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MARX E OS ERUDITOS.

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Notícia do Jornal de notícias, de hoje, dia 15 de Outubro de 2008.

É uma notícia que revela o pior do jornalismo, e o pior das sociedades europeias.

O pior do jornalismo, porque além de ser uma notícia totalmente ridícula sobre um não facto – “um suposto ressurgimento de Marx” – através do aumento das suas obras, é também uma notícia mistificatória.

Ao que julgo saber, mas posso estar enganado, Marx, numa das suas obras, chamada “O capital” onde refere a autodestruição do capitalismo e muitas outras coisas, escreveu-a em inglês, russo e alemão, salvo erro, e consiste em 18 volumes.

É uma coisa assim a dar para o extenso…

1500 exemplares este ano, na Alemanha, um país de 80 milhões de habitantes… De facto Marx está aí pujante…( alguém deve ter alguma estante vazia para ornamentar com livros de capa dura…)

Depois o que ainda é mais patético a julgar pela notícia, é o facto de “uma nova geração de eruditos” (que espécie rara e mitológica será esta que vem aí?) reconhecer que as premissas neo liberais não se realizaram.

Que novidade. Ninguém tinha reparado. Somos umas bestas elevadas ao quadrado.

Somos informados, que não percebemos nada que se passa. É uma nova geração de seres sobre humanos, criaturas voadoras do espírito e, pasme-se, “eruditos” que nos diz aquilo que todas as pessoas já observam todos os dias com efeitos concretos péssimos nas suas vidas.

Que o neo liberalismo económico como filosofia política e económica aplicada à sociedade é uma enorme vigarice com custos pesados para quase todos.

E os eruditos, concerteza eruditos que julgam que o mundo só tem 40 anos, não contentes por terem dado o benefício da dúvida ao neo liberalismo económico, decidiram agora voltar a pegar no marxismo como nova fonte de inspiração.

A droga mais recente falhou, volta-se à droga mais antiga. Pode ser que “o rush” seja mais forte…

Pobres coitados, e pobres de nós se estes eruditos chegarem a lugares de responsabilidade e poder. Qual é mesmo a credibilidade destes eruditos?

Uma das coisas que estes eruditos deveriam fazer era dizer à pseudo jornalista que assina CMJ no fim do artigo, que MARX nasceu no século 19 ( lá está, temos aqui mais uma criatura que julga que o mundo terá só 4o anos…) , que nós estamos no século 21, e que uma simples consulta à wikipedia, se verificará que Marx nasceu no dia 5 de Maio de 1818.

Apenas 100 anos de diferença. Pouca coisa.

Portanto, agora temos que aturar crises de redenção de idiotas “eruditos” que acham que mudando de opinião com um duplo salto mortal passam do liberalismo económico mais abjecto para o marxismo. Isto é como saltar do tacho para a frigideira…

E citemos Zygmunt Bauman, no artigo “Livro – Globalização:as consequências humanas” para demonstrar o que é esta notícia de jornal, ou, seja o que é que representa a materialização do conteúdo da notícia, em termos do significado, do acto que ela reflecte.E o acto/significado tem a ver com sentimentos difusos e controlo…

Digo eu por interposto Bauman, o seguinte:

“…E é relacionado com um sentimento difuso, mas real de que “tudo está a fugir ao controlo”.

(1) Fugindo ao controlo é a tradução da palavra (2) Globalização. E Bauman questiona se deveremos ser Globalizados ou Universalizados.

Define o que era Ordem (antes) e um Estado dotado dela:

...”ordenar um sector do mundo passou a significar:estabelecer um estado dotado de soberania para fazer exactamente isso. (Define a concepção de Max Weber como o Estado sendo o agente que tem o monopólio dos meios de coerção…)

Mas explica que, com a actual morte ou tendencial morte do Estado soberano, despido de muitas das suas “capacidades” de impor ordem dentro do seu espaço, isso – paradoxalmente – gerou Estados que tentam desistir dos seus direitos soberanos, mas de forma não forçada.”

