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RAY BRADBURY E COMO SE DESTRÓI UMA CULTURA

Ø

“You don’t have to burn books to destroy a culture.
Just get people to stop reading them.”

~ Ray Bradbury

Não é necessário queimar livros para destruir uma cultura.

Deve-se apenas fazer com que as pessoas não leiam.

Ray Bradbury – Wikipedia

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07/02/2012 at 8:25

PORTUGAL DOA LIVROS JURÍDICOS A MOÇAMBIQUE

Notícia Correio da Manhã, dia 11 de Setembro 2009.

PORTUGAL DOA LIVROS JURÍDICOS A MOÇAMBIQUE

Mas que mal fez Moçambique, para que um país que tem um dos piores sistemas jurídicos do mundo, lhes ofereça livros jurídicos?

Pobre sistema judiciário moçambicano, que é agraciado com tal dádiva…apenas e só 18 manuais…

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11/09/2009 at 9:54

O ÚLTIMO ACTO EM LISBOA. ROBERT WILSON.

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O ULTIMO ACTO EM LISBOA

Autor : ROBERT WILSON.

Editora; GRADIVA

Wilson pode ser encontrado aqui – uma entrevista acerca do seu livro o “Cego de Sevilha”

E aqui também.

Neste Fórum de leitores existem opiniões acerca do livro.

Algures em 2006, dirigi-me à Feira do livro aterrorizado por uma amigaR.WILSON- O ULTIMO ACTO EM LISBOA minha. Possuído do demónio da leitura adquiri este livro (12 euros) bastante interessante: O Ultimo acto em Lisboa.

O livro excedeu as minhas expectativas como romance policial, mas também como lição de história.

Wilson fez uma pesquisa bibliográfica e histórica excelente e misturou-a habilmente com a ficção contando uma história passada em Portugal mas que começa em 1940 simultaneamente na Alemanha e em Portugal. Além disso passou bastante tempo na Beira Baixa para pesquisar para o livro e a falar com pessoas que ainda estavam vivas e viveram os tempos do volfrâmio.

Wilson conhece muito bem os portugueses (vive no Alentejo), como se comportam e o seu temperamento e consegue descrever muito bem no livro, várias dessas idiossincrasias, quer em termos históricos, quer mais recentes.

Sob o ponto de vista de uma lição de história, mas não só, o livro é excelente, quer na construção do enredo e, quer nas personagens e nas descrições de paisagens e lugares.

A acção é construida baseado-se numa série de acontecimentos que se iniciam nos anos 40, por um grupo de personagens mas não todos derivados de uma linha familiar, como por exemplo, uma história onde se descreveria o que acontece a sucessivas gerações.

Antes, Wilson junta personagens diferentes, de nacionalidades diferentes, relaciona – as com o tempo histórico que se vivia – a 2ªguerra mundial – e tudo é descrito tendo em conta as interacções entre os personagens e como os actos de alguém há 50 anos virão a originar repercussões enormes nos anos 80 e 90.

É também a historia de como – indirectamente – o regime Salazarista se fortaleceu com a guerra (economicamente e politicamente) usando para isso a venda do volfrâmio, um metal muito duro e denso que era usado para fabricação de filamentos de lâmpadas eléctricas, e acima de tudo, de ligas de aço poderosas, essenciais para blindagem de tanques.

Quem dominava o negócio nessa área, à época, eram os ingleses que já cá possuiam e exploravam minas, embora operassem em concorrência com os alemães.

A partir de 1941, os alemães aumentaram o seu interesse pelo volfrâmio. Até essa data o principal fornecedor alemão de volfrâmio era a Rússia, e existindo planos de ataque em marcha à Rússia; a Alemanha ficava sem capacidade de produção de armamento não tendo garantias de ter um fornecedor “externo” de volfrâmio. Dai o interesse por Portugal.

A historia é contada de duas formas, alternando a narrativa. Uma passada nos anos 90; outra passada nos anos 40.

Começa com o recrutamento do Sr. Klaus Felsen para as SS; um gestor/proprietário de uma fabrica de produção de carruagens de comboio na Alemanha, e as respectivas peripécias da vida do Sr. Klaus Felsen (namoradas, bordeis, o suicídio do pai camponês, a vinda de Felsen do campo para a cidade de Berlim).

