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Archive for the ‘FILMES’ Category

HOT FUZZ.

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AGENTE NICHOLAS ANGEL !

Agente da Polícia Nicholas Angel. Nasceu e estudou em Londres.

Completou a Universidade de Canterbury em 1993 com distinção em política e sociologia.

Fez o treino no Instituto de Polícia de Hendon.

Mostrou grandes aptidões nos exercícios práticos.

Especialmente, pacificação urbana e controlo de tumultos.

A sua carreira académica foi brilhante nos trabalhos teóricos e nos exames finais.

Recebeu o Bastão de Honra.

Graduou-se com distinção, ingressando na Polícia Metropolitana.

Depressa provou a sua eficiência e se tornou popular na comunidade.

Melhorou as suas aptidões com cursos de condução avançada e ciclismo avançado.

Envolveu-se profundamente em diversas actividades extra curriculares.

Detém o recorde da Polícia Metropolitana dos 100 metros.

Em 2001 entrou ao activo na divisão de resposta armada OE19.

Foi premiado pela sua coragem e trabalho na resolução da Operação Crackdown.

Nos últimos 12 meses recebeu nove louvores especiais.

Bateu o recorde de detenções da Polícia Metropolitana.

E foi ferido três vezes no cumprimento do dever.

O mais recente foi em Dezembro, quando foi ferido por um homem vestido de Pai Natal.

– Olá, Nicholas. Olá, Sargento.

– Como está a mão? Ainda está um pouco rígida.

As ruas podem ser muito perigosas.

Espanta-me que ainda não tenha pedido um posto à secretária. Eu fiz isso.

O meu escritório é nas ruas.

Sem dúvida.

O seu recorde de detenções é 400% superior ao de qualquer outro agente.

E está mais do que na altura de dar melhor uso a tamanha aptidão.

– Vamos nomeá-lo Sargento. – Compreendo.

– Em Sandford, Gloucestershire.

– Onde, desculpe? Em Sandford, Gloucestershire.

– Isso é no campo. Sim, é lindo.

Não há um posto de Sargento em Londres?

Não.

– Posso ficar aqui como agente? – Não.

– Tenho alguma escolha? Não.

Sargento, gosto disto aqui.

Sempre quis transferir-se para o campo.

– Sim, daqui a uns 20 anos. Então, aqui tem.

Não me lembro de lhe ter dito isso.

Disse sim. Disse:

“Um dia adorava ir viver para o campo, Janine.”

Gostaria de falar com o Inspector.

Pode falar com ele, mas garanto-lhe que ele lhe dirá exactamente o mesmo que eu.

– Olá, Nicholas. Como está a mão? Ainda está um pouco rígida.

– E como estão as coisas lá em casa? – Desculpe?

– Como está a Janine? – Já não estamos juntos, senhor.

– Bem. E onde está a viver? – Está na caserna.

– Com os recrutas? – Sim, vive como um vagabundo.

Bem, então já tem as malas feitas.

Nicholas, damos-lhe um belo cargo com uma casinha de campo, numa adorável povoação que penso que foi premiada Vila do Ano não sei quantas vezes. Irá fazer-lhe bem.

– Não sei o que dizer. – Sim? Sim, obrigado?

Não, lamento. Vou ter de…

– Quer discutir isto com os superiores? – Sim, quero.

Quer que incomode o Inspector Chefe?

Sim.

Quer que faça o Inspector Chefe vir até cá?

– Sim, quero. – Muito bem.

Kenneth!

– Olá, Nicholas. Como está a mão? – Ainda está um pouco rígida.

– Inspector Chefe… Sente-se.

Sei o que vai dizer,mas a questão é que anda a deixar-nos mal vistos.

Desculpe?

Todos reconhecemos o seu mérito, mas tem-nos desapontado bastante.

Trata-se de jogar em equipa, Nicholas.

Não pode ser o Xerife de Londres.

Se continuar a controlar a cidade, continuará a ser excepcional e não podemos tolerar isso.

Acabará por nos deixar sem emprego.

– Com todo o respeito, senhor – Não pode fazer uma pessoa desaparecer.

– Posso, sim. Sou o Inspector Chefe.

– Bem, dê as voltas que der a isto, há algo que não tomou em consideração.

E é o que a “equipa” irá achar disto.

– BOA SORTE NICHOLAS

Diálogo do filme “Hot Fuzz” que mostra bem todos os paradoxos da actual “civilização” moderna. A própria história do filme – um grupo de criminosos, mas todos eles pessoas “decentes e normais”, pilares da comunidade, é exemplar.

Estes “habitantes” hostilizam estranhos que chegam a uma aldeia inglesa apenas pelo facto de estes, pelo seu aspecto, perturbarem o bom aspecto da mesma e por via disso transformam a aldeia no local de Inglaterra onde não existe crime, podendo concorrer ao titulo de aldeia mais segura da Grâ Bretanha.

Para não perder o título, estas pessoas “decentes e normais” assassinam. Uma parte do crime é além disso inexistente porque é “legalizado” e permitido desde que “autorizado” pelas pessoas decentes e normais.

Mostra também a paranóia envolvente e o que daí pode resultar: câmaras de vigilância por todo o lado e o uso que delas se faz, por grupos organizados de cidadãos.

E o agente Nicholas Angel, por ser demasiado competente, é transferido para a aldeia onde não há crime. Rapidamente percebe que é onde há mais crime, é naquela aldeia.

A aldeia tem espantosas semelhanças com Portugal. Aqui também é tudo muito pacífico, mas muito corrupto e criminoso.

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Written by dissidentex

18/10/2008 at 12:01

Publicado em FILMES, HOT FUZZ, PERSPECTIVAS

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FILME – A SCANNER DARKLY – DISTOPIA.

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No filme “A scanner Darkly” baseado na obra de Philip K. Dick, (PKD) um escritor de ficção cientifica já falecido, temos a descrição de uma distopia muito especial.

A história é simples e tem espantosos paralelos com aquilo que se passa actualmente, não só nos EUA, mas no mundo, e para o que interessa pelos danos colaterais, em Portugal.

Uma empresa privada, chamada New Path (Novo caminho) combate uma epidemia de droga num mundo futurístico.

Essa empresa criou um sistema de camuflagem – uma capa – que é posta por cima dos agentes policiais que a envergam, para evitarem ser reconhecidos no trabalho de agentes disfarçados – pelos seus colegas. (Uma forma irónica de PKD de apontar a corrupção como problema existente…)

Constitui também uma metáfora acerca dos comportamentos sociais de quase todas as pessoas. A colocação de máscaras, de capas de camuflagem constantemente em mutação. PKD coloca as “capas” na história de uma forma indirecta, subtil.

Criticando esta “necessidade” e de como a sociedade joga este jogo de forma inconsciente e a um ponto em que dá quase por adquirido que isso é a verdadeira natureza humana.

A New Path (Novo Caminho) é também uma metáfora não só pelo nome que tem ( O novo caminho – caminho novo para onde e o quê? Um constante “argumento de venda” de empresas charlatães…) como também pelo facto de, no fim do filme, percebermos que a New Path é a empresa, a entidade que é responsável pela existência da epidemia de droga, a chamada “Substancia D”.

É uma tremenda parábola do que é a sociedade actual, mesmo nas relações pessoais. Isto é:

– A coisa é o veneno e o seu próprio antídoto – por um preço, que apenas alguns pagam com custos pessoais tremendos e muitos poucos beneficiam dos lucros manchados de “sangue”.

– Uma parábola para o que são as corporações?

Fabricam a droga, comercializam-na, provocando uma epidemia (dois em 8 americanos viciados…) e providenciam (1) quer os centros de reabilitação e tratamento, quer (2) os meios para lutar contra a droga (droga essa que os próprios criam).

Aqui temos outra metáfora, infelizmente verdadeira, e ali apresentada de uma forma distópica muito suave mas dura e cínica, mas não tão afastada da realidade actual quanto isso ( PKD escreveu o livro em 1977) acerca do que é o actual capitalismo (ou lá o que isto é…).

Uma máquina de criar problemas complicados de resolver e soluções lucrativas ao mesmo tempo que cria problemas complicados de resolver para providenciarem soluções lucrativas.

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A segunda dimensão do livro é a apresentação dos EUA (isto é, de uma versão da humanidade) como uma sociedade totalitária, mas baseada em algumas coisas bastante simples para aplicar esse mesmo totalitarismo e que passam se não olharmos para elas, como sendo liberdade.

A sociedade é totalmente desprovida de valores – sejam quais forem os valores – e sujeita a vigilância electrónica constante, que se materializa em escutas telefónicas e electrónicas quase instantâneas. A sociedade é monitorizada, mesmo dentro das suas próprias casas, devido ao uso intensivo de tecnologia, exercida pela polícia e de forma sistemática.