Outra maneira de ver as coisas é perceber que ” Os eruditos” que andam a adquirir obras de Marx em quantidades industriais (isto é uma ironia) estão a ter um sentimento difuso de “perda de controlo”. Como estão a ter esse sentimento, para eles “não familiar e desconhecido”, (e a possibilidade de perdas materiais substanciais) sentem medo e o medo leva-os a procurar a antiga droga de que ouviram falar pelos mais antigos, mas de cuja ideia já tinham abandonado de poder vir a usar; para usufruírem da nova: o neo liberalismo económico.

É um misto de medo e perda de sentimentos de identidade intelectual, (e poder e prestígio) com a tentativa de ganhar “vantagem comparativa” no novo mundo que julgam poder estar a vir aí.

É mais ainda por isto que estes eruditos são detestáveis. Não interessa se as teorias (as drogas) são boas e eficazes ou más e ineficazes, mas sim se os eruditos tem poder dentro de um qualquer dos dois sistemas a adoptar.

Prostitutas são mais honestas que estes eruditos.

A novidade é que já sabemos o que se irá passar para a semana.

Teremos uma nova notícia: “a obra de Max Weber, e as suas concepções do Estado e da sociedade estão de novo a ser vendidas como chocolates ou pãezinhos quentes. Até existe mesmo uma empresa que decidiu comercializar aspirinas Max Weber.

Written by dissidentex

15/10/2008 at 23:23

LIVRO – GLOBALIZAÇÃO:AS CONSEQUÊNCIAS HUMANAS – ZYGMUNT BAUMAN

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Artigo Extenso

Livro de Zygmunt Bauman, sobre a globalização, fornecendo-nos um “mapa”sobre a mesma. O livro é, em alguns aspectos ligeiramente datado, mas, apesar disso, resiste ao tempo e ajuda a explicar muita coisa.

Edição Brasileira. JORGE ZAHAR Editores, uma editora Brasileira, 1999, 146 páginas.

É um livro que apresenta uma perspectiva da globalização, mas orientado para mostrar várias dimensões da mesma. Olhando para a época em que foi escrito e olhando para a realidade actual torna-se um exercício curioso de análise comparativa do que era uma certa visão, e do que é o mundo actual.

TEMPO E CLASSE

No primeiro capitulo Bauman analisa a ideia de mutabilidade, mudança, alteração na percepção de como nós actualmente vemos o tempo e o espaço em plena era de Globalização.

  1. Como isso influi na organização social;
  2. Como é visto o tempo e o espaço por diferentes classes sociais e profissionais.

Tal “visão” leva ao conceito de “proprietário- ausente”;uma entidade “patronal” ou um “profissional” que já não necessita ou é obrigada (os privilegiados dentro deste novo sistema) a ficar parada geograficamente/fisicamente no mesmo espaço, antes move-se ao redor do mundo.

Este conjunto de privilegiados obteve (1) liberdade de movimentos – que origina – a (2) “não responsabilização” pelos (3) actos do que faz, precisamente pela capacidade de mobilidade dos movimentos.

Cita Albert J.Dunlap”

“…a companhia pertence às pessoas que nela investem- não aos seus empregados, fornecedores ou à localidade em que se situa” – Página 13.

Tradução: que os empregados, fornecedores, e os porta vozes da comunidade (o poder político?) não tem voto na matéria relativamente às actividades da empresa.

A mensagem não é uma declaração de intenções, mas uma afirmação de facto.

Efeitos 1: os centros de decisão foram alvo de uma guerra e essa guerra originou o deslocamento deles, para uma dimensão livre de restrições territoriais ou restrições de localidade.

Efeitos 2: os empregados são recrutados na população. Tem responsabilidades pessoais e familiares; não podem mover-se, seguindo a companhia quando ela muda de lugar. Os fornecedores tem que entregar a matéria prima e os custos locais de transporte dão uma vantagem ao fornecedor local que desaparecem assim que a companhia muda. A localidade fica onde está.