Felsen, com muito pouca vontade de vir para Portugal é “persuadido “ a vir, pelo seu superior hierárquico nas SS que o manda prender com base numa acusação falsa, apenas para o fazer passar 3 dias numa prisão e amedronta-lo. Após a brutal intimidação, Felsen é arregimentado e promovido à oficial das SS e vem para Portugal.

Aí chegado, a sua missão é a seguinte: é encarregue de fazer chegar até às 3000 toneladas por ano a importação de volfrâmio para a Alemanha, quer importando-o legalmente, quer por contrabando.

Na acção que decorre nos anos 90, o inspector Zé Coelho, é escolhido para resolver um caso. É escolhidoRWILSON- CAPA ESTRANGEIRA por ser uma criatura difícil, e porque o caso é estranho. Trata-se de descobrir um homicídio de uma rapariga chamada Catarina Oliveira de 16 anos que morre em Monsanto. Caso relacionado com acontecimentos que se iniciaram 50 anos antes.

Wilson vai assim alternando na escrita; capítulos passados em Lisboa, Beira Baixa e Berlim de há 50 anos atrás e momentos na década de 90 em Lisboa e na zona de Sintra – Azenhas do Mar. As descrições do “terreno” são muito boas com imensos pormenores.

Voltando a Felsen: Este consegue atingir alguns dos objectivos na importação de volfrâmio, mas comete um enorme erro (embora necessário no contexto da acção): arranja, na Beira Baixa, um sócio português chamado Joaquim Abrantes, (para ajudar a facilitar o negócio) e, no decorrer da acção, dorme com a mulher dele, do que resulta um filho.

Esse filho, será a origem de muitos acontecimentos, entre os quais, a de ser o culpado indirecto da morte de Catarina Oliveira – neta de Felsen e filha de Manuel Abrantes, isto no Monsanto dos anos 90 – caso que o inspector Zé Coelho vai investigar .

Pelo meio, entre muitas situações e sub narrativas, existem os diálogos de Felsen, em Berlim com o “Gruppenfuhrer Lehrer” – o seu chefe.

Página 44:

…Felsen – e o Fuhrer português, o doutor Salazar, como é que se…?

Lehrer – esse é um caso de equilibrismo. Ideologicamente é seguro, mas há uma velha tradição de aliança com os ingleses, que não se cansam de a invocar. Vai sentir-se dividido, mas acabaremos por ganhar nós.

Felsen – e quando parto para Portugal?

Não é para já. Vai primeiro para a Suiça. Esta tarde.”

Pagina 46/47

– Felsen – banqueiros?

– Lehrer – os banqueiros de Basileia. Quem acha que viemos ver a Suíça? Não se compra volfrâmio com fichas.

– Nem com marcos pelos vistos – comentou Felsen.

– Exactamente.

– Mas francos suíços …dólares…

– O doutor Salazar foi professor de ciências económicas.

– E isso dá-lhe o direito a pagamento diferenciado?

– Não. Mas dá-lhe direito a pensar que em tempo de guerra é melhor ter boas reservas de ouro.

– Vai mandar-me para Portugal com um carregamento de ouro?

Surgiu-nos um problema. Os americanos estão a fazer-se difíceis para nos dar os nossos dólares, pelo que começamos a pagar o que queremos em francos suíços. Os nossos fornecedores em Portugal trocam esses francos suíços por escudos e em devido tempo, através dos bancos locais, os francos suíços vão parar ao banco de Portugal … que por sua vez, logo que tem divisas suficientes, compra ouro à Suíça.

——

– De quem é o ouro?

– Não percebo.

– O ouro alemão não está guardado no Reichsbank?

– A essa pergunta não posso … não tenho informações, e autorização para responder. Sou apenas um gruppenfuhrer…, como sabe. ”

Pagina 101

– Temos boas relações com Salazar. Ele compreende-nos. Os ingleses confiam na força de uma velha aliança… nós por outro lado vamo-lo…

– Intimidando?

– Ia dizer que o vamos abastecendo do que ele precisa.

– Mas certamente ele sabe que há uma divisão Panzer em Baiona.

– E submarinos no atlântico. Mas quem quer armar-se em pega e dormir com dois homens sabe que se arrisca a apanhar. ”

Pagina 116/117 – o plano de Felsen para comprar volfrâmio

– Primeiro ponto: a gente daqui, os homens da terra. Vivem como nós vivíamos na idade media. Não tem nada. Fazem vinte milhas a pé com cinquenta quilos de carvão às costas para irem vendê-lo à vila, onde comem o lucro para poderem voltar à sua aldeia. Gente muito pobre que não sabe ler nem escrever e que tem á sua frente uma vida dura.