Esta alta vigilância (o conceito) é praticada e os recursos para ela existem, enquanto que, ao mesmo tempo, a epidemia de droga da Substância D floresce, o que leva à situação de a polícia/meios electrónicos servirem para vigiar potenciais traficantes de droga, mas também, e com isso, vigiarem tudo o resto.

Infere-se isso do conceito do filme baseado na obra de PKD.

Os meios tecnológicos são a oportunidade e a oportunidade é providenciada pelos meios tecnológicos.

A técnica totalitária é ali descrita em todo o seu esplendor; de uma forma crua.

1. Existe uma ameaça que é amplificada para ser mais terrível do que é.

2. A guerra travada contra essa ameaça é perdida. A ameaça concreta ali é a droga ( Substância D) originária de uma misteriosa flor azul.

3. Para combater a ameaça terrível, são necessários meios terríveis ( no filme não se diz isso, mas infere-se no decorrer da acção) – uma massiva vigilância electrónica apoiada por agentes de polícia infiltrados e informadores, originando uma redução das liberdades individuais de todos.

4. O patriotismo (e o dever) é aplicado como chamariz e agentes infiltrados são colocados no meio dos sítios de trafico para desmantelarem o fornecimento, mesmo que venham a ser sacrificados por isso em nome de um “interesse superior”.

E conjugado com isto, existe a dimensão humana individual e a luta de contrários, os demónios interiores, o logro e a decepção entre pessoas que juram não o praticar, o jogo de opostos entre a identidade real e a identidade falsa de quem vive entre dois mundos totalmente distintos, acabando por ficar sem perceber quem é e em qual dos mundos vive.

Keanu Reeves é Robert Arctor, o agente infiltrado, que, por via da capa de camuflagem, destinada a ocultá-lo (a sua verdadeira identidade) dos seus colegas policias, se infiltra.

Arctor (Reeves) para chegar à origem do fornecimento tem que tomar a Substancia D”- e com isso começar a fritar os neurónios…

E a coisa complica-se quando chega ao seu chefe de nome Hank e este (também a usar uma capa de camuflagem) diz-lhe para “acelerar a vigilância pessoal e electrónica” aos suspeitos com quem ele se dá e que vivem todos na mesma casa” e especialmente ao suspeito Robert Arctor, o que é o considerado o mais suspeito e é considerado como sendo o “traficante que levará aos cabecilhas”.

A coisa é assim bizarra para Arctor que recebe ordens do seu chefe, para se vigiar a si próprio. Quase como colocado numa dimensão em que é um espelho que se vigia a si mesmo, numa enorme metáfora acerca de como as pessoas se reprimem e se vigiam a si mesmas para controlarem comportamentos (alguns lícitos e outros ilícitos) que outros (a sociedade) não tolera.

A dimensão do jogo de espelhos, da traição e da manipulação virá no fim a ser – também – revelada quando percebemos que a namorada de Arctor no seu trabalho (e quem lhe fornece a droga Substãncia D) como agente infiltrado é na realidade o seu chefe Hank, disfarçado.

Hank, quando em “modo disfarce” chama-se Donna Hawthorne e era o principal fornecedor a Robert Arctor da Substancia D, sendo ela (ele) próprio um consumidor de cocaina.

Pelo meio disto tudo, de um ponto de vista cinematográfico/diálogos temos a demonstração de alguns diálogos brilhantes, que simbolizam a “pedrada” que a substancia D causa levando os personagens a delírios retóricos absolutamente doidos, bem como a terem visões de insectos que os estão a invadir (efeitos alucinatórios da droga) ou paranóias de perseguições e de “misteriosos eles” que estão a vigiá-los.

Arctor vive com Barris ( Robert Downey Jr) e com Ernie Luckman ( Woody Harrelson) dois passados da cabeça do pior e ainda com Charles Freck (Rory Cochrane), um informador da polícia completamente alucinado pela droga e que julga que está permanentemente a ser assaltado por insectos.

A personagem Barris é o “elo” que leva aos cabecilhas da New Path. É também doido e paranóico para láde usar uma retórica muito bem educada entremeada com palavrões e perdas de calma.

Origina uma cena hilariante quando chega à esquadra da polícia (a Hank e a Arctor disfarçados nas suas capas ) e diz que quer revelar à polícia que Arctor é o Arqui-mestre do crime, de uma conspiração, conjuntamente com Donna Hawthorne, e quer, após providenciar as informações, que o deixem alistar-se na polícia?1?1

Hank (Donna Hawthorne) e Arctor ficam boquiabertos com o facto de Barris os estar a denunciar ali à frente, sem saber as suas verdadeiras identidades e da crença dele…

(A metáfora aqui é também a do segredo totalitário e dos métodos das sociedades totalitárias…)

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Simbolizando muitas coisas, relacionadas com drogas, mas não só, há uma parte no filme muito interessante. O chefe de Arctor (Hank/Donna Hawthorne) revela a dada altura, numa reunião de trabalho com Arctor, que já descobriu que ele é que é o agente infiltrado (devido à capa de camuflagem não se conheciam previamente…).

Mas devido ao uso por parte de Arctor da droga “Substância D, este começou progressivamente a perder a noção ( luta entre os hemisférios direito e esquerdo do cérebro) de quem é. Ao ser-lhe revelado pelo seu chefe que este sabe quem ele é, Arctor tem dificuldade em perceber e fica surpreendido ao perceber quem é, começando a ficar desorientado e confundido já tendo dificuldades em perceber quem é na realidade.

Uma metáfora simbólica, muito bem construída por PKD, também, relativamente à maior parte das pessoas na maior parte das suas vidas e ao estilo de vida e de sociedade que temos.

Em que por vezes, encontram( tem a sorte de) alguém que lhes revela quem verdadeiramente são…

Arctor acaba por ser cuspido pelo sistema, e posto fora, uma vez que está incapaz de trabalhar e de distinguir quem é verdadeiramente: a Droga “Substância D” fritou-lhe completamente o cerebro.

Mas é-nos dado a ver, como metáfora do que é a vida em sociedade, que Arctor apenas foi um voluntário relutante para fazer aquele serviço, e que foi sacrificado em nome de se conseguir colocar alguém dentro das secretas quintas de reabilitação da New Path.

Para, esperava-se, da parte da polícia, vir a conseguir provar que a New Path é a empresa que produz a droga Substãncia D”.

É já um Arctor despedaçado e quase completamente catatónico que está numa quinta após reabilitação e descobre no meio de campos de milho verdes a flor azul que dá origem á Substãncia D”. Arctor, já despedaçado, como tantas pessoas numa dada sociedade o estão emocionalmente, percebe qualquer coisa.

E pega numa flor azul, para levar como recordação aos seus amigos do centro de acolhimento – uma ideia que nos é lançada enquanto espectadores, de esperança, de redenção, de que tudo que de terrível a vida tem poder vir a ser ainda corrigido pelo sacrifício de alguns, entregando as provas dos culpados, aos que perseguem os culpados utilizando métodos tão culpados como os que os criminosos o fazem.

O filme é “difícil” e não tem perseguições de carros, nem senhoras sem roupa. É filmado pelos actores e depois foi trabalhado em computador para dar a imagem de um filme visto através dos olhos de um scanner, mas um scanner humano (se é que se pode pensar assim…

Ficou obviamente com notoriedade pela “parte técnica” e não pela história…(Qual é a novidade…)

PKD escreveu o livro, também como “manifesto” contra a droga e o trafico de droga. No fim do livro incluiu uma lista de pessoas que conheceu, que morreram de overdoses ou ficaram com lesões permanentes. PKD incluiu o seu próprio nome na lista de pessoas que ficaram com lesões permanentes.

Mas não é só sobre droga, mas também sobre uma sociedade totalitária e sobre o individuo e os seus sentimentos acerca de saber quem é e qual a sua posição dentro de tudo isto.

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06/10/2008 at 14:38

A VIDA DOS OUTROS. FILME.

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Em 2006, foi feito um filme alemão chamado Das leben der anderen/A vida dos outros. Apenas conhecido em Portugal em 2007. É um excelente filmeA VIDA DOS OUTROS - 1 sobre totalitarismo, sobre uma sociedade totalitária. Não uma sociedade totalitária qualquer, mas sim a da RDA, já no período do final da mesma, nos anos 80 do século 20.

O filme pode e deve ser interpretado como uma critica ao socialismo real (também conhecido como comunismo…), mas deverá ser também interpretado com uma outra análise dupla. Quer ao (1) poder como conceito e ao uso que dele se faz e de como são facilmente corrompidas as pessoas em lugares de poder, e, noutra análise, no (2) lançamento de pistas hipotéticas para se perceber como se deve – em sociedade – tentar conter mesmo esse totalitarismo.

