecer de cena” e fundar uma segunda república poderosa chamada Goldreich-Tremaine. Com o decorrer do tempo novas conspirações emergem para destruir o poderio de Goldreich -Tremaine (uma pista para o que poderia acontecer no futuro – e não deixei de pensar se Sterling não teria sido influenciado por uma história de Rudyard Kipling- o Homem que queria ser Rei).

A longevidade da raça humana:

Sterling oferece uma panorâmica da raça humana a viver até aos 200 anos cheia de implantes e melhoramentos genéticos, para quem pode pagar… quem não pode, vai ao mercado negro. (Uma pista para o futuro?) e pessoas que alteram o seu corpo com todos os tratamentos quer “normais”, quer através de genética ou prostética e que permitem elevar a idade média.

O resultado ao nível das relações pessoais são pessoas com casamentos com outras com diferenças de 60 ou 100 anos de idade, cujas eventuais dificuldades físicas não existem: algum produto químico ou software resolve o assunto.

O sexo é asséptico no sentido em que não resulta dai gravidez física, mas sim filhos gerados através da genética.

A chegada dos alienígenas, (e incitados por estes também) provoca uma ainda mais acesa competição entre modeladores e mecanistas, em que os “Investidores” não querendo que uma facção tenha acesso a mais comércio que a outra jogam com os desejos de poder de ambas.

A implicação do contacto com outras raças – os Investidores revelam que tem contactos comerciais com outras 19 raças inteligentes – servindo de intermediários leva à especulação na escrita por parte de Sterling, lançando a ideia de que a raça humana, nas duas versões, estará condenada a desaparecer, tornando-se “Pós-humana” ( a ideia é lançada no conto “o enxame”).

Uma ideia de raça “Pós Humana” em que as características iniciais da espécie são diluídas, transformadas e alteradas até desaparecer a espécie; vitima das suas próprias mutações ( conceito de evolução ou desaparecimento? ).

Existe um corpo principal neste livro, e existem mais 5 contos – 5 histórias do universo modelador /mecanista no fim do livro, um dos quais ( o “Enxame”) é muito, mas muito bom.

Um livro duro de ler, difícil, desconcertante, que abana algumas certezas mesmo tendo sido escrito em inícios dos anos 80 e que será provavelmente uma obra maior de culto daqui a 50 anos – ainda maior do que já é hoje.

Written by dissidentex

13/09/2008 at 7:57

HOSPITAL DE GAIA – PORTÁTEIS – DOENÇAS VIRTUAIS.

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Esta é uma curiosa notícia do JN de 10 de Julho de 2008, (ligação alternativa: esta dos bombeiros portugueses, texto completo) acerca da “virtualização”, da sociedade virtual num ( para mim ) dos seus piores exemplos, e como nos querem convencer que isto é muito bom e o “futuro”.

Parte do texto em baixo.

Familiares e amigos já podem visitar as crianças internadas no serviço de Pediatria e os doentes internados na unidade de convalescença do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho sem sair de casa. O hospital entra na era digital.

Os computadores portáteis (33) e o acesso de banda larga à Internet foram oferecidos, ontem, pela PT, através da TMN. Agora, os mais novos (Pediatria) e os mais velhos (Unidade de Convalescença) poderão usufruir das potencialidades do mundo informático. A videoconferência e o msn serão instrumentos úteis para contactar quem está longe. Os portáteis servirão, ainda, para atenuar o sacrifício de quem está internado.

“Queremos que o período aqui passado seja o mais agradável possível”, sustentou João Ferreira, presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar. O responsável justificou a entrega dos computadores à Pediatria e aos Cuidados Continuados com o valor simbólico do acto.

É uma forma de unir os mais novos com os mais velhos, “dois extremos etários com necessidades próprias”, explicou. A ambição é ter mais computadores. Um por doente, se fosse possível. Zeinal Bava, presidente executivo da PT, admitiu que poderá haver mais ofertas para a unidade gaiense. Até porque, sintetizou, a responsabilidade social “está no ADN” do grupo. “Este é um contributo simbólico”, sublinhou.

O sistema de contacto por videoconferência foi testado, ontem mesmo, com ligações à Pediatria, nas instalações junto ao Monte da Virgem, e à Unidade de Convalescença, em Espinho. A experiência resultou. A ligação – voz e imagem – funcionou em condições.

“Isto vai trazer mais conforto às pessoas que tratamos”, reiterou, satisfeito, João Ferreira. Além das visitas virtuais, será possível combater a solidão dos mais velhos e ajudar os mais novos a passar o tempo e a aprender, com conteúdos didácticos. Garantia dos responsáveis: a utilização da internet, por parte das crianças, será sempre acompanhada.