— — –

– Esta gente da beira é difícil.

– É gente da terra. Os homens das serras são sempre difíceis, tem uma vida dura e fria. O nosso papel é compreende-los, encoraja-los, ajuda-los … e comprar-lhes volfrâmio”.

Pagina 139

– Vou continuar a comprar e a passar contrabando – disse Felsen – mas daqui em diante as grandes quantidades vão ter de ser negociadas nos gabinetes de Lisboa, e não nos campos da beira. Só que isso vai levar tempo…

– Porquê? – Pergunte ao Poser. Ele considera Salazar o maior vigarista desde Napoleão.

– E o que quer Salazar – perguntou Wolf.

– Ouro. Matérias-primas. Tranquilidade.

– Ouro temos. Também podemos fornecer-lhe aço de primeira e se isso não chegar, podemos puxar-lhe as orelhas – disse Lehrer.

NIASSA

– Como ? – perguntou Fischer.

Afundámos o Corte Real em Outubro, já não se lembra? Em qualquer altura podemos torpedear outro.

——

Foto do Niassa,

Na acção descrita no livro também é afundado. O Niassa foi o ultimo navio português com este nome. Foi construído em 1955 na Bélgica e abatido ao efectivo da marinha mercante em 1979, quando foi desmantelado em Bilbao.

O antecessor deste barco era o NYASSA, um barco que fez toda a 2ª guerra mundial a navegar e acabou por ir para a sucata em 1951.

√ Os diálogos em cima são uma descrição ficcionada das pressões que os alemães fizeram para obterem volfrâmio para o seu esforço de guerra e de como o Salazarismo favoreceu isso e se favoreceu com isso.

Na narrativa as ambições pessoais dos protagonistas vão originar, 50 anos depois, um crime que se mistura também – na história do livro – com o interesse do Estado Português em abafar os problemas derivados do Estado Salazarista ter aceite ser pago em ouro roubado dos judeus antes de irem para campos de concentração. ( Conferir “iMRE kERTESZ, livro “Sem destino”)

E a morte de Catarina Oliveira nos anos 90, é o ponto de partida para um emaranhado de sucessivas vinganças entre vários dos personagens, tudo ao mesmo tempo misturado com a nossa história, o 25 de Abril de 1974 e anos 60 incluídos.

Não desvendando a história por completo, resta dizer que Felsen passa 20 anos numa prisão portuguesa, e perde o seu lugar no banco comercial chamado “Oceano e Rocha”. Um banco criado na 2ª guerra mundial por capitais nazis, para que ele e Lehrer lavassem dinheiro e se precavessem ambos duma eventual perda da guerra pela Alemanha.

O terceiro sócio – português – é Joaquim Abrantes, precisamente para impedir que os Aliados, caso ganhassem a guerra, confiscassem o património. Abrantes, nos anos sessenta traí Felsen, daí este ter ido parar à prisão.

O filho bastardo de Felsen ( legítimo de Abrantes), no inicio do anos 60, adere à PIDE e anos mais tarde é o culpado da morte da sua própria filha (que ele desconhece que é sua filha), Catarina oliveira.

Esta, aos 16 anos tem uma vida de “prostituta não oficial”, (a descrição de Robert Wilson de como certas coisas acontecem e das “aparências em Portugal” é muito boa…) indo à escola, como uma normal adolescente, mas ao mesmo tempo prostituindo-se durante a semana numa pensão da Praça da Alegria.

E que o pai dela “oficial”, o advogado Oliveira, foi até aos anos 80 advogado do banco que Lehrer e Felsen criaram, o “Oceano e Rocha”…

Este é o “arquitecto”, por vingança pessoal, duma série de manobras, mas é também ajudado pelo Estado português que tem interesse em que surja alguém internacionalmente “oferecido” como bode expiatório em relação ao ouro roubado pelos nazis na 2ª guerra mundial. (Uma metáfora feita por Wilson, estabelecendo uma paralelo com tudo o que se passou neste país a partir da década de 90…)

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12/06/2008 at 8:48

A ARMADILHA DA GLOBALIZAÇÃO. LIVRO.

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O livro chama-se “A armadilha da globalização – assalto à democracia e ao bem estar social”.