A história é muito interessante pelos problemas que coloca. Antes da queda do muro de Berlim a polícia secreta alemã fazia escutas sobre os seus cidadãos. Quais os pretextos para tal?

Quase nenhuns ou em alternativa pretextos inventados apenas movidos pelo desejo de uma qualquer pessoa dentro do sistema e não da lei vigente na terra e aplicável a todos.

Só por aqui está espelhado a completa corrupção do sistema comunista. No caso do alemão, de forma ainda mais especial, uma vez que este era a fina flor do comunismo de inspiração soviética; ou seja ainda “funcionava” melhor (dentro da lógica distorcida e retorcida de se considerar que uma sociedade comunista totalitária funciona melhor que outra sociedade comunista totalitária) que o que lhe deu origem, a URSS.

Um agente da polícia secreta – da Stasi – ao conduzir uma escuta sobre um escritor alemão e sobre a sua namorada, actriz de cinema, fica obcecado com isso, com “a vida dos outros”, sendo que os outros poderiam também ser metaforicamente considerados como “a população”.

Um escritor de talento, em ambas as Alemanhas, Georg Dreyman, e perfeito crente da sociedade onde vivia e estava, namora com Christa Maria Sealand (CMS), a melhor actriz do teatro alemão.

A VIDA DOS OUTROS - 5

CMS, representa, numa explicação que se queira adoptar, metafóricamente, o pior de nós; a ansiedade excessiva que nos controla os nosso actos, a cedência aos nossos piores instintos quando pressionados, a tendência para a deslealdade e a traição aos outros e a nós próprios.

CMS, tem ainda outro problema, que é, diga-se de passagem, um problema duplo em termos comparativos com a sociedade portuguesa. O (1) de existirem pessoas que não conseguem determinar qual é o seu real valor quer profissional, quer pessoal, porque a sociedade está assim estruturada, e (2) isso são características inerentes a sociedades totalitárias.

No filme, CMS, não sabe e não tem a noção do real talento que tem, e por isso tem imenso medo. Como tem medo, e precisamente pela dimensão do medo que tem, não quer perder a posição que tem naquela sociedade, e “vende-se” ao ministro Bruno Hempf, o prototipo do político asqueroso e totalitário; pensando que, pelo facto de aceitar fazer sexo com o ministro e devido ao “Poder” que este tem, isso lhe garantirá não ser removida para a prateleira do teatro. (Ou pior…)

A VIDA DOS OUTROS - 5

No meio disto, o capitão Anton Grubitz quer ser promovido. Com o apoio do Ministro Bruno Hempf e dos restantes círculos políticos dá ao agente da Stasi, seu ex -colega de escola, o agente Gerd Wiesler, a tarefa de montar uma específica operação de escutas electrónicas visando confirmar a traição (hipotética) do dramaturgo Dreyman.

Isto é o objectivo “oficial” , o objectivo oficioso é também a lógica distorcida aquele sistema e os desejos pessoais , a prepotência, o nepotismo e a corrupção do ministro Bruno Hempf que quer ter para si para usar à vontade CMS, a acrtiz estrela do teatro alemão.

A história é simples ao nível do argumento e linear. Observando de um nível pessoal, como drama, é um triangulo amoroso. (Ministro Hempf, Actriz CMS, Dramaturgo Dreyman.

O realizador do filme insere a política, como um dos elementos motivadores do triangulo, mas querendo com isso mostrar outras coisas. A censura inerente ao regime e a intensa corrupção burocrática do mesmo.

Dreyman, o dramaturgo tem sucesso, mesmo que publique na Alemanha do oeste, a antiga RFA. Namora com CMS, a melhor actriz. Apoia o sistema. Tanto êxito” burguês gera “inveja” e gera proeminência que não pode ser tolerada pelo regime e gera cobiça do ministro Hempf.

Este apoiado nos desejos de subida de carreira do capitão Grubitz ordena escutas na casa de Dreyman. Grubitz, chama Wiesler, o melhor agente para este montar a operação. Wiesler vai até ao sótão do prédio de Dreyman, instala lá o equipamento embora previamente os microfones de escuta tenham sido colocados dentro dos interruptores da casa de Dreyman, e começa a escutar em busca de “conversas comprometedoras” de Dreyman com dramaturgos, artistas, o que fosse, que eram suspeitos ou estavam na lista negra do regime.

Wiesler, o exemplo do polícia dos serviços secretos – eficiente, frio, insensível começa aos poucos e poucos a transformar-se ao escutar a “vida dos outros”.

A VIDA DOS OUTROS - 3Duas cenas ilustram esta transformação. (1) Wiesler é-nos apresentado estando a dar cursos de formação, não do fundo social europeu :mrgreen: mas de futuros agentes da Stasi.

Está numa sala com alunos e explica-lhes porque é que no filme que lhes está a mostrar, onde se vê um opositor ao regime a ser interrogado este está a mentir. Através de técnicas de interrogação duras.

Um dos alunos interrompe-o e diz algo como” mas isso não é muito duro?”. Sem se perturbar, Wiesler vai explicar que não, mas ao mesmo tempo que o faz, marca uma cruz no nome do aluno, no papel que tinha à sua frente, e onde estavam os nomes de todos os alunos. Era uma má classificação para esse aluno.

A cena de interrogatório é objectivamente de uma violência psicológica tremenda sobre o interrogado.

(2) Quando se dirige com a sua equipa da Stasi a casa do Dreyman, para instalar os microfones, a vizinha da frente de Dreyman, nota a agitação. Prudentemente,olha pelo óculo da porta, não abrindo a porta. Wiesler dada a sua eficácia e sensibilidade para este tipo de coisas, percebe o facto e toca á porta.
A senhora abre e Wiesler imediatamente lhe diz para estar calada e não mencionar a ninguém o que acabou de ver, tratando a senhora pelo nome dela, e insinuando de uma forma terrível, que a filha dela poderá ter problemas no acesso à Universidade de medicina, caso desobedeça aquela ordem.

Este é o protótipo do funcionário burocrático Cyborg, destituído de sentimentos e apenas eficácia. Wiesler está convencido que Dreyman é um subversivo em relação ao Estado e que mais tarde ou mais cedo o apanhará nas escutas.

Á medida que vai escutando Wiesler altera-se e começa a perceber o drama da vida de Dreyman e toda a lógica de corrupção em que está metido. Percebe que Dreyman é alguém genuinamente “bom”, e não subversivo, e que são apenas os interesses políticos de topo do ministro Hempf e as maquinações do seu ex-colega de Escola Grubitz que estão a criar uma situação para que Dreyman seja “eliminado” não fisicamente mas moralmente e psicologicamente.

A dada altura, Wiesler fascina-se com o que ouve, querendo escutar mais; começa a adulterar relatórios sobre as conversas de Dreyman omitindo pormenores que sabia que poderiam ser considerados como desfavoráveis para este, mesmo sendo coisas inócuas, e no final safa de problemas Dreyman, e prejudica-se a si próprio.

Dreyman, que era um genuíno apoiante do regime, a dada altura e devido ao evoluir da situação e de várias histórias paralelas no filme:

– um amigo de Dreyman, o encenador de teatro Jerska, suicida-se, porque estava há uma série de anos na lista negra sendo impedido de trabalhar;

– um outro dramaturgo chamado Paul Hauser, em completa dissidência com o regime e cheio de impaciência pelo que se está a passar sempre que se encontra com Dreyman, pica-lhe o juízo moendo-lhe a cabeça e incitando-o a não desculpabilizar e a não colaborar com “aquilo”

(Qualquer semelhança com o que se está a passar em Portugal actualmente é pura coincidência…)

– o facto de ter percebido que CMS, a sua namorada andava a dormir com o ministro Hempf. A repressão política, artística, social era usada de modo instrumental para adquirir os favores sexuais dos artistas- é isto que se percebe.

Dreyman, descobre e explica-lhe que ela não tem de fazer “aquilo” porque ela tem talento e não preicsa de o fazer. CMS, cruelmente e com completa frustração à flor da pele conjugada com ansiedade responde que “também dormes com eles todos os dias”. Ela confronta-o -em resposta- com a infidelidade física dela (forçada ou não é para decidir quem vê o filme…) replicando que ele também se vende moralmente…

Como esta é a descrição de umaA VIDA DOS OUTROS - 2 sociedade onde existe vigilância; essa mesma vigilância que se aplica sobre a quase totalidade dos cidadãos de formas difusas, origina vários fenómenos.

A chantagem e as ameaças directas ou veladas sobre os cidadãos. Daqui até à delação e aos sentimentos de que, ” denunciar o outro” é bom, vai apenas um passo…

A delação, (também conhecida por denúncia) ao ser desta forma aceite, passa a ser mais um bem: assegura (A) Ou a sobrevivência, (B) ou a manutenção do estatuto político, ou (C) serve de moeda de troca.