Algumas notas:

– Sobre o facto da PT estar declaradamente a barrar o caminho à concorrência oferecendo os sistemas de acesso á Internet em portáteis da PT criando um falso monopólio natural, e tudo passar ao lado das autoridades da concorrência como se nada fosse.

– Sobre o facto de isto constituir uma maneira de afastar a presença física dos familiares dos doentes do hospital, criando uma ” visão à “distância” doença, como se a doença fosse “asséptica e limpa” e todo este “distanciamento” da realidade ser considerado como bom, quando não é.

– Sobre o facto de isto ser confundido com terapia e cuidados médicos reais, coisa que não é.

A dada altura no artigo “CENÁRIOS E TENDÊNCIAS E TENDÊNCIAS PARA OS PRÓXIMOS 20 ANOS – 4 , está lá escrito o seguinte:

“…Isolamento social da vida real na rua. Choques psicológicos entre camadas da população confrontadas com a “rua” vs mundo virtual do enxame. Mundo observado por meio de aparelhos electrónicos e ideias electrónicas.”

EQUILIBRIUM.

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Em Julho de 2006, completamente por acaso, assisti a um pequeno pedaço de um filme na entrada de um supermercado, enquanto o rebanho consumista e alienado com que viajei, se ausentava para a loja de roupas mais próxima.

Perdidos lá dentro, na voragem da calça de ganga e da T-shirt, deixaram-me ( julgam eles) cheio de sentimentos de culpa por não os acompanhar. Um ecrã gigante estava ali para exposição e venda e transmitia um filme.

Na parte do filme que vi, percebia-se que era um filme de ficção cientifica. Não ligaria muito à coisa, não fosse o facto de se reconhecer a estética do ambiente totalitário.

As alusões ao “1984” de Orwell e ao “Admirável mundo novo” de Aldous Huxley e a THX-1138 de F. Ford Coppola.

Observava-se a personagem principal. Expressão monolítica, fria. Mais um Stallone, pensei.

Mas não, aquilo tinha mais que se lhe diga.

Finamente consegui ver o filme todo. E a primeira percepção que tinha tido em Julho de 2006 era afinal bastante diferente. O filme chama-se “Equilibrium” e é uma muito boa Distopia acerca de uma sociedade totalitária, pós hipotética 3ª Guerra Mundial. Com algumas espantosas semelhanças com a realidade…mas buscando referências a vários passados que conhecemos, como sejam o Nazismo e o Fascismo, livros como o Admirável Mundo Novo de Huxley e 1984 de Orwell, identificando-se com o filme The Matrix, ao nível do objecto cinematográfico, por exemplo.

EQUILIBRIUM 1 - POSTER

A história é simples de contar e nada complexa. Guerra devastadora – a Humanidade sobrevive – passa a reger-se por um novo código de conduta – Objectivo: para evitar novas guerras – criar a ordem – impor à força essa ordem se necessário.

O regime torna-se pois, monolítico, e decide como curso de acção primário, eliminar a guerra eliminando as emoções, o “sentir”. (Conhecemos isto actualmente sob a forma da suave ideologia do pragmatismo…)

Para se eliminar o “sentir” é necessário eliminar todos os objectos que façam as pessoas “sentir”. Livros, arte, música, toda e qualquer expressão de individualismo é proibida e punível com a morte. Eliminando o “sentir”, o resultado será o desaparecimento da guerra, da inveja, do conflito, de “sentimentos negativos” e o desaparecimento de tudo o que faz de nós faz, afinal, Humanos.

Para impor o poder, a ordem artificial e a autoridade visível simbólica, cria-se a figura tutelar do “Father /Pai” como símbolo de liderança.

Para conseguir fazer subsistir esse poder de forma não desafiada e essa ordem indisputada cria-se a força guerreira de elite denominada “Tetragrammaton”, cujos agentes são chamados de “Clérigos Tetragrammaton”.

Especializados na arte marcial da ” GunKata”; uma super forma de luta criada por estatística e métodos informáticos, para gerar eficiência no combate; super soldados especializados em esmagar qualquer dissidência. ( A ideia de mercado aqui é atrair o público “jovem” e simular um filme Matrix diferente…)

Porque é que a alegoria desta distopia é muito interessante?

Porque o realizador/autor do argumento chamado Kurt Wimmer só tinha 20 milhões de dólares para fazer o filme e “teve que criar” a ilusão que tinha 100 ou 200. Criou essa ilusão e paralelamente, apesar do argumento não ser exactamente o ponto mais forte, conseguiu extrair dos actores o máximo, tendo ainda obtido Christian Bale como protagonista e este é mesmo um excelente actor. (Todos os outros acompanham de resto poderosamente a figura estranha que Bale representa , o Clérigo Tetragrammaton John Preston)

Wimmer, jogando com o argumento que tinha, procurou referencias a vários outros filmes – livros – distopias criando uma completa subversão e distorção dentro do argumento passando uma mensagem em várias dimensões.

equilibrium-comicio

Observe-se o totalitarismo que é procurado mostrar neste simples imagem que o realizador faz. Está a haver um comício/sessão de esclarecimento, cheio de palavras bombásticas e exortações acerca do acto de vencer dos Librianos – habitantes que estão a escutar isto. São declarados livres e vencedores. No entanto ao centro da imagem um guarda armado até aos dentes vigia olhando para a multidão, para verificar se existem desvios à norma.