A-GLOBALIZAÇÃO - LIVRO

Editora Terramar

Autores: Hans Peter Martin e Harald schumann. De Schumann Encontram-se páginas em alemão. De Peter Martin encontram-se várias como Esta:
De Martin está também disponível online uma boa entrevista em inglês

Em 1998, um jornalista austríaco (H. P. Martin) e um alemão (H. Schumann), escreveram em conjunto um livro chamado a “Armadilha da globalização”. Sub titulo: o assalto à democracia e ao bem estar social.

O livro, em todos os seus aspectos é aterrador, precisamente porque é convincente. ( Nos dias de hoje em alguns aspectos já está datado, mas mesmo assim é válido)

Descreve-se de forma precisa, quais é que são as decisões, e as ideias de decisões a tomar que estavam a ser discutidas naquela altura, pelos gestores de topo e políticos do mundo. O que se chama(va) “globalização” e como era visto em 1997/1998.

Página 10:

”na nossa empresa, cada um pode trabalhar tanto quanto queira…” … os governos e as regras por estes impostas ao mundo do trabalho perderam todo o significado…”contratamos os nossos empregados por computador, eles trabalham por computador e são despedidos por computador“.

Algures no diálogo do texto, David Packard, o co-fundador da Hewlett Packard (produção de impressoras e computadores) faz uma pergunta a Jonh Cage da Sun Mcrosystems:

” …– de quantos empregados necessitas verdadeiramente, John?“ Seis, talvez oito, responde secamente Cage. Sem eles estávamos tramados…” – E quantas pessoas trabalham actualmente para a Sun systems? Gage responde:- …” Dezasseis mil. Tirando uma pequena minoria são reservas de racionalização.”

Não se ouve o mais pequeno murmúrio na sala: para os presentes, a ideia de existirem legiões de desempregados potenciais ainda insuspeitos é algo de obvio. Nenhum destes gestores de carreiras, que auferem chorudos salários, provenientes dos sectores e dos países de futuro, acredita ainda que se possa vir a encontrar, nos antigos países e em todos os sectores, um numero suficiente de empregos novos e correctamente remunerados nos mercados em crescimento, com o seu grande consumo de tecnologia.-no próximo século, para manter a actividade da economia mundial, dois décimos da população activa serão suficientes.- Mas e os restantes? Será possível imaginar que 80% das pessoas que desejam trabalhar não vão encontrar emprego?

– Não há duvida que os 80% restantes vão ter problemas consideráveis, afirma o autor norte-americano Jeremy Rifkin que escreveu o livro “The end of work…”

A Sun Mycrosistems é a maior empresa do respectivo sector de actividade na área de produtos informáticos ao nível de redes, servidores de computador, quer pequenos, para entrada de gama, quer gigantes, e a tudo isto acresce os respectivos códigos informáticos para servidores, a um ponto tal que esta empresa tem capacidade comercial, técnica e financeira para se bater contra a Microsoft.

Na quota de mercado dos servidores de computador a Sun conseguiu sempre vedar o controlo do mercado à Microsoft. E incentivou e incentiva projectos gratuitos nas ares onde pode atingir a Microsoft, como por exemplo, o Open Office.

É uma empresa de informática pesada, na pratica funcionando com um sistema operativo próprio na área de redes e servidores chamado – linguagem JAVA – que serve para abrir programas específicos que dela necessitam. É uma linguagem de código aberto – quem tem conhecimentos da linguagem pode programar nela.



Surge definido no livro o conceito de Tittytainment. Em baixo do lado esquerdo, temos (uma) a versão portuguesa de tetas e entretenimento.

floribomba-tittytainment: também a expressão tittytainment, proposta pelo velho rezingão que é Zbigniew brezinsky e fez carreira…… Segundo brezinsky, tittytainment é uma combinação das palavras entertainment e titts (entretenimento e tetas), um termo de calão para designar os seios.

Mas Brezinsky não está tanto a pensar no sexo, mas antes no leite que escorre dos seios de uma mãe que amamenta.

Segundo ele, uma sábia mistura de divertimento estupidificante (Exemplo: Floribela, Morangos com açúcar) e de alimentação suficiente permitiria manter de bom humor a população frustrada do planeta.””

” Impassíveis, os gestores debatem as dosagens aconselháveis e perguntam-se como poderá o afortunado quinto da população ocupar o resto supérfluo dos habitantes do globo.