Dreyman, decide fazer alguma coisa, (é a gota que enche o copo e o transborda, após ter percebido que CMS se vendia ao ministro…) quando o seu grande amigo, o encenador Jerska se suicida. Dreyman, decide denunciar o sistema RDA. Escreve um artigo a ser publicado no Ocidente, no Der Spiegel alemão, onde explica a técnica do suícidio na Alemanha de Leste.

Menciona no artigo que o departamento estatístico alemão de leste tudo sabe, de todas as estatísticas, mas não publica as de suicídio, e mais ainda, desde 1977, que as publicou pela ultima vez. A palavra suicídio é banida – impronunciável e impublicável – passando o assassínio a ter a designação oficial de “auto assassinato”.

Isto desencadeia uma perseguição das autoridades para saberem quem é que escreveu o artigo e as suspeitas recaem sobre Dreyman, mas não são provadas. CMS, mediante coacção e intimidação acaba por implicar Dreyman – o seu namorado – em troca de o seu estatuto se manter inalterado.

A Stasi surge , através do capitão Grubitz e da sua equipa em casa de Dreyman, para apreender a máquina de escrever indetectável que Dreyman usou para escrever o artigo e que estava escondida num determinado sitio da casa de Dreyman.

Delatada por CMS.

A Stasi não encontra a máquina, porque Wiesler, o agente da Stasi que escutava as conversas, apagou o rasto de provas e retirou a máquina do lugar.

Na sequência disto CMS acaba por morrer atropelada num acidente, ao sair da STASI e após ter vendido a alma, e ido até à casa de Dreyman, deixando quer Dreyman, quer o próprio Wiesler inconsoláveis, e fazendo o capitão Grubitz perceber que Wiesler tinha manipulado a informação das escutas e protegido Dreyman.

Que Wiesler tinha protegido a “vida dos outros”.

Este, pelas circunstâncias tinha sido levado a proteger aqueles que lhe cabia vigiar e tinha-se “humanizado”.

Nota: Podemos aqui fazer uma critica reflexiva alternativa. E afirmar que esta lógica pode ser vista como uma tentativa de suavizar o agente da Stasi, que apenas foi “metido na engrenagem da maquina” e que era tão inocente quanto as vitimas que aterrorizava. Que a culpa era do “sistema”,n ão das pessoas. Bom, as pessoas fazem parte do sistema…

O que leva à questão de se perceber que só a denúncia de sistema totalitários, de que tipo forem deve ser um imperativo ético e que a resistencia e a recusa de colaboração com o sistema são armas.

Ali,no filme, a “redenção” do agente da Stasi decorre da “comparação” que este faz entre o comportamento dos seus chefes – um comportamento abjecto e asqueroso – e a visão dos valores mais puros que ele ia escutando e percebendo ao escutar as suas vítimas. (A dada altura, entra dentro da casa de Dreyman, quando este não está, para lhe roubar um livro de poemas de Berthold Brecht para “assimilar” esse mesmo comportamento das suas vitimas, como se, através do acto do roubo do bem( livro) do outro (Dreyman) e da leitura do mesmo; Wiesler, o agente da Stasi, se pudesse “purificar”.

É um acto de desespero simbólico pessoal dele.

√ DIÁLOGO EM INGLÊS DEFININDO A TIPOLOGIA DOS ARTISTAS SUBVERSIVOS – manual de uso da Stasi ( O NÚMERO 4) E OS MÉTODOS A USAR.

Did you know that there are just five types of artists?

Your guy, Dreyman, is a Type 4, a “hysterical anthropocentrist.” Can’t bear being alone, always talking, needing friends. That type should never be brought to trial. They thrive on that. Temporary detention is the best way to deal with them. Complete isolation and no set release date. No human contact the whole time, not even with the guards. Good treatment, no harassment, no abuse, no scandals, nothing they could write about later. After 10 months, we release.

Suddenly, that guy won’t cause us any more trouble. Know what the best part is? Most type 4s we’ve processed in this way never write anything again. Or paint anything, or whatever artists do. And that without any use of force. Just like that. Kind of like a present.

Derivado do que ali está em cima, em inglês – que “muitos dos artistas de tipo 4 que a Stasi processava desta maneira nunca mais escreveriam, o mesmo acontece à personagem Dreyman. Cheio de desgosto e remorsos pelo facto de CMS ter morrido e nunca tendo tido a certeza de que teria sido ela que o teria traído entregando -o à Stasi, mas ao mesmo tempo não querendo acreditar nisso, Dreyman, não escreve,

Cai o Muro de Berlim em Novembro de 1989,e após a queda, Dreyman estánum teatro a ver ser representada a sua peça – peça essa que tinha sido uma das que ele tinha escrito especificamente para CMS e que esta tinha representado.

Dreyman não aguenta a memória da antiga namorada e si para a entrada da sala do teatro. Está lá também, o ex-ministro Bruno hempf. Trocam palavras e Dreyman pergunta a Hempf porque é que ele nunca foi vigiado.

Hempf, diz-lhe que está enganado e que ele foi severamente vigiado. Dreyman acaba afastando-se profundamente chocado e agastado com as pessoas de um regime que apoiou.

Mas isso traz-lhe a curiosidade de saber como foi vigiado. Vai ao museu da memória e pede o seu processo.

A VIDA DOS OUTROS - 4 Fica espantado com o enorme tamanho do mesmo, e começa a ler. Fica logo espantado com o tamanho do seu processo. E começa a perceber que CMS foi a delatora que o traiu; que os relatórios das escutas sobre ele não diziam o que se tinha efectivamente passado, que as escutas tinham sido ordenadas pelo ministro Hempf e que uma misteriosa personagem com o nome de código ” HGW XX/7 ” era o responsável por não lhe ter acontecido nada.

Pede para ver quem era HGW XX/7 e reconhece Wiesler. Este caído em desgraça após o caso Dreyman trabalhava na secção da Stasi destinada a abrir a correspondência de todos os alemães. Após a queda do muro de Berlim era carteiro.

Dreyman, que nada tinha escrito até aí, começa a escrever, e escreve um livro chamado “Sonata a um homem bom” – o nome de um livro que o seu amigo Jerska, o encenador que se tinha suicidado, ou auto assassinado para usar a terminologia RDA, lhe tinha oferecido. No prefácio do livro, nos agradecimentos está “Para HGW XX/ 7 , um homem bom” .

É a essa frase que se refere o que está la em cima em inglês ” do you like it gift wrapped? No, it is for me”.

É Wiesler / HGW XX /7 a adquirir o livro de Dreyman, o novo romance que este tinha finalmente conseguído escrever.

A VIDA DOS OUTROS - 6

CENSURA NO AUDIVISUAL. EUA. (2)

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No primeiro artigo “Censura no audiovisual. EUA (1)” falou-se de:

  1. MPAA e o sistema de classificação de filmes;
  2. A forma como a classificação é feita;
  3. o caso da realizadora Kimberley Pierce.

( Continuação) Kimberley Pierce interrogada relativamente aos problemas que teve para ver o seu filme classificado explica que:

tendo em conta que o conceito de orgasmo é maioritariamente definido por homens e os realizadores são quase todos homens, as visualizações cinematográficas são quase todas vistas sob um ponto de vista masculino. A ideia de que, nesse contexto a ideia do prazer feminino será vista como algo redutor.

No decorrer do documentário, percebe-se que este assunto das classificações e questões como esta, de mostrar ou ao orgasmos nada tem directamente que ver com prazer feminino. O que se nota ao continuar a ver o documentário é que existe uma perspectiva religiosa de poder por detrás destas subtis actos de censura e de negação às mulheres do prazer feminino.

A partir desta lógica, da percepção desta lógica (e de outras) na classificação de filmes, passa-se para outros depoimentos de muitos outros realizadores, relacionados com outros assuntos, mostrando-se uma série de realizadores que tiveram ou filmes censurados, ou filmes aos quais tiveram que amputar parte, apenas para não receberem NC-17.

Uma realizadora queixa-se que foi discriminada por fazer um filme gay, outro que lhe disseram para remover tudo que tivesse um dildo, e outros perguntam onde está a definição legal do que é NC-17 E “R”. Ainda um outro pergunta porque não lhe podem dar uma lista de exclusões – mas no inicio do filme…

Uma cena cortada apenas o é, porque é uma cena onde se insinua que uma das raparigas se vai enroscar nas pernas de outra rapariga.

Num outro filme, o corte que foi feito tinha a absolutamente estonteante quantidade de 3 segundos.

Menciona-se que os membros da MPAA dizem aos realizadores que estes não tem que aceitar a classificação; que não é obrigatório…

Uma das formas como esta classificação categoriza e classifica os filmes assenta na seguinte dualidade:

  • Os filmes são classificados antes de serem lançados.
  • Os filmes não são classificados por quem os faz.