A mensagem é anti ideologia, mas não anti ideológica. E não só anti ideologias comunistas e fascistas, mas também contra o actual novo truque de mercado ideológico chamado “neo liberalismo económico”. Conjugado com o lançamento de pistas de reflexão acerca do que é liberdade individual e “sentir”, e de “resistência” numa sociedade crescentemente “normalizada”

Tudo isto ao mesmo tempo metido dentro de um aspecto estético bem conseguido, jogando com as cores, branco e preto e indo filmar para Berlim, (para poupar nos custos, mas o simbolismo e a alusão são óbvias, porque existiu em Berlim o que se sabe).

EQUILIBRIUM 2- ORWELL

Na imagem em cima pode ver-se isso mesmo, com a imagem do “Father” omnipresente nos ecrãs da sociedade normalizada (também uma alusão aos omnipresentes placards publicitários electrónicos das cidades) debitando a sua mensagem – a inspiração retirada do filme/livro 1984 é notória, embora aqui filmada à escala de rua, já não de uma casa ou num local de trabalho

Christian Bale/ Jonh Preston é o melhor, o mais eficaz, o mais desapiedado Clérigo tetragrammaton. Tem uma especial capacidade para perceber quem à sua volta está a sentir.

Minuto 14: Preston fala com Errol Partridge antes de lhe dar um tiro.

Partridge: sempre soubeste. (Perante a aproximação de Preston)

Partridge (lendo de um livro de W B Yeats) : “mas eu sendo pobre, sempre tive os meus sonhos”. Espalhei os meus sonhos debaixo dos teus pés”. Caminha gentilmente pois caminhas sobre os meus sonhos”

Partridge: Preston, presumo que sonhas.

Preston: Farei o que for possível para que sejam brandos contigo.

Partridge: Ambos sabemos que eles nunca são brandos.

Preston: então peço desculpa.

Partridge: Não.Não peças. Tu nem sequer sabes o que isso significa.

É uma palavra para um sentimento que tu desconheces.

Preston, não vês? Acabou:

Tudo o que nos faz ser o que somos é negociado.

Preston: não há guerra. Não há assassínio.

Partridge: o que achas que é aquilo que fazemos?

Preston: não.

Tu tens estado comigo. Tens visto a guerra, a inveja.

Partridge: Um preço elevado.

Eu pago-o com prazer.

Este diálogo corresponde à imagem mais abaixo tida na obscuridade, quando Preston mata o seu colega Errol Partrdige, pelo crime de sentir.

Toda a população toma uma droga chamada “Prozium”( Prozac+Equilibrium) e vai todos os dias ao “Equilibrium”( a farmácia…) buscar a sua dose. Preston é tão bom, que chefiou a unidade que executou a sua própria mulher, sendo que esta, um dia, deixou de tomar Prozium e passou a sentir. Preston também persegue e mata o seu parceiro Sean Benn/o clérigo Errol partridge, que deixou de acreditar na farsa , deixou de tomar Prozium e começou a sentir.

O que despoleta a situação que irá fazer Jonh Preston começar a agir.

Este é “estranho” mesmo para os padrões da sociedade onde está e que nos é descrita. No fim entrevemos porquê: Preston é brutalmente dissociado de outras pessoas, é indiferente, quer tome ou não tome Prozium. Consegue parecer estar a sentir, mesmo não o estando. Consegue ser frio, mesmo não tomando drogas para isso. Preston mantém as suas capacidades guerreiras ao mesmo nível quer sob o efeito de Prozium quer não.

Preston liberta-se da sociedade opressora, precisamente através do significado simbólico poderoso que isso representa: o ser capaz de usar as suas capacidades de luta através da arte marcial da Gunkata, mas sem precisar de tomar Prozium para amplificar essas mesmas capacidades

Preston, é livre de tomar a decisão de atacar sozinho o sistema, por dentro, porque assim decidiu e assim o pode fazer.

Precisamente pelas características que Preston tem os seus superiores sabem disso e temem-no e decidem fazê-lo precipitar no erro, para dessa forma melhor o abaterem.

Põe-no em causa pelo facto de ele ter vivido com a sua mulher e nunca ter desconfiado que esta não tomava Equilibrium. Põe-no em causa pelo seu parceiro, o clérigo Errol partridge por este ser o companheiro que Preston não viu que se desviou do rumo.