A crescente pressão da concorrência não permitirá às empresas que participem desse esforço social. Portanto, outras instancias deverão ocupar-se dos desempregados.

Os participantes no colóquio contam com um outro sector para dar sentido à existência e garantir a integração: o voluntariado a favor da colectividade, a participação nas actividades desportivas mediante a atribuição de uma remuneração modesta, o que ajudaria milhões de cidadãos a serem conscientes do seu próprio valor», opina o professor Roy.

(Nota lateral: é pelo que está acima descrito que sou completamente contra o voluntariado)

Os patrões dos grupos industriais estão à espera de que, a breve prazo, nos países industrializados sejam postas pessoas a varrer as ruas por um salário praticamente nulo ou que haja quem aceite um emprego de criado a troco de um miserável alojamento. Página 10/11

Página 19.

“Os derrotados tem voz e hão-de servir-se dela. ”

Há cada vez mais eleitores a tomarem à letracartaz PNR -basta de imigração as fórmulas dos advogados da mundialização. Não é entre nós que há que procurar responsáveis, a culpa é toda da concorrência estrangeira: eis o que se apregoa aos cidadãos de um telejornal em cada dois – frases pronunciadas exactamente por aqueles que se espera que defendam os interesses da população.

Entre este argumento – economicamente falso – e uma franca hostilidade contra tudo o que é estrangeiro medeia um passo, que rapidamente foi dado. Desde há muito tempo que milhões de cidadãos, das classes médias, desestabilizados, procuram a salvação na xenofobia, no separatismo, no afastamento relativamente ao mercado mundial. Os excluídos respondem com a exclusão.

Faça-se a comparação com o discurso que tem estado a ser sistematicamente propagandeado em Portugal de há 10 anos para cá.

Quem está a ler isto irá fazer parte dos 80% que irão ser excluídos ou não?

Quem está a ler isto, analise o discurso do actual partido socialista (…frases pronunciadas exactamente por aqueles que se espera que defendam os interesses da população) no governo quando se diz que a culpa a culpa do fecho de uma fábrica é da concorrência estrangeira (Globalização).

Ou na tradição portuguesa, relacionada com os sindicatos que resolvam não aceitar baixas insuportáveis de ordenados dos seus filiados?

Quem está a ler isto deve fazer o esforço de reparar na especificidade do caso português. As coisas não acontecem por acaso.

FEIRA DE EMPREGO TECNOLÓGICOExistiu uma recente feira de emprego tecnológico e científico. Mas…não houve porque em mais de 100 empresas contactadas por quem organizou o evento só duas responderam ao convite.


É claro que amanhã (um amanhã sem data marcada…) a culpa será assacada aos funcionários públicos porque (pretexto) não aceitam ir para o quadro de excedentes(por exemplo).

A sociedade de excluídos através destes sinais subtis (as empresas não querem cientistas ou candidatos a cientistas mas sim empregados de mesa) está aí.

Todos estamos a ajudar isto simplesmente pelo facto de fecharmos os olhos e julgarmos que, individualmente, nos vamos safar.

Com percentagens em jogo, segundo a lógica do conceito apresentado no livro a “Armadilha da Globalização”; de 80% – 20% não fico tranquilo nem por mim nem por todos os outros, quer os que “ganham”, quer os que “perdem” .

A única percentagem aceitável é 100% de êxito. Não divisões de 80-20%.


Após ter sido aplicado como argumento de venda ideológico e económico, o conceito segundo o qual, o desenvolvimento tecnológico, a valorização da competição e da livre iniciativa, apoiadas no primado da lei, iriam resultar e levar a humanidade para novos patamares, “isto” é o que temos.

O actual capitalismo está a gerar nem emprego nem desenvolvimento económico, só crescimento económico-financeiro. Pela primeira vez na história do capitalismo ele é incapaz de gerar emprego.

Então para que serve o capitalismo? Para que serve um sistema cujos principais objectivos estão a falhar? ?

Todos os países que importaram o modelo de capitalismo americano – chamado também de globalização – na parte económica e social, estão a ter inúmeros problemas.

Essa importação cria danos sociais e económicos tremendos às populações ou países que adoptaram isto.

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09/06/2008 at 14:35

IMRE KERTESZ, Livro “Sem Destino”.

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Tipo: Livro ” Sem destino”.

O autor: é Imre kertesz – prémio Nobel da literatura de 2002.

Pagina editorial Presença aqui.