Só quem investe na companhia – tem “voz” – é que não está preso no “espaço físico”. Pode fugir às consequências dos seus actos (fechar uma fábrica num local e abrir noutro.) (Segundo esta interpretação doentia dunlapiana das coisas)

O espaço e o tempo são novas dimensões. A distância já não importa – mas apenas para os privilegiados.

A nova velocidade/nova polarização emancipa alguns seres humanos.

Alguns podem mover-se para fora da localidade – qualquer localidade – quando quiserem. Outros observam, impotentes, a única localidade em que habitam movendo-se sob os seus pés” Página 25

Pontos:

– segregação espacial entre quem está confinado e quem nada mais faz do que mover-se;

– Novas concepções de espaço e de tempo, e concepções diferentes quer seja uma pessoa que se move, ou não.

Bauman considera que essa nova dimensão/percepção do espaço e da geografia confere novas características aos processos de exclusão social:

– uma ruptura completa da comunicação entre as elites – que são extra territoriais – são “globais” e a população “normal”. Esta população é cada vez mais “localizada” e impossibilitada de se mexer.

Consequências:

A elite extraterritorial não sente os espaços geográficos onde nasceu; por exemplo, como sendo algo que lhe diga respeito. O sentido de comunidade (e de interesse pela comunidade) desaparece na elite.

Os centros de decisão (a capital, o governo, etc) estão longe, mas as consequências das tomadas de decisão desses centros de decisão caem directamente em cima das populações “localizadas” que estão impossibilitadas de se mexerem.

Consequências 2

O “poder” passa a ser livre para explorar, sem temer quaisquer tipos de consequências por fazer isso.

Bauman conclui que essa mobilidade não pressupõe que as comunidades “localizadas” tenham tolerância ou aceitação perante isto ou as desenvolvam como conceitos a utilizar…

GUERRAS ESPACIAIS

No capítulo 2 Bauman explica a batalha dos mapas. Estabelece a diferença entre poderes pré modernos e pós modernos. O estado pré baseava-se numa ideia de auto protecção das populações que se agrupavam em sítios e se protegiam de forças estrangeiras ou estranhos,da possibilidade de um ataque.

Para recrutar soldados ou colectar impostos, o Estado pré moderno quase que os pilhava aos seus habitantes. Tal também era feito para tentar uniformizar a cobrança. O Estado pré moderno privilegiava colectividades em vez de indivíduos, devido à multiplicidade de formas de individuais e comportamentos (tentando assim padronizá-las).

O mapa tinha que ser ganho e tinha que ser uniformizado, de acordo com os desejos /necessidades do Estado pré moderno.

… Um aspecto decisivo do processo modernizador foi portanto a prolongada guerra travada em nome da reorganização do espaço. O que estava em jogo na principal batalha dessa guerra era o direito de controlar o ofício de cartógrafo”. – Página 37

Isto num Estado pré moderno a fazer o salto para se tornar moderno. O espaço social tinha que estar subordinado a apenas um “mapa” (não só entendido de forma geográfica) oficialmente aprovado pelo governo desse mesmo espaço.

O que Bauman considera que existe actualmente é?

“… O ponto de gravidade na organização espacial mudou então da pergunta “quem ?” para esta outra “de que ponto no espaço?”

Introduz duas teorias:

– Michel Crozier: “os conceitos de posição dominante pela burocracia que consegue impor a sua acção a terceiros e a tornam opaca” (Ver artigo Dissidente-x: Asae e a Burocracia — Ver Asae e Rock in Rio mais o jornalismo que temos

– Michel Foucault – conceito de panoptico – “Uma torre central” onde um supervisor observa a sociedade, sem esta o ver ou sentir sem esta nunca saber se o supervisor está activo ou não. Ver artigo Dissidente-x – “Panóptico – a atracção pelo Totalitarismo”.