Põe-no em causa porque existem cada vez mais habitantes que se estão a libertar por si próprios da toma do Prozium e a quererem fruir as coisas proibidas.

Põe-no em causa usando o seu novo colega, um novo clérigo, ambicioso de nome Brandt.

EQUILIBRIUM- ESTÉTICA

Esteticamente em “Equilibrium” que predomina é o preto, o cinzento e ocasionalmente o branco para estabelecer o contraste. Mas oq ue é muito bem feito a níveld e imagem é precisamente o que esta acima mostra: uma simulação de igreja com vitrais por onde uma ténue luz passa – uma ténue liberdade , enquanto cá em baixo, o clérigo, que se entrevé na imagem desroi a liberdade destruindo as suas vitimas.

A técnica de filmagem é soberba uma vez que isto é feito sem recurso a efeitos especiais, mas sim através da filmagem clássica, jogando com a luz, o tamanho da sala e dos contrastes, e fazendo por exemplo, “combates” no escuro, onde apenas se vê algo a acontecer muito depressa com raios de luz simulando disparos de balas. Percebe-se o que é , mas não se percebe o que é.

Existem várias coisas admiráveis em termos de verificação da liberdade humana neste filme e que actuam como exemplos. Umas das cenas notáveis é o facto de Preston ao segundo dia, em que deixa de tomar Prozium, começar a reparar em pormenores que antes lhe passavam despercebidos. Uma alegoria muito interessante é a passagem pelos subterrâneos da população (uma alusão ao metropolitano) onde toda a gente caminha sempre na mesma velocidade e com o mesmo ar.

EQUILIBRIO-METROPOLITANO

Desperto, Preston começa a reparar nos “companheiros de viagem”. E percebe-se que existem alguns, por pequenos gestos, como por exemplo roçar as mãos para sentir o corrimão da subida, que estão “fora” do efeito da droga Prozium, mas que tem que disfarçar essa condição e viver, optar por viver, dentro da sociedade, até para, por dentro, fornecerem informações a quem está de fora a lutar para a alterar.

Preston é traido, até porque começa a dar a entender já não estar sob o efeito de Prozium. É sumariamente julgado e condenado e está para ser executado quando se liberta.

O gatilho inicial disto tudo é o dia seguinte à execução do seu companheiro Partridge. Preston, de manhã, deixa cair a sua dose de Prozium e não toma uma nova.

E é a partir dai que tudo se desenrola. No final, Preston destrói por dentro o regime.

Já movido, nesta altura pelo sentimento de vingança e pela lembrança de como a sua mulher morreu. E isto após já vários dias em que não tomava Prozium. Vem também a descobrir que os seus filhos que o controlavam e que ele controlava, (uma sociedade onde todos se controlavam a todos) fingiam para ele, e que, na realidade, já não tomavam eles próprios, desde a morte da mãe, a droga Prozium.

Descobre Preston no fim, que, ao ter um diálogo frio e rápido com o número dois do regime, que o “Father”, o Pai, já não existia, (era o número 2 que o substituia) antes apenas a imagem do mesmo a debitar mensagens de propaganda e que o próprio número 2 do regime também não tomava a droga Prozium.

Libria, a terra totalitária, era controlada pelos ecrans de plasma espalhados pela cidade. Tipos vestidos de castanho, com uma indumentária bizarra afadigavam-se a comandar computadores, olhando para ecrãs de plasma.

Preston destrói o comando.

A imagem muda e cá fora, nas ruas daquela cidade totalitária, os guardas vestidos de preto, continuavam por todos os lados, armas na mão. Impondo a sua presença simbólica de força sobre os cidadãos anestesiados.

Ecrãs de plasma enormes passavam as imagens. A imagem muda, e vêem-se ecrãs na cidade a interromperem as imagens entorpecedoras que transmitiam. Os guardas continuam imóveis.

A última imagem que se vê no filme é a população, subitamente livre de constrangimentos, a rebelar-se e a atacar todos os guardas de preto que patrulhavam toda a cidade.

equilibrium-rebelião

Uma rebelião a sério tinha começado.

Written by dissidentex

06/05/2008 at 22:20

TABACO. LIBERDADE. FUTUROS.

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No dia 5 de Agosto de 2006, devido à inspiração do totalitarismo que insidiosamente se instala na Europa e, como uma consequência disso, um comissário europeu pensou e inspirou a criação de uma legislação especial feita em nome da liberdade. Uma legislação que impedisse eventuais candidatos a emprego de serem contratados por empresas, caso fossem fumadores.
Até hoje, não se conhece nenhuma proposta de legislação feita por um comissário europeu, que impeça as empresas de contratar viciados em drogas.