Bbc a falar de Kertesz -2002

Entrevista de Imre Kertesz, em 2004 , no Harriman Institute, a não perder.

De passagem e pela amostra deste livro o prémio Nobel atribuído é inteiramente merecido. É um escritor de uma densidade fantástica, imensa, capaz de escrever de forma poderosa, mas sempre contida.

——————

Quanto ao livro Kertesz publicou originalmente este livro pelos idos de 1975 na Hungria.

IMREKERTESZ-SEMDESTINO

O tema do livro é o Holocausto ( kertesz é judeu húngaro) e retrata a vida do personagem ” Koves Giorgy ” – um rapaz de 15 anos que vivia numa determinada zona de Budapeste em meados de 1943.

O livro descreve a vida de Koves, da família e dos seus amigos, a inocência e a pureza da vida naqueles tempos – para um rapaz de 15 anos.

Um dia é arrebanhado pelos nazis e autoridades locais, conjuntamente como uma série de colegas seus de trabalho à saída do mesmo e mandado para um campo de concentração. Antes já tinha sido arregimentado para trabalhar à força numa fábrica. Apenas porque o “poder” o queria fazer.

Depois, por comboio, é levado, respectivamente para Auschwitz, Buchenwald e Zeitz. – 3 Campos de concentração embora só dois deles sejam sobejamente conhecidos.

O livro acaba por transformar-se na descrição extremamente ritmada; da história de um ano e meio – que parece uma vida inteira- feita pelo rapaz de 15 anos – Koves Giorgy num livro de 180 páginas.

Confesso que parece um milhão de anos e não ano e meio.

E um milhão de páginas tal a intensidade da escrita de kertesz. O livro como o próprio autor indica não é autobiográfico, embora, como ele também salienta, existam partes em que ele foi à gaveta das recordações, das suas próprias recordações e retirou de certos compartimentos da sua mente algumas partes.

A cadência e ritmo da escrita ( da narrativa) do livro parecem baixas e suaves, mas posso indicar que não são e que o livro é absolutamente alucinante em termos de sensações e muito duro. Embora seja escrito de uma forma “suave “ com uma intensa doçura e quase ternura na escrita, tudo é muito perturbante e duramente poderoso para assimilar, precisamente por chocar, quer com a nossa sensibilidade actual, quer em relação às descrições que kertesz faz pela boca do personagem principal e de outros personagens de inúmeras situações.
Kertesz demonstra e faz perceber muito bem, a quem lê, qual era exactamente, a mentalidade predominante à época e é isso que é aterrador, porque verificamos que só passaram 70 anos.

Desde logo porque se apreende que é impossível (que nós leitores, apreendemos que) algo como aquilo ter acontecido (o holocausto) se não existisse um “apoio social” tácito, pelo menos, da maior parte da população para se predispor a aceitar o envio de pessoas (cidadãos do seu próprio país) para um (qualquer) campo de concentração.
Depois é a aceitação passiva, o indiferentismo mesmo das próprias vitimas que deixa qualquer um perplexo ao aperceber-se disso mesmo pela leitura.

  • Também o facto de acharem que andar pela rua com um sinal de identificação amarelo como sendo judeus não era nada de mais. Isso indica que o conceito de discriminação com base em raça (ou outra coisa qualquer) não era assimilado pelas pessoas como sendo algo de profundamente mau.
  • A ideia de respeito aos alemães, de respeito ao poder do alemães, o viver-se a vidinha do dia a dia como se nada se passasse e não houvesse guerra.


Só para dar um exemplo. O livro começa contando como o pai de Giorgy Koves a fazer “um negócio” com o Sr. Suto – o guarda livros – que também era judeu, mas tinha arranjado um esquema para não andar de estrela amarela.

Negócio esse que consistia na compra “semi fictícia ou simulada” do negócio do Sr. koves sénior, feito pelo Sr. Suto, para, desta forma, se impedir que esse “património” fosse confiscado pelo “Estado Húngaro”. Isto estava a ser assim feito porque o Sr. koves ia para o “campo de trabalho” (o metáfora para “campo de concentração”) e estava, assim, a salvaguardar o património para a sua família.
Percebe-se, aqui e desde logo que o discurso da “raça” e da “culpa dos judeus” ( ou de outros quaisquer…) não era só isso; não valia só pelo seu valor facial.

  • Consistia, antes de mais numa forma de legitimar um roubo de património; património esse que, por sua vez era usado, isto é, reconvertido para o esforço de guerra nazi.