Escreve muitas páginas posteriores fundamentando isto e explicando por exemplo escolas de arquitectura e as suas concepções de planeamento de cidades (especialmente o arquitecto Le Corbusier).:

Explica a agorafobia: Onde antes as cidades eram construídas visando impedir estranhos de entrar, são agora construídas visando impedir estranhos de ficar, os concidadãos indesejados.

Exemplos das comunidades americanas – página 54

a suspeita em relação aos outros, a intolerância face à diferença, o ressentimento com estranhos e a exigência de isolá-los e bani-los, assim como a preocupação histérica, paranóica com a “lei e a ordem”, tudo isso tende a atingir o mais alto grau nas comunidades locais mais uniformes, mais segregadas dos pontos de vista racial, étnico e de classe.”

APÊNDICE sobre EUA – Artigo Dissidente-x chamado “Planeta americano”

No capitulo 4 – A soberania do capital – Verdu explica que os “Pais Fundadores” acreditaram na existência, isto é na possibilidade da criação de novo de uma sociedade que “rebentaria” com as hierarquias europeias – as sociedades hierárquicas de tipo europeu existentes nos séculos 17 e 18. Mas, acrescenta Verdu, tal ideia fracassou miseravelmente uma vez que, quer a passada e actual dinâmica de acumulação de capital desmente isso. O igualitarismo – ideia utópica dos pais fundadores – é desmentido pela acumulação de capital e os pobres são vistos como excrementos do sistema. Como dejectos. É uma lógica de Darwinismo misturada com sorte que existe e é considerada como sendo, realmente, a filosofia dos pais fundadores.

No capitulo 5 – O medo do crime – Verdu explica que o crime é elevado devido a desinvestimento no seu combate e prevenção, e como o sistema social é organizado de forma darwinista – isso obviamente conduz ao crime. Que serve por sua vez de oportunidade para vender sistemas de segurança (a mentalidade de empresário, de vender em comprar surge aqui) – sendo o Lar uma fortaleza. Equipada como tal……

Bauman chama ao panóptico actual, as bases de dados.

Artigos Dissidente -x

(A) Chip electrónico automóvel

(B) Relatório minoritário fiscal

(C) Médicos de clínica geral defendem cruzamento de dados

(D) Cartão electrónico escolar

Defende ainda que ao Panóptico se juntou o “Sinóptico”.

Muitos vigiam poucos. O sinóptico é global. (Os quatro posts acima indicados são um exemplo de uma mistura “sinóptico/panóptico” – de uma tendência)

No panóptico inicial, alguns habitantes seleccionados vigiavam os outros; no Sinóptico os habitantes locais vigiam os globais.

Estas concepções acima expostas levam à intolerância.Bauman tenta explicar as causas da intolerância:

…a uniformidade alimenta a conformidade e a outra face da conformidade é a intolerância. Numa localidade homogénea é extremamente difícil adquirir as qualidades de carácter e habilidades necessárias para lidar com a diferença humana e situações de incerteza; e na ausência dessas habilidades e qualidades é facílimo temer o outro, simplesmente por ser outro – talvez bizarro e diferente, mas primeiro e sobretudo não familiar, não imediatamente compreensível, não inteiramente sondado, imprevisível” Página 55

DEPOIS DA NAÇÃO ESTADO, O QUÊ?

No capítulo 3 é descrita a nova divisão entre Estado e economia. Tudo isso é relacionado, com exemplos, com as deslocalizações de empresas da Europa, para a Ásia. E é relacionado com um sentimento difuso, mas real de que “tudo está a fugir ao controlo”.

(1) Fugindo ao controlo é a tradução da palavra (2) Globalização. E Bauman questiona se deveremos ser Globalizados ou Universalizados.

Define o que era Ordem (antes) e um Estado dotado dela:

...”ordenar um sector do mundo passou a significar:estabelecer um estado dotado de soberania para fazer exactamente isso. (Define a concepção de Max Weber como o Estado sendo o agente que tem o monopólio dos meios de coerção…)

Mas explica que, com a actual morte ou tendencial morte do Estado soberano, despido de muitas das suas “capacidades” de impor ordem dentro do seu espaço, isso – paradoxalmente – gerou Estados que tentam desistir dos seus direitos soberanos, mas de forma não forçada.