Além desta situação infringir o direito ao trabalho, e interferir directamente na vida privada das pessoas e na sua liberdade individual é uma norma discriminatória. Combate-se o tabaco com discriminação – uma campanha negativa, estigmatizando os fumadores como criminosos em vez de se incentivar de forma positiva as pessoas a não fumar.

Reorientando este post, mas relacionado com o tema acima, passemos a um ângulo ligeiramente diferente de análise.

Cinema. Como exemplo, um filme que sempre me fascinou.

STALLONE1


Globalmente não é um grande filme. Nem sequer no género e público para o qual foi feito.

Realizador, argumentista, alguns actores não tiveram unhas para fazer uma obra clássica do género, para produzirem uma distopia eficiente.

O filme, de 1993, chama-se Demolition Man.

Actores principais: Sylvester Stallone (Jonh Spartan), Sandra bullock (Lenina Huxley) , Wesley snipes (Simon Phoenix) e Nigel hawthorne. (Dr.Cocteau)

3/4 do filme são apenas pancadaria e boçalidade exercitada pelas personagens de Stallone e Snipes – em constante combate um com o outro e destruindo milhões de adereços.
Quando a acção passa a Sandra Bullock e Nigel hawthorne (especialmente este) e alguns dos restantes secundários; as coisas mudam de figura.

Estas personagens secundárias são as melhores, mas o enredo do filme foi apenas orientado para a destruição por destruição, o que estraga o filme e as possibilidades do argumento serem imensas caso fosse bem trabalhado.

Uma parte do filme, a única que interessa para este post ( e no próprio filme, diria), mostra uma visão distópica totalitária muito interessante, do que seria uma sociedade orientada segundo os padrões de comissários europeus ( e outros do mesmo estilo) que querem fazer leis anti fumadores e anti tabaco (e anti sexo, e anti comida e anti qualquer outra coisa…).

No filme, existe uma aproximação descritiva a um tipo de sociedade semelhante.
Insidiosamente está-se a implementar. Ou a serem feitas tentativas para isso.

Para demonstrar e explicar isso é necessário contar, brevemente, a história do filme.

Ano de 1996.

  1. Caos descontrolado na ruas de Los Angeles.
  2. Anarquia social e crime galopante.
  3. Violência urbana intensa.

Policia e criminoso defrontam-se. Métodos completamente destrutivos ( Stallone e Snipes).

Na sequência do ” confronto final” entre ambos; após uma destruição imensa, a personagem de Snipes ( criminoso) é preso e Stallone (polícia) … também.
Os métodos policiais de Stallone originam mais de 100 vitimas ao perseguir o criminoso Snipes. Stallone é, dessa forma, condenado a ser alvo de “criogenia”. Posto a dormir ( A criogenia como tecnologia é ainda incipiente…).

Stallone (a sua personagem) será reavaliado para eventual libertação, algures em 2046. Conjuntamente com Stallone, a outros criminosos irá acontecer o mesmo.

Mudança de cenário.

No futuro, em 2046 a sociedade “evoluiu”.
Não existe crime;
Tudo é asséptico, limpo e asseado.
Devido a prévias guerras, epidemias e violência, o Dr cocteau ( personagem de Nigel Hawthorne), o líder supremo – também ditador benevolente e paternalista desenvolveu uma “Cidade Estado” a que chamou “San Angeles”.

Onde tudo parece funcionar de forma perfeita. Demasiado perfeita.

Toda esta ordem asséptica gera cidadãos infantilizados.

A “ordem” é tão certa que origina o seu reverso. Excluidos. Marginalizados, Sub cidadãos. Origina um movimento de “resistência” contra a ordem asséptica.

  • Asséptica, mas controladora e totalitária.
  • Anti pulsões emocionais e sociais.

Resistência essa que, segundo o personagem “Dr Cocteau”,”perturba a ordem e a paz universal”.

Há que tomar medidas.
A resistência é continua, regular e chata.
Pior: ameaça criar dissidência organizada e adquirir mais apoiantes .
O Dr Cocteau tem a infeliz ideia de ressuscitar Simon Phoenix, o criminoso – mor(Snipes), do seu sono criogénico.
Trabalho de Phoenix: terminar com a “resistência e especialmente com o seu líder”.

Phoenix é liberto, encarregue de destruir o líder da resistência
Mas, como personagem psicopata que efectivamente é, começa imediatamente a matar e a destruir tudo o que vê de forma aleatória; apenas violência gratuita.

O feito numa sociedade, destituída de qualquer tipo de violência é tremendo.
Numa sociedade onde o conceito foi erradicado é enorme.
Uma sociedade onde as pessoas não estão habilitadas e habituadas a lidar com violência.
Um sociedade onde não existe um crime há 20 anos.
Os conflitos não existem.

Percebe-se daquela descrição a existência de uma forma de Estado misto neo liberal/comunista; mas, onde os conflitos são arbitrados não pelo Estado, como entidade, mas sim pela “Empresa privada” e respectivos associados do Dr Cocteau que faz o papel de “Estado personalizado nele mesmo”.