Pagina 10:
“Após um silêncio, o meu pai disse: pois bem, ficamos mais leves – a minha madrasta, com voz ainda embargada, perguntou-lhe se não teria sido melhor aceitar o recibo do senhor Suto. Mas o meu pai respondeu que tais recibos não tinham qualquer «valor pratico», além de ser perigoso esconde-los do que ao próprio cofre. E explicou-lhe: desta feita, «é preciso jogar tudo num única cartada», dado que, por agora não nos resta alternativa.””

Pouco tempo após o negócio simulado e o pai ter sido deportado a escola acaba. E Giorgy Koves é obrigado a trabalhar.

Pagina 23:
“Desde há duas semanas, também sou obrigado a trabalhar. Notificaram-me em papel oficial que eu estava «afecto a um emprego fixo» estava endereçado «Ao jovem aprendiz auxiliar koves giorgy», e vi logo que ali havia mão da União das Juventudes.”
—–………….——
O local de trabalho é em Csepel, numa sociedade cujo nome é «Refinarias de petróleo Shell». Desta forma, acabei por gozar de uma espécie de privilégio, pois é proibido sair da cidade com a estrela amarela.”

Repare-se que, como Kertesz nos consegue demonstrar pela força da sua escrita que não existe a ideia de injustiça ou de discriminação pelo simples facto de ter que se andar com uma estrela amarela na lapela e se ser proibido de sair de uma cidade, ou de se ser obrigado a trabalhar pelo Estado, aos 15 anos, tendo que sair para isso da escola.

  • Primeiro o Sr. koves sénior é espoliado, ” legalmente”; depois existe a descrição da vida simples de um miúdo de 15 anos e da vizinha que é sua namorada e depois um dia, subitamente o miúdo de 15 anos é levado para os campos de concentração.

——–

Os judeus deportados são levados de comboio. 80 Pessoas por vagão durante 3 dias sem agua e apenas pequenas quantidades de comida – como gado. Pessoas idosas morrem pelo caminho. O primeiro destino é Auschwitz.

Também existe a descrição pormenorizada de como Georgy Koves (e todos os seus colegas) são, na estrada, à saída do trabalho trazidos para os comboios que os levam para o campo de concentração e de como alguns dos seus colegas de fábrica insistem que são operários especializados e que os guardas estão a cometer um erro.

  • Kertesz demonstra muito bem, que as pessoas naquela sociedade, nem sequer tinham a noção concreta da injustiça, da maldade extrema, da discriminação que tudo aquilo constituía. Eram cidadãos condicionados dentro de uma dada sociedade, mas mesmo assim defendiam a “ legalidade” dentro de um sistema de força que os oprimia e os tratava como não humanos ou sub humanos. Como produtos nojentos e descartáveis.
  • Tudo isto é escrito com “uma calma” e uma ausência de ódio na escrita, digamos assim, que assusta pela profundidade em que é feito. É como um aríete que bate com força na mente de quem lê, mas ao mesmo tempo não existe força nenhuma a bater. Um livro duro e poderoso mas dócil e suave ao mesmo tempo; que parte, bate e chama a atenção para o mal puro e a sua materialização nas vidas de pessoas simples e mentalmente inocentes.

Acima de tudo o que gera impressão é a ” ignorância” que Imre Kertesz descreve. Uma sociedade que aconteceu há, somente, 70 anos, que não entendia / apreendia sequer conceitos básicos como discriminação e liberdade.

Repare-se, neste pormenor descrito na viagem – página 55:
Um guarda húngaro puro, pede pela última vez, no comboio, aos judeus que iam para o campo de concentração se tinham pertences. E pela última vez, que os dessem aos guardas. E apela ao patriotismo deles (que iam para um campo de concentração com a conivência do próprio guarda húngaro e da própria sociedade) para lhe darem os pertences:

“ – Desejava, na circunstância, dirigir-nos um apelo, uma prece, por assim dizer. Desejava que quem ainda tivesse algum dinheiro ou objecto de valor lhos entregasse – lá para onde vão argumentou –, não precisam de coisas de valor.

E os alemães iriam tirar-nos o que ainda tivéssemos connosco, assegurou. – Então não seria melhor – acrescentou, espreitando pela janela – que ficassem em mãos húngaras?