Quem faz a classificação permanece secreto. Um grupo de pessoas que se reúne numa sala e…classifica. Isto é a essência do totalitarismo aplicado a um produto-serviço que a todos interessa precisamente porque após classificação, não existe justificação técnica ou outra, publicada e acessível a todos que explique as razões da classificação.

É uma vitória da burocracia. Nos EUA isto é tolerado e aceite como “normal” apenas porque é feito por uma associação de empresas privadas. Como se isso ilibasse do totalitarismo latente que se observa nesta lógica….

Feito por empresas privadas ou entidades públicas são os métodos aqui usados que são totalitários e que prejudicam pessoas, artistas, público e impõem (servem para impor) uma dada visão do mundo. Em vez de ser o “mercado” – ou seja os gostos das pessoas.

Conforme o senhor Jack Valenti, o porta voz da MPAA (falecido em 2006) explica no documentário, os classificadores são “pais, que não são nem deuses, nem loucos” e que tentam obedecer ao critério do que será o “paí americano médio” ou na melhor das hipóteses, o que será o cidadão americano médio.

O que é o cidadão americano médio?

Os classificadores (os tais representantes não eleitos os pais americanos médios vêem um filme e tentam classificá-lo de acordo com o que um “pai comum”, pensaria de um filme.

Isto é uma lógica desde logo do mais arbitrário que existe.

Por exemplo, acontece muito na sociedade portuguesa; uma sociedade especialista em criar sistemas informais injustos de apreciação do mérito baseados na mais absoluta injustiça e falta de critério.

No sistema jurídico, o critério do “pai médio”, também existe na lei. Chama-se “os sentimentos médios de justiça do cidadão médio” ou “os sentimentos médios de justiça do pater familiae/ pai de família. Posso afirmar sem qualquer tipo de auto restrição que é umas das vigarices jurídicas mais bem trabalhadas e inventadas que os sistemas jurídicos produzem – o português em particular.

Serve esta construção de um critério – maleável, flexível e fluída – absolutamente tosca – e servindo para fundamentar decisões absurdas, ilibar juízes de erros, dizer o mesmo e o seu contrário, perante casos notoriamente iguais, criar desigualdades de facto parecendo que se estão a criar equidade e justiça na apreciação de casos em disputa.

Serve também para os digníssimos magistrados pretenderem poder afirmar, dessa forma, que se conseguíram colocar no lugar do que um bom e honesto “pater familiae” decidiria ou ´pensaria sobre um assunto.

Como se um “bom pai de família (qualquer pai de família) auferisse o rendimento dos magistrados, tivesse acesso às fontes de informação destes e possuísse os conhecimentos técnicos de direito que os magistrados tem…ou como se fosse possível uma pessoa conseguir por-se 100% na pele dos problemas de outra, desta forma tão leve…

Seria o mesmo que uma pessoa que nunca partiu um braço ou teve um ataque de coração dizer a outra a quem isso aconteceu que “sabe perfeitamente o que a outra está a sentir”…

É uma técnica social/política passada a técnica jurídica tendo como objectivo exercer um controlo social sobre a população.

No caso português, obtém-se com isso os resultados cretinos e ineficazes que se vêem e o prosperar de um sentimento difuso mas cada vez mais entranhado de injustiça presente na vida das pessoas. Mas não de todas as pessoas.

E estas que sentem esse sentimento difuso, tem cada vez mais consciência disso mesmo, embora tenham dificuldade pessoal em determinar exactamente o que é… e porque é assim.

No sistema americano, mas que contamina a Europa, e o mundo, está presente isto.

Está presente e manifesta-se esta mesma lógica completa de arbitrariedade total. Depois de nos termos livrado do comunismo agora temos que aturar uma coisa vagamente parecida…

Dai a frase de David Ansen, o critico de cinema convidado para depor que afirma esse mítico pai americano é uma ficção”.

Concerteza que é. E o português, também.

David Ansen continua e afirma também: “é uma ficção conveniente que alguém tem que inventar e justificar para criar um sistema arbitrário”.

Ansen refere-se ao sistema de classificação de filmes patrocinado por empresas privadas, como ficção conveniente, mas noutras áreas da vida existe o mesmo germe totalitário à solta.

A técnica é simples.
  1. cria-se uma suposta ideia do que será um “conceito”.
  2. Que abranja uma maioria de pessoas.
  3. Dá-se-lhe um nome apelativo e seguro ( neste caso o “pai americano médio” ou o “cidadão médio” e os seus sentimentos).
  4. A partir daí, tudo é feito invocando esse “logótipo” arbitrário, totalitário, absurdo.
  5. Com o objectivo de criar controlo social apertado.
  6. Usando um produto que muita gente adquire e gosta, neste caso,os filmes.

A confusão das pessoas acerca das suas próprias vidas, do seu sentido de estar no mundo, o total esbatimento de valores, sejam quais forem os valores, a confusão cívica surgem.

Esta “confusão” irá aumentar de intensidade, apesar de existirem “estes conceitos” de suposta normalização que acarretarão justiça e que são apresentados como algo que irá funcionar bem.

Continua.

CENSURA NO AUDIOVISUAL. EUA. (1)

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Continuação

“CENSURA NO AUDIOVISUAL. EUA (2)”

“CENSURA NO AUDIOVISUAL. EUA (3)”

Artigo de bolinha vermelha.

Em 1968, um senhor chamado Jack Valenti, o chefe da MPAA – Motion Picture Association of América – o conjunto de associados da industria cinematográfica norte americana decidiu criar uma classificação não compulsória de filmes.

Assim começa o filme / documentário “This Film Is Not Yet Rated” do realizador Kirby Dick. Começa também com uns quadros mostrando que as várias associações de críticos cinematográficos existentes aprovaram o filme de Kirby Dick, mas a MPPA não aprovou, nunca aprovará e o quadro termina perguntando “Why not? / Porque não?

A ideia deste documentário é mostrar o totalitarismo / arbitrariedade selectiva inerente à classificação de filmes nos EUA.

Em que é que isto nos afecta?

Afecta-nos em muito dado que 90% de tudo o que é passado em televisões / cinemas / vídeo é feito nos EUA.

O documentário começa como o descrevi, passa depois a uma imagem de 1978 de um noticiário onde se dá conta do trabalho de sistema de classificação, e um noticiário de 1999, onde os diálogos são ao mesmo tempo hilariantes. O noticiário de 1999, diz qualquer coisa como ” Há 30 anos que a MPAA ajuda os pais a decidir quais os filmes que os filhos deverão assistir”.

Os país são pois elevados à categoria de totais mentecaptos aos quais a MPAA , generosamente e de forma altruísta, ajuda a “decidir”…

Ultimamente, nos EUA, as suas decisões tem estado sob fogo cerrado, diz ainda o noticiário. Ao longo do documentário (e, espero eu, deste post/conjunto de posts) perceber-se-á porque …

Antes do “sistema de classificação” estar em vigor a MPAA CENSURAVA directamente e activamente filmes. No país mais livre do mundo censuram-se filmes?

Estranho…Dai o documentário chamar-se “This Film is Not Yet Rated” – este filme ainda não foi classificado. As classificações são 5:

  • G (TODOS)
  • PG 13 (MENORES DE 13)
  • PG (MAIORES DE 13 ACOMPANHADOS PELOS PAIS)
  • R ( 17 ANOS )
  • NC-17 (CLASSIFICAÇÃO ANTIGA “X”, OU SEJA, POR EXEMPLO FILMES PORNOGRÁFICOS)

A classificação, como mostra o documentário é feita da seguinte maneira:

um grupo de pais, reúne-se na sede da MPAA em Encino, Califórnia e …… classifica.

As decisões são extraordinariamente controversas nomeadamente no que aos filmes classificados NC-17 diz respeito e é isso que o documentário mostra. São extraordinariamente controversas, fazendo perceber a manipulação e o enviesamento das classificações e de como somos induzidos a ser manipulados – todos os que vemos filmes…

Existem questões relacionadas com classificações relativas a sexo, mas não só. É é todo esse “mecanismo” que é mostrado por este documentário para se perceber como estranhas forças religiosas e do dinheiro atacam deliberadamente a liberdade de expressão e a liberdade artística usando esta classificação pomposa para o fazer.

Não deixa também de ser engraçado que o país auto proclamado “mais liberal do mundo” sinta a necessidade de encorajar um sistema de classificação – na pratica, uma regulamentação. Sendo nos EUA, a regulamentação olhada – quando feita noutros países como sendo uma pratica “comunista ou socialista ou Estatal”; aqui, neste assunto, um conjunto de empresas privadas utiliza essa pratica comunista ou socialista ou estatal para se imiscuir e definir os gostos de terceiros…

Numa determinada parte do filme a realizadora Kimberley Peirce – realizadora do filme “Boy´s Don´t Cry” explica o que lhe sucedeu.

kimberley é lésbica, embora tenha uma filha…de acordo com os seus gostos e liberdade de expressão artística, realizou um filme sobre mulheres lésbicas na cidade de Nova Iorque.