  • O resultado de toda aquela normalização, por exemplo, origina uma única empresa de pizzas.
  • Maquinas colocadas nas ruas ordenadas de simétricas; disponíveis para “dizer a pessoas” frases de conforto psicológico – que elas são as melhores pessoas do mundo.
  • Através destes quiosques de bem estar combate-se quem se sente mal, deprimido psicologicamente.

A estação de musica local apenas transmite jingles promocionais de produtos vendidos nos anos 50 do século 20.
Como esses jingles são de tal forma ingénuos (pertencem aos primeiros tempos da publicidade) na sua concepção que apenas parecem e são infantis.
Próprios para crianças.

O acto sexual é asséptico.

Existe um capacete virtual que produz estímulos neurológicos aos dois participantes no “acto”.
Ali isso é sexo.
Não há contacto físico.
“Sexo limpo”.

Extractos do diálogo do filme retirados do fractura.net

——

Lenina Huxley: The exchange of bodily fluids, do you know what that leads to?
John Spartan: Yeah, I do! Kids, smoking, a desire to raid the fridge.

Simon Phoenix: All right, gentlemen, let’s review. The year is 2032 – that’s two-zero-three-two, as in the 21st Century – and I am sorry to say the world has become a pussy-whipped, Brady Bunch version of itself, run by a bunch of robed sissies.

Edgar Friendly: You see, according to Cocteau’s plan I’m the enemy, ’cause I like to think; I like to read. I’m into freedom of speech and freedom of choice. I’m the kind of guy likes to sit in a greasy spoon and wonder – “Gee, should I have the T-bone steak or the jumbo rack of barbecued ribs with the side order of gravy fries?” I WANT high cholesterol. I wanna eat bacon and butter and BUCKETS of cheese, okay? I want to smoke a Cuban cigar the size of Cincinnati in the non-smoking section. I want to run through the streets naked with green Jell-o all over my body reading Playboy magazine. Why? Because I suddenly might feel the need to, okay, pal? I’ve SEEN the future. Do you know what it is? It’s a 47-year-old virgin sitting around in his beige pajamas, drinking a banana-broccoli shake, singing “I’m an Oscar Meyer Wiener”.

——

Tabaco e álcool foram banidos.
Gordura na comida também.
É proibido praguejar.
Máquinas colocadas por todo o lado emitem uma multa e uma declaração “violação do código de conduta moral” – multa de 20 créditos.

A descrição da mentalidade totalitária impondo a perfeição absoluta a todos.
Padrões iguais para todos.
Comportamentos estilizados para todos.
Queiram ou não queiram.

A lógica social ali descrita é invertida.

Todos tem o dever – primeiro – de seguir as regras .
Não tem o direito – depois – de as quebrar.

Caso quebrem são considerados dissidentes perigosos que querem subverter o Estado – a empresa privada que controla aquilo ali descrito.
———————————————————————–
Actualmente.

Os fumadores estão a ser vistos desta maneira.
Como perigosos subversivos em potencia de um Estado que se quer “limpo” de impurezas.
Como argumentativamente , é difícil de fazer passar isto, é necessário por os cidadãos uns contra os outros.
Como?
Sobrepondo o direito do não fumador sobre o do fumador.

Estigmatizando o fumador como culpado, por lei.
E sujeito a coimas altas e perseguição.
Patrocinando o conflito entre cidadãos – os que fumam e os que não fumam.

Apresentando razões de saude pública, como imperativo para proibir fumo e fumadores.
——

Termino citando o post do Fractura:STALLONE2


E é por isso que o guru da cidade ressuscita o vilão interpretado por Wesley Snipes – para os eliminar, para acabar a revolta dos que querem viver livres da higiene. E porque a sociedade civilizada não é violenta, abomina a violência, a falta de saúde, a fealdade, a falta de educação, a comida gordurenta, o fumo. São limpos, limpinhos.
Mas não são livres. E não querem ver os outros livres.
Um grande filme, o Demolition Man.

Written by dissidentex

10/01/2008 at 0:37

PROJECTO TOTALITÁRIO. LIBERDADE. DISTOPIA.

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Tipo: Post do legoergosum / José Luís Sarmento.

Tipo: Post do Esquerda Republicana que demonstra o anterior.

Tipo:Post do blog “o Reino da macacada” que demonstra os anteriores.

Tipo: um texto que eu escrevi relacionado com este assunto. O ultimo texto deste post.

1616 palavras. Duas imagens.

Todos os textos estão relacionados embora pareçam que não e são sobre: a construção de uma oligarquia odiosa assente na Distopia totalitária completa e esquizofrénica, à qual chama de democracia, recrutando, no entanto, as características da antiga ordem feudal de há 50 anos atrás.