E depois de um curto intervalo, que eu avaliei como solene, juntou, num tom de voz repentinamente caloroso e quase confidencial, como se quisesse rasurar tudo com um véu de esquecimento, com o perdão: – Pois são húngaros, afinal de contas.

Um dos prisioneiros tenta regatear a entrega de objecto de valor pedindo agua e comida.
A resposta é a seguinte:

“…e ele mostrava-se disposto a fazê-lo, embora fosse, disse «contra os regulamentos». Só que não há acordo, porque a voz queria, primeiro, a agua e o guarda queria, primeiro, as coisas, e ninguém queria ceder. Por fim o guarda sentiu-se melindrado: – Porcos judeus, que fazem negócio com as coisas mais sagradas!

  • Na legitimação do roubo e corrupção eram todos «húngaros», no simples regateio por água para 80 pessoas comprimidas num vagão eram todos porcos judeus.
  • Isto demonstra a mentalidade de ódio que existia, a mentalidade de roubo descarado e corrupto que existia, a normalidade desse acto e o puro mal à solta e que kertesz descreve muito bem.

Por razões que Giorgy Koves não percebe apenas passou 3 dias completos em Auschwitz. É depois transportado de comboio para Buchenwald. Kertesz / Koves descreve os prisioneiros de Buchenwald como ” melhores “ que os de Auschwitz e a paisagem mais bonita bem como a comida ser melhor.

Descreve um diálogo de 1 prisioneiro pedindo-lhe, estando já ele no campo de Zeitz, que ele descreva se Buchenwald ainda está como ele a conhecia quando lá tinha estado. Isto é – representa – a despersonalização completa da pessoa, que, apesar de ter passado horrores; ainda acha forças para querer saber onde e como estava o sitio péssimo para onde o tinham mandado.
Descreve ainda como os”altos dignitários” – prisioneiros a quem tinha sido dado o comando de algumas áreas dos campos, muitos deles judeus – e de diferentes nacionalidades, e como se comportavam, e eram vistos com deferência pelos restantes prisioneiros – página 97 .

“Só em Zeitz percebi mesmo que o cativeiro tem a sua rotina, que o verdadeiro cativeiro não passa, no fundo, de um quotidiano cinzento.
…—…
“Não tardei muito a perceber que as opiniões favoráveis ouvidas ainda em Auschwitz acerca da instituição dos “Arbeitlager”, se baseavam, forçosamente, em informações exageradas.”

A ingenuidade dos prisioneiros europeus de várias nacionalidades – e a completa insensibilização a que tinham sido submetidos leva-os a caracterizar com melhores ou piores os campos de concentração, sem que verem que tudo era, na realidade mau – o mal em estado absoluto.

Pagina 102
“Mas também entre eles eu via o mesmo esforço, a mesma boa vontade: só pretendiam ser bons prisioneiros”.

Pergunto: o que é um bom prisioneiro num campo de concentração que foi para lá enviado por questões raciais e de nacionalidade e para morrer como um cão?

Na pagina 58, que não vou transcrever porque o dialogo está bastante entrecortado por expressões em alemão, Giorgy Koves encontra em Auschwitz prisioneiros alemães, daqueles que já lá estavam provavelmente antes da guerra.

Estes avisam-no que não deve dizer que tem menos de 16 anos, e que no grupo onde Giorgy Koves vinha, não existem irmãos, nem acima de tudo existem irmãos gémeos, sem que o personagem Koves perceba – inicialmente – isto muito bem.

  • Posteriormente e à distância sabemos exactamente porquê.

Se existissem gémeos, ou irmãos, ou doentes, seriam usados em experiências medicas por aprendizes do Dr. Mengele ou pelo próprio, e os prisioneiros alemães avisam desta forma os recém chegados para não se descaírem a dizer a verdade dado que isso poderia significar um destino ainda mais duro e uma morte mais rápida.

Mas a forma como isto está escrito é que é notável, dado que nos dá uma dimensão do que é o mal absoluto criado, feito e desenvolvido de forma organizada (se é que o mal pode ser bem organizado).

O livro começa-se a ler “bem” de início, mas, à medida que se avança começa a provocar um desconforto e uma inquietude muito fora do comum. Mas kertesz é de um estilo diferente e provoca o desconforto a longo prazo, ao retardador, digamos assim…

  • Um poderoso aríete escrito, por alguém que viu o mal em toda a sua forma pura.
  • Um poderoso livro contra o totalitarismo.

Written by dissidentex

08/01/2008 at 0:48