Conhecia o tema e conhecia muitas raparigas que se vestiam de homens e viviam como se fossem homens em Nova Iorque. (Porquê, não sei, nem me interessa por aí além..)

Um belo dia, após ter feito o filme, o agente dela informa-a, que ela recebeu um NC-17. A pior classificação.

“Isso é porreiro”, observamo-la na sua cândida ingenuidade, porque todos os filmes porreiros (para ela) que tinha visto estavam classificados NC-17. O agente explicou que não, aplicando um balde de agua fria.

Não era bom, porque o Estúdio, não lançaria o filme; não o lançaria no canal de distribuição, nem o promoveria, caso o filme recebesse um “NC-17.

A realizadora ficou de rastos porque tinha trabalhado contra todos os obstáculos de: (A) não ter dinheiro para fazer o filme e ter de o procurar ( B ) ir contra as pessoas; as muitas opiniões, segundo as quais ela não poderia fazer um filme daqueles porque aquilo não interessava a ninguém, (C) e depois passar o teste de publico, que gostou do filme.

Todo um esforço e tempo de trabalho desperdiçado, para, depois, aparecer esta misteriosa comissão que classificava o filme como NC-17, na pratica inviabilizando o lançamento comercial do filme. Como ela explica e passo a citar com a mesma linguagem gráfica dela parece que os problemas do filme eram 3: (Bolinha vermelha AQUI O)

1- Depois do Brandon ter feito um minete à Lana ele vem para cima e limpa a boca. Como ela diz, (kimberley)/ we had a strike on that”. (Fomos riscados…nessa).

Posso também explicar que não se vê sexo explicito filmado ao pormenor. Apenas se sugere isso. (No documentário, no filme não sei…) O que é hilariante é que ela pergunta o porquê ao seu advogado (que lhe contou isto) e responde-lhe (que lhe explicaram) que “” não souberam bem porquê, mas é ofensivo””.
Fantástico argumento este para recusar algo…

O mais hilariante no filme é que existe uma cena em que a protagonista principal dá um tiro na cabeça à queima roupa do personagem Brandon e isso não é considerado ofensivo ou chocante.

2 – A segunda cena que levou com NC-17 é uma cena de violação anal.

Ao que parece queriam que ela a cortasse. Como a cena em questão fazia parte do contexto global do filme – contribuía para se perceber a história – ela recusou logo o corte e perguntou qual era a terceira razão.

3 – Parece que a terceira cena a ser cortada e que levou com um NC – 17 é o orgasmo da Lana, a protagonista. Parece que o ” orgasmo dela é demasiado longo”.

Numa nota mais pessoal e de profundo gozo por este tipo de argumentações; diria que a tabela de tempo de duração de orgasmos apresentada pela Sociedade Mundial de Definição do Tempo dos Orgasmos na sua última assembleia geral não conseguiu chegar a acordo entre os seus membros sobre a definição do tempo dos orgasmos longos a adoptar e votou – por unanimidade – não chegar a consenso.
Talvez uma norma comunitária resolva o assunto…

A realizadora do filme replica, perguntando “quem é que já saiu magoado por ter tido um orgasmo demasiado longo”?

Ou seja, o orgasmo era (foi) considerado ofensivo.

Não por ser orgasmo, mas por ser longo. Presume-se. Mas isto foi no dia em que o filme foi classificado. No dia a seguir, suponho, a classificação já teria sido dada de outra maneira.
Kimberley foi voltar a ver a cena do orgasmo e percebeu que o problema daquela cena, não era o orgasmo da LANA, a personagem principal, mas sim o facto de a personagem estar a ter um enorme prazer, isto é, a representar ter um enorme prazer ao ter um orgasmo longo.

Como conclui a realizadora, é isso – algo nisso – que “os está a assustar, e a enervar”.

Além disso, a senhora que está a ter o orgasmo longo é “muito vocal”. A imagem cinematográfica é bem feita e descreve uma mulher – ainda por cima, a actriz em questão é loura e bonita, a ter prazer.

Continua.

EQUILIBRIUM.

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Em Julho de 2006, completamente por acaso, assisti a um pequeno pedaço de um filme na entrada de um supermercado, enquanto o rebanho consumista e alienado com que viajei, se ausentava para a loja de roupas mais próxima.

Perdidos lá dentro, na voragem da calça de ganga e da T-shirt, deixaram-me ( julgam eles) cheio de sentimentos de culpa por não os acompanhar. Um ecrã gigante estava ali para exposição e venda e transmitia um filme.

Na parte do filme que vi, percebia-se que era um filme de ficção cientifica. Não ligaria muito à coisa, não fosse o facto de se reconhecer a estética do ambiente totalitário.

As alusões ao “1984” de Orwell e ao “Admirável mundo novo” de Aldous Huxley e a THX-1138 de F. Ford Coppola.

Observava-se a personagem principal. Expressão monolítica, fria. Mais um Stallone, pensei.

Mas não, aquilo tinha mais que se lhe diga.

Finamente consegui ver o filme todo. E a primeira percepção que tinha tido em Julho de 2006 era afinal bastante diferente. O filme chama-se “Equilibrium” e é uma muito boa Distopia acerca de uma sociedade totalitária, pós hipotética 3ª Guerra Mundial. Com algumas espantosas semelhanças com a realidade…mas buscando referências a vários passados que conhecemos, como sejam o Nazismo e o Fascismo, livros como o Admirável Mundo Novo de Huxley e 1984 de Orwell, identificando-se com o filme The Matrix, ao nível do objecto cinematográfico, por exemplo.

EQUILIBRIUM 1 - POSTER

A história é simples de contar e nada complexa. Guerra devastadora – a Humanidade sobrevive – passa a reger-se por um novo código de conduta – Objectivo: para evitar novas guerras – criar a ordem – impor à força essa ordem se necessário.

O regime torna-se pois, monolítico, e decide como curso de acção primário, eliminar a guerra eliminando as emoções, o “sentir”. (Conhecemos isto actualmente sob a forma da suave ideologia do pragmatismo…)

Para se eliminar o “sentir” é necessário eliminar todos os objectos que façam as pessoas “sentir”. Livros, arte, música, toda e qualquer expressão de individualismo é proibida e punível com a morte. Eliminando o “sentir”, o resultado será o desaparecimento da guerra, da inveja, do conflito, de “sentimentos negativos” e o desaparecimento de tudo o que faz de nós faz, afinal, Humanos.

Para impor o poder, a ordem artificial e a autoridade visível simbólica, cria-se a figura tutelar do “Father /Pai” como símbolo de liderança.

Para conseguir fazer subsistir esse poder de forma não desafiada e essa ordem indisputada cria-se a força guerreira de elite denominada “Tetragrammaton”, cujos agentes são chamados de “Clérigos Tetragrammaton”.

Especializados na arte marcial da ” GunKata”; uma super forma de luta criada por estatística e métodos informáticos, para gerar eficiência no combate; super soldados especializados em esmagar qualquer dissidência. ( A ideia de mercado aqui é atrair o público “jovem” e simular um filme Matrix diferente…)

Porque é que a alegoria desta distopia é muito interessante?

Porque o realizador/autor do argumento chamado Kurt Wimmer só tinha 20 milhões de dólares para fazer o filme e “teve que criar” a ilusão que tinha 100 ou 200. Criou essa ilusão e paralelamente, apesar do argumento não ser exactamente o ponto mais forte, conseguiu extrair dos actores o máximo, tendo ainda obtido Christian Bale como protagonista e este é mesmo um excelente actor. (Todos os outros acompanham de resto poderosamente a figura estranha que Bale representa , o Clérigo Tetragrammaton John Preston)

Wimmer, jogando com o argumento que tinha, procurou referencias a vários outros filmes – livros – distopias criando uma completa subversão e distorção dentro do argumento passando uma mensagem em várias dimensões.

equilibrium-comicio

Observe-se o totalitarismo que é procurado mostrar neste simples imagem que o realizador faz. Está a haver um comício/sessão de esclarecimento, cheio de palavras bombásticas e exortações acerca do acto de vencer dos Librianos – habitantes que estão a escutar isto. São declarados livres e vencedores. No entanto ao centro da imagem um guarda armado até aos dentes vigia olhando para a multidão, para verificar se existem desvios à norma.