Põe a questão JLS no primeiro post: como poderemos defender-nos.

No ultimo texto existe um esboço de resposta meu. Não chega, mas é um bom ponto de partida.

Sugestões aceitam-se.

1 ——————————————

À medida que avança, o projecto vai ganhando contornos nítidos. No topo, os Senhores: uma aristocracia de empresários e políticos. Imediatamente abaixo virão os escudeiros: a aristocracia menor dos gestores e dos jornalistas.

Tudo o resto está destinado a ser plebe.

O problema, para os candidatos a Senhores, é que nesta massa imensa se incluem pessoas capazes, por formação cultural e conhecimento técnico, de lhes fazer frente e perturbar a ordem neo-feudal que pretendem construir. Não admira, portanto, que o esforço principal desta guerra se dirija de momento contra as «corporações»: trata-se de proletarizar primeiro, e de submeter a seguir, os juízes, os médicos, os professores, os técnicos – em suma, destruir a classe média e desarmar a sociedade civil.

Veja o leitor por si mesmo, atendendo ao que está a acontecer na sua profissão, se não é isto que se está a passar. E não só em Portugal: a nova Idade Média vai caindo sobre o mundo inteiro como um crepúsculo da democracia.

Como poderemos defender-nos? No ancien régime houve corporações que usaram como arma os conhecimentos técnicos de que dispunham e de que os Senhores necessitavam. Fizeram segredo dos seus saberes e organizaram-se em associações clandestinas, as quais com o tempo tempo vieram a dar origem às maçonarias. Receio bem que de futuro venha a ser esta a nossa única opção, se não conseguirmos agora derrotar a oligarquia.

2 —————————————-

Por exemplo, uma coisa importante nas escolas privadas são os amigos. A possibilidade de controlar com quem é que os nossos filhos se dão é uma vantagem importantíssima na educação deles.

Nos anos do cavaquismo, um amigo meu, a trabalhar numa empresa financeira qualquer, perguntou a um banqueiro amigo do pai porque é que o banco dele tenha deixado sair um determinado gestor (que segundo o meu amigo era extraordinariamente competente e tinha acabado de começar a trabalhar na empresa dele). O banqueiro respondeu que o gestor em questão “era de baixa extracção”. O meu amigo riu-se e perguntou se ainda fazia sentido nos anos oitenta ser-se snob no mundo dos negócios. O banqueiro respondeu-lhe que havia pessoas que eram de confiança – “dos nossos” – e pessoas que não eram de confiança. Por exemplo – dizia o banqueiro – a seguir ao 25 de Abril, uma data de trabalhadores de longa data tinham-se identificado com a revolução e não hesitaram em atacar os interesses do banco e das empresas da família dele. Lugares de responsabilidade deviam ser dados a “pessoas de confiança, com os mesmos valores que nós.”

3 ———————————

Um pequeno texto já com 10 anitos em cima que andava por aqui guardado. Uma certa clarividência não nos pode deixar indiferentes.

David Apter forneceu-nos uma descrição das nossas socieda­des desenvolvidas, prósperas e democráticas, que se pode resumir assim: a modernização e a rápida mutação tecnológica cria­ram três categorias distintas de cidadãos – as elites, que controlam o saber e o dinheiro; uma massa de “funcionalmente significantes”; e os “funcionalmente supérfluos”.

Já não se trata, pois, de uma divisão por classes em que,com mais ou menos benefícios, mais ou menos poder, mais ou menos trabalho, quase todos tinham uma utilidade social. Trata-se de um novo grupo dos “funcionalmente supérfluos”, dos que não servem para nada, dos excluídos, no verdadeiro sentido da palavra. Os que “apenas têm presente” e para os quais os sistemas de aprendi­zagem, que exigem a noção de futuro, não fazem sen­tido. Não interessa se são imigrantes ou autóctones, os imigrantes com especialização (“funcionalmente significantes”) podem ser absorvidos, os outros juntam-se irremediavel­mente ao exército dos “supérfluos”, dos marginalizados. Todos constituem um gru­po de “elevado risco” e acabam por causar “mais custos sociais”, que têm de ser pagos pelo mer­cado politico em con­traposição ao” mercado económico” que os gera.
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ANIMALFARM Há muitos anos atrás, quando eu tinha muitas ilusões acerca do que era Portugal, adquiria regularmente, nos seus primeiros anos de vida, o Jornal Público. Num qualquer artigo de fundo que lá li vinha explicada a seguinte situação que se tinha passado nos EUA. Isto relacionado com direitos cívicos, cidadania, acções concretas que cidadãos podem fazer para alterar “um certo estado das coisas”. Era um caso absolutamente claro de discriminação – racial – mas o que importa para a situação é que era discriminação que tinha um fundo mais amplo do que ser somente a cor da pele. E quem ler isto e pensar que a questão que estava em causa era só a cor da pele está redondamente enganado. O caso era o seguinte.