  • Pretendem que a sua soberania seja dissolvida em entidades supra estatais( Exemplo, UE).
  • Existem estados ou etnias que já estavam esquecidas e que pretendem passar a ser um Estado.
  • Novas e velhas nações que escaparam a dependência da URSS, e após escaparem resolveram dissolver a sua independência na Nato e na UE.

Paradoxalmente, foi a morte da soberania do Estado, não o seu triunfo, que tornou tão popular a ideia de condição estatal.

Tal leva a situação em que o “Estado é o novo expropriado”.

Página 73 “…A globalização nada mais é que a extensão totalitária de sua lógica a todos os aspectos da vida”. Os estados não tem recursos suficientes nem liberdade de manobra para suportar a pressão – pela simples razão de que “alguns minutos” bastam para que empresas e até estados entrem em colapso”.

Bauman defende que no futuro, (Este livro foi escrito em 1998/99) irão existir cada vez mais Estados e cada vez mais fracos; (Exemplo:Kosovo) isto é, irá existir uma tendência para a existência de territórios ou populações que quererão a independência e o capital extra territorial não está contra essa tendência.

Todos tem interesses adquiridos nos Estados que são fracos, precisamente pelo facto de estes ao serem fracos poderem proporcionar irrestrita liberdade de movimento.

Pagina 75/76 – “Abrir de par em par os portões e abandonar qualquer ideia política económica autónoma é a condição preliminar, dócilmente obedecida, para receber assistência económica dos bancos mundiais e fundos monetários internacionais.

Na parte do capítulo, chamada “a hierarquia global da mobilidade” Bauman avança para a teorização segundo a qual uma ideia de substituição de Estados Fracos por entidades legislativas globais (Exemplo: ONU, UE) será algo de mau, para o poder económico.

A fragmentação política e a globalização económica são nesta acepção “aliados”.

O que gera uma “nova hierarquia sociocultural à escala planetária” – página 78 – conceito de “Glocalização”

Bauman fala dos meios de comunicação mundiais e de como a maior parte dos pobres não tem a eles acesso e de como – também – estes meios divulgam a existência de pobres num local (a Ásia, por exemplo) mas também divulgam a existência de crescimentos económicos brutais nesses locais.

É criada uma ideia de que

(SÓ A) Pobreza = a fome ( página 81)

Mas os outros aspectos complexos da pobreza são “abafados” . (péssimas condições de vida, analfabetismo, agressão, famílias destruídas, coesão social destruída ou enfraquecida)

TURISTAS E VAGABUNDOS

É um capítulo dedicado ao movimento e à noção de que hoje em dia todos estamos em movimento. Quer quando estamos fisicamente parados, quer não.

E Bauman define o que é ser consumidor numa sociedade de consumo, mas estando em movimento como esta o é.

Em como o que actualmente se pede, (1) não são exércitos de cidadãos que são produtores de bens, como numa sociedade industrial do século 19, (2) mas sim cidadãos consumidores, mas consumidores de um tipo muito especial.

O que realmente conta é apenas a volatilidade, a temporalidade interna de todos os compromissos,; isso conta mais que o próprio compromisso…”

A lógica que está por detrás é:

  1. Sente-se mal?
  2. Então, consuma qualquer coisa.
  3. Será aliviado do seu mal estar, se consumir.

É um consumidor sempre avido de novas sensações, mas enfastiado com elas mal as obtém – uma pessoa/consumidor em movimento.

(Nota. o que ajuda a explicar o sucesso da pornografia, entre muitos outros exemplos…)

Movemo-nos divididos significa que:estamos a viver num mar aberto, sem sinalização que nos indique o caminho.

Ou (1) nos alegramos com isso, ou (2) morremos de medo. A terceira opção; escolher um (3) porto seguro, não existe. Caso escolhamos um porto seguro, alguém aparece e o vai modernizar…

As duas primeiras opções não são escolhas