A mensagem é anti ideologia, mas não anti ideológica. E não só anti ideologias comunistas e fascistas, mas também contra o actual novo truque de mercado ideológico chamado “neo liberalismo económico”. Conjugado com o lançamento de pistas de reflexão acerca do que é liberdade individual e “sentir”, e de “resistência” numa sociedade crescentemente “normalizada”

Tudo isto ao mesmo tempo metido dentro de um aspecto estético bem conseguido, jogando com as cores, branco e preto e indo filmar para Berlim, (para poupar nos custos, mas o simbolismo e a alusão são óbvias, porque existiu em Berlim o que se sabe).

EQUILIBRIUM 2- ORWELL

Na imagem em cima pode ver-se isso mesmo, com a imagem do “Father” omnipresente nos ecrãs da sociedade normalizada (também uma alusão aos omnipresentes placards publicitários electrónicos das cidades) debitando a sua mensagem – a inspiração retirada do filme/livro 1984 é notória, embora aqui filmada à escala de rua, já não de uma casa ou num local de trabalho

Christian Bale/ Jonh Preston é o melhor, o mais eficaz, o mais desapiedado Clérigo tetragrammaton. Tem uma especial capacidade para perceber quem à sua volta está a sentir.

Minuto 14: Preston fala com Errol Partridge antes de lhe dar um tiro.

Partridge: sempre soubeste. (Perante a aproximação de Preston)

Partridge (lendo de um livro de W B Yeats) : “mas eu sendo pobre, sempre tive os meus sonhos”. Espalhei os meus sonhos debaixo dos teus pés”. Caminha gentilmente pois caminhas sobre os meus sonhos”

Partridge: Preston, presumo que sonhas.

Preston: Farei o que for possível para que sejam brandos contigo.

Partridge: Ambos sabemos que eles nunca são brandos.

Preston: então peço desculpa.

Partridge: Não.Não peças. Tu nem sequer sabes o que isso significa.

É uma palavra para um sentimento que tu desconheces.

Preston, não vês? Acabou:

Tudo o que nos faz ser o que somos é negociado.

Preston: não há guerra. Não há assassínio.

Partridge: o que achas que é aquilo que fazemos?

Preston: não.

Tu tens estado comigo. Tens visto a guerra, a inveja.

Partridge: Um preço elevado.

Eu pago-o com prazer.

Este diálogo corresponde à imagem mais abaixo tida na obscuridade, quando Preston mata o seu colega Errol Partrdige, pelo crime de sentir.

Toda a população toma uma droga chamada “Prozium”( Prozac+Equilibrium) e vai todos os dias ao “Equilibrium”( a farmácia…) buscar a sua dose. Preston é tão bom, que chefiou a unidade que executou a sua própria mulher, sendo que esta, um dia, deixou de tomar Prozium e passou a sentir. Preston também persegue e mata o seu parceiro Sean Benn/o clérigo Errol partridge, que deixou de acreditar na farsa , deixou de tomar Prozium e começou a sentir.

O que despoleta a situação que irá fazer Jonh Preston começar a agir.

Este é “estranho” mesmo para os padrões da sociedade onde está e que nos é descrita. No fim entrevemos porquê: Preston é brutalmente dissociado de outras pessoas, é indiferente, quer tome ou não tome Prozium. Consegue parecer estar a sentir, mesmo não o estando. Consegue ser frio, mesmo não tomando drogas para isso. Preston mantém as suas capacidades guerreiras ao mesmo nível quer sob o efeito de Prozium quer não.

Preston liberta-se da sociedade opressora, precisamente através do significado simbólico poderoso que isso representa: o ser capaz de usar as suas capacidades de luta através da arte marcial da Gunkata, mas sem precisar de tomar Prozium para amplificar essas mesmas capacidades

Preston, é livre de tomar a decisão de atacar sozinho o sistema, por dentro, porque assim decidiu e assim o pode fazer.

Precisamente pelas características que Preston tem os seus superiores sabem disso e temem-no e decidem fazê-lo precipitar no erro, para dessa forma melhor o abaterem.

Põe-no em causa pelo facto de ele ter vivido com a sua mulher e nunca ter desconfiado que esta não tomava Equilibrium. Põe-no em causa pelo seu parceiro, o clérigo Errol partridge por este ser o companheiro que Preston não viu que se desviou do rumo.

Põe-no em causa porque existem cada vez mais habitantes que se estão a libertar por si próprios da toma do Prozium e a quererem fruir as coisas proibidas.

Põe-no em causa usando o seu novo colega, um novo clérigo, ambicioso de nome Brandt.

EQUILIBRIUM- ESTÉTICA

Esteticamente em “Equilibrium” que predomina é o preto, o cinzento e ocasionalmente o branco para estabelecer o contraste. Mas oq ue é muito bem feito a níveld e imagem é precisamente o que esta acima mostra: uma simulação de igreja com vitrais por onde uma ténue luz passa – uma ténue liberdade , enquanto cá em baixo, o clérigo, que se entrevé na imagem desroi a liberdade destruindo as suas vitimas.

A técnica de filmagem é soberba uma vez que isto é feito sem recurso a efeitos especiais, mas sim através da filmagem clássica, jogando com a luz, o tamanho da sala e dos contrastes, e fazendo por exemplo, “combates” no escuro, onde apenas se vê algo a acontecer muito depressa com raios de luz simulando disparos de balas. Percebe-se o que é , mas não se percebe o que é.

Existem várias coisas admiráveis em termos de verificação da liberdade humana neste filme e que actuam como exemplos. Umas das cenas notáveis é o facto de Preston ao segundo dia, em que deixa de tomar Prozium, começar a reparar em pormenores que antes lhe passavam despercebidos. Uma alegoria muito interessante é a passagem pelos subterrâneos da população (uma alusão ao metropolitano) onde toda a gente caminha sempre na mesma velocidade e com o mesmo ar.

EQUILIBRIO-METROPOLITANO

Desperto, Preston começa a reparar nos “companheiros de viagem”. E percebe-se que existem alguns, por pequenos gestos, como por exemplo roçar as mãos para sentir o corrimão da subida, que estão “fora” do efeito da droga Prozium, mas que tem que disfarçar essa condição e viver, optar por viver, dentro da sociedade, até para, por dentro, fornecerem informações a quem está de fora a lutar para a alterar.

Preston é traido, até porque começa a dar a entender já não estar sob o efeito de Prozium. É sumariamente julgado e condenado e está para ser executado quando se liberta.

O gatilho inicial disto tudo é o dia seguinte à execução do seu companheiro Partridge. Preston, de manhã, deixa cair a sua dose de Prozium e não toma uma nova.

E é a partir dai que tudo se desenrola. No final, Preston destrói por dentro o regime.

Já movido, nesta altura pelo sentimento de vingança e pela lembrança de como a sua mulher morreu. E isto após já vários dias em que não tomava Prozium. Vem também a descobrir que os seus filhos que o controlavam e que ele controlava, (uma sociedade onde todos se controlavam a todos) fingiam para ele, e que, na realidade, já não tomavam eles próprios, desde a morte da mãe, a droga Prozium.

Descobre Preston no fim, que, ao ter um diálogo frio e rápido com o número dois do regime, que o “Father”, o Pai, já não existia, (era o número 2 que o substituia) antes apenas a imagem do mesmo a debitar mensagens de propaganda e que o próprio número 2 do regime também não tomava a droga Prozium.

Libria, a terra totalitária, era controlada pelos ecrans de plasma espalhados pela cidade. Tipos vestidos de castanho, com uma indumentária bizarra afadigavam-se a comandar computadores, olhando para ecrãs de plasma.

Preston destrói o comando.

A imagem muda e cá fora, nas ruas daquela cidade totalitária, os guardas vestidos de preto, continuavam por todos os lados, armas na mão. Impondo a sua presença simbólica de força sobre os cidadãos anestesiados.

Ecrãs de plasma enormes passavam as imagens. A imagem muda, e vêem-se ecrãs na cidade a interromperem as imagens entorpecedoras que transmitiam. Os guardas continuam imóveis.

A última imagem que se vê no filme é a população, subitamente livre de constrangimentos, a rebelar-se e a atacar todos os guardas de preto que patrulhavam toda a cidade.

equilibrium-rebelião

Uma rebelião a sério tinha começado.

Written by dissidentex

06/05/2008 at 22:20

TABACO. LIBERDADE. FUTUROS.

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No dia 5 de Agosto de 2006, devido à inspiração do totalitarismo que insidiosamente se instala na Europa e, como uma consequência disso, um comissário europeu pensou e inspirou a criação de uma legislação especial feita em nome da liberdade. Uma legislação que impedisse eventuais candidatos a emprego de serem contratados por empresas, caso fossem fumadores.
Até hoje, não se conhece nenhuma proposta de legislação feita por um comissário europeu, que impeça as empresas de contratar viciados em drogas.