Um supermercado no sul do Estados Unidos, numa determinada cidade, não pertencente a nenhuma cadeia de supermercados, tinha a política “oficiosa” de não contratar pretos. O dono, por razões que já não me lembro, mas que lembro que não eram só de índole racista não contratava pretos para trabalhar no supermercado. Pura e simplesmente não contratava.

Um belo dia uma associação cívica de pretos da área fartou-se da brincadeira e decidiu dar uma lição ao dono do supermercado. Contratou um tipo que era, salvo erro, advogado especializado, ou pelo menos que tinha experiência em problemas de discriminação laboral ou outras semelhantes para que ele resolvesse o problema a contento das partes.

O tal especialista podia ter entrado de forma “normal”a funcionar, de acordo com a mentalidade típica portuguesa que é a seguinte: só através de manifestações, barulheira e chinfrim é que se vai lá. Felizmente para ele e para os pretos da associação que representava, ele olhou para o caso em questão e percebeu que aquilo tinha outro tipo de nuances.

Como tinha outro tipo de nuances, decidiu acertar um directo em cheio no estômago da discriminação praticada pelo supermercado. E como fez?

Contratou por um dia 200 pretos. Pretos é a palavra politicamente incorrecta. Para que conste sou incorrecto politicamente. E para quê os contratou? Para escavacarem as instalações? Fazerem comícios à frente do supermercado? Andarem com carros e megafones à volta a gritar palavras de ordem?

Nada disso. Deu-lhes a seguinte missão. Entrariam a partir das 9 da manhã na loja, passeariam dentro dela entre 5 a 10 minutos, comprariam uma pastilha pagando com muitas moedas e assim perderem tempo – algum tempo na caixa a pagar – e sairiam. Após sair um, entrava outro e assim sucessivamente durante o dia todo. Parece que isto durou uma semana inteira. Finda a qual, o dono do estabelecimento começou a contratar pretos para lá trabalhar.

Parece que a visão de jovens pretos, como clientes que vagueavam durante um dia inteiro, no supermercado, começou a afastar os clientes normais, tradicionais e regulares do supermercado e começou a afectar fortemente as vendas. No mesmo artigo do Público; se bem me lembro vinha a ideia e a descrição de como isto – um acto semelhante a este – seria danoso aplicado a um banco comercial – a uma simples sucursal.

Parece que, se 100 pessoas abrirem conta durante um dia e 100 pessoas a fecharem durante um dia isto é suficiente para engasgar um sistema informático inteiro de um banco. Pelo menos à época em que eu li a história era. Penso que actualmente ainda é.

Isto é a versão …… suave …… e bem educada …… do que certo fundamentalismo faz. Guerra assimétrica para destruir a civilização ocidental. (O que não significa que eu apoie o tipo de guerra assimétrica fundamentalista em questão, note-se.)

Contudo, nós cidadãos individualmente considerados estamos – quase todos – colocados na mesma posição de ter que fazer guerra assimétrica. A posição de quem está a ser lentamente escravizado, por um poder autocrático e de tendência totalitária. Por uma oligarquia que quer criar uma distopia e chamar a isso “democracia”.

A denominada classe política – empresarial – elite brasonada, despreza intensamente aquilo que se denominou chamar de “o povo”. São chamados de “cidadãos” apenas para fins propagandísticos. Como “despreza” o povo, não tem por ele qualquer tipo de respeito e comporta-se exactamente como se comporta um rufia que faz intimidação. A única resposta à dar à intimidação é responder – inteligentemente; organizadamente; sistematicamente, regularmente – a ela.

Vivemos num mundo, eficaz. Dizem-nos. Então o que importa “é a maneira” como respondemos à intimidação – é a classe e a eficácia de como respondemos, e não o barulho inconsequente. Se existir pressão, sistemática, regular, consistente, inteligente, feita por muitas pessoas ao mesmo tempo, de vários lados e de vários sítios do país, sobre vários assuntos diferentes, a cobardia do poder aparece imediatamente.

  • Sobre o tratado constitucional europeu
  • e sobre funcionalismo público.
  • Sobre saude
  • e sobre educação.
  • Sobre objectivos estratégicos deste país
  • e sobre inteligência ecónomica.
  • Sobre empresas privadas e sobre concessões feitas a empresas privadas.
  • Sobre muita coisa.
  • Afastando os partidos políticos de quaisquer tentativas de interferência nisto.

    Já tiveram 33 anos de oportunidades e falharam todas gloriosamente.

    Não são de confiança.

    Resta saber se as pessoas estão dispostas a auto organizarem-se.

    Resta saber se as pessoas NÃO estão cansadas de liberdade.

    Written by dissidentex

    29/11/2007 at 15:37