Além desta situação infringir o direito ao trabalho, e interferir directamente na vida privada das pessoas e na sua liberdade individual é uma norma discriminatória. Combate-se o tabaco com discriminação – uma campanha negativa, estigmatizando os fumadores como criminosos em vez de se incentivar de forma positiva as pessoas a não fumar.

Reorientando este post, mas relacionado com o tema acima, passemos a um ângulo ligeiramente diferente de análise.

Cinema. Como exemplo, um filme que sempre me fascinou.

STALLONE1


Globalmente não é um grande filme. Nem sequer no género e público para o qual foi feito.

Realizador, argumentista, alguns actores não tiveram unhas para fazer uma obra clássica do género, para produzirem uma distopia eficiente.

O filme, de 1993, chama-se Demolition Man.

Actores principais: Sylvester Stallone (Jonh Spartan), Sandra bullock (Lenina Huxley) , Wesley snipes (Simon Phoenix) e Nigel hawthorne. (Dr.Cocteau)

3/4 do filme são apenas pancadaria e boçalidade exercitada pelas personagens de Stallone e Snipes – em constante combate um com o outro e destruindo milhões de adereços.
Quando a acção passa a Sandra Bullock e Nigel hawthorne (especialmente este) e alguns dos restantes secundários; as coisas mudam de figura.

Estas personagens secundárias são as melhores, mas o enredo do filme foi apenas orientado para a destruição por destruição, o que estraga o filme e as possibilidades do argumento serem imensas caso fosse bem trabalhado.

Uma parte do filme, a única que interessa para este post ( e no próprio filme, diria), mostra uma visão distópica totalitária muito interessante, do que seria uma sociedade orientada segundo os padrões de comissários europeus ( e outros do mesmo estilo) que querem fazer leis anti fumadores e anti tabaco (e anti sexo, e anti comida e anti qualquer outra coisa…).

No filme, existe uma aproximação descritiva a um tipo de sociedade semelhante.
Insidiosamente está-se a implementar. Ou a serem feitas tentativas para isso.

Para demonstrar e explicar isso é necessário contar, brevemente, a história do filme.

Ano de 1996.

  1. Caos descontrolado na ruas de Los Angeles.
  2. Anarquia social e crime galopante.
  3. Violência urbana intensa.

Policia e criminoso defrontam-se. Métodos completamente destrutivos ( Stallone e Snipes).

Na sequência do ” confronto final” entre ambos; após uma destruição imensa, a personagem de Snipes ( criminoso) é preso e Stallone (polícia) … também.
Os métodos policiais de Stallone originam mais de 100 vitimas ao perseguir o criminoso Snipes. Stallone é, dessa forma, condenado a ser alvo de “criogenia”. Posto a dormir ( A criogenia como tecnologia é ainda incipiente…).

Stallone (a sua personagem) será reavaliado para eventual libertação, algures em 2046. Conjuntamente com Stallone, a outros criminosos irá acontecer o mesmo.

Mudança de cenário.

No futuro, em 2046 a sociedade “evoluiu”.
Não existe crime;
Tudo é asséptico, limpo e asseado.
Devido a prévias guerras, epidemias e violência, o Dr cocteau ( personagem de Nigel Hawthorne), o líder supremo – também ditador benevolente e paternalista desenvolveu uma “Cidade Estado” a que chamou “San Angeles”.

Onde tudo parece funcionar de forma perfeita. Demasiado perfeita.

Toda esta ordem asséptica gera cidadãos infantilizados.

A “ordem” é tão certa que origina o seu reverso. Excluidos. Marginalizados, Sub cidadãos. Origina um movimento de “resistência” contra a ordem asséptica.

  • Asséptica, mas controladora e totalitária.
  • Anti pulsões emocionais e sociais.

Resistência essa que, segundo o personagem “Dr Cocteau”,”perturba a ordem e a paz universal”.

Há que tomar medidas.
A resistência é continua, regular e chata.
Pior: ameaça criar dissidência organizada e adquirir mais apoiantes .
O Dr Cocteau tem a infeliz ideia de ressuscitar Simon Phoenix, o criminoso – mor(Snipes), do seu sono criogénico.
Trabalho de Phoenix: terminar com a “resistência e especialmente com o seu líder”.

Phoenix é liberto, encarregue de destruir o líder da resistência
Mas, como personagem psicopata que efectivamente é, começa imediatamente a matar e a destruir tudo o que vê de forma aleatória; apenas violência gratuita.

O feito numa sociedade, destituída de qualquer tipo de violência é tremendo.
Numa sociedade onde o conceito foi erradicado é enorme.
Uma sociedade onde as pessoas não estão habilitadas e habituadas a lidar com violência.
Um sociedade onde não existe um crime há 20 anos.
Os conflitos não existem.

Percebe-se daquela descrição a existência de uma forma de Estado misto neo liberal/comunista; mas, onde os conflitos são arbitrados não pelo Estado, como entidade, mas sim pela “Empresa privada” e respectivos associados do Dr Cocteau que faz o papel de “Estado personalizado nele mesmo”.

  • O resultado de toda aquela normalização, por exemplo, origina uma única empresa de pizzas.
  • Maquinas colocadas nas ruas ordenadas de simétricas; disponíveis para “dizer a pessoas” frases de conforto psicológico – que elas são as melhores pessoas do mundo.
  • Através destes quiosques de bem estar combate-se quem se sente mal, deprimido psicologicamente.

A estação de musica local apenas transmite jingles promocionais de produtos vendidos nos anos 50 do século 20.
Como esses jingles são de tal forma ingénuos (pertencem aos primeiros tempos da publicidade) na sua concepção que apenas parecem e são infantis.
Próprios para crianças.

O acto sexual é asséptico.

Existe um capacete virtual que produz estímulos neurológicos aos dois participantes no “acto”.
Ali isso é sexo.
Não há contacto físico.
“Sexo limpo”.

Extractos do diálogo do filme retirados do fractura.net

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Lenina Huxley: The exchange of bodily fluids, do you know what that leads to?
John Spartan: Yeah, I do! Kids, smoking, a desire to raid the fridge.

Simon Phoenix: All right, gentlemen, let’s review. The year is 2032 – that’s two-zero-three-two, as in the 21st Century – and I am sorry to say the world has become a pussy-whipped, Brady Bunch version of itself, run by a bunch of robed sissies.

Edgar Friendly: You see, according to Cocteau’s plan I’m the enemy, ’cause I like to think; I like to read. I’m into freedom of speech and freedom of choice. I’m the kind of guy likes to sit in a greasy spoon and wonder – “Gee, should I have the T-bone steak or the jumbo rack of barbecued ribs with the side order of gravy fries?” I WANT high cholesterol. I wanna eat bacon and butter and BUCKETS of cheese, okay? I want to smoke a Cuban cigar the size of Cincinnati in the non-smoking section. I want to run through the streets naked with green Jell-o all over my body reading Playboy magazine. Why? Because I suddenly might feel the need to, okay, pal? I’ve SEEN the future. Do you know what it is? It’s a 47-year-old virgin sitting around in his beige pajamas, drinking a banana-broccoli shake, singing “I’m an Oscar Meyer Wiener”.

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Tabaco e álcool foram banidos.
Gordura na comida também.
É proibido praguejar.
Máquinas colocadas por todo o lado emitem uma multa e uma declaração “violação do código de conduta moral” – multa de 20 créditos.

A descrição da mentalidade totalitária impondo a perfeição absoluta a todos.
Padrões iguais para todos.
Comportamentos estilizados para todos.
Queiram ou não queiram.

A lógica social ali descrita é invertida.

Todos tem o dever – primeiro – de seguir as regras .
Não tem o direito – depois – de as quebrar.

Caso quebrem são considerados dissidentes perigosos que querem subverter o Estado – a empresa privada que controla aquilo ali descrito.
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Actualmente.

Os fumadores estão a ser vistos desta maneira.
Como perigosos subversivos em potencia de um Estado que se quer “limpo” de impurezas.
Como argumentativamente , é difícil de fazer passar isto, é necessário por os cidadãos uns contra os outros.
Como?
Sobrepondo o direito do não fumador sobre o do fumador.

Estigmatizando o fumador como culpado, por lei.
E sujeito a coimas altas e perseguição.
Patrocinando o conflito entre cidadãos – os que fumam e os que não fumam.

Apresentando razões de saude pública, como imperativo para proibir fumo e fumadores.
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Termino citando o post do Fractura:STALLONE2


E é por isso que o guru da cidade ressuscita o vilão interpretado por Wesley Snipes – para os eliminar, para acabar a revolta dos que querem viver livres da higiene. E porque a sociedade civilizada não é violenta, abomina a violência, a falta de saúde, a fealdade, a falta de educação, a comida gordurenta, o fumo. São limpos, limpinhos.
Mas não são livres. E não querem ver os outros livres.
Um grande filme, o Demolition Man.

Written by dissidentex

10/01/2008 at 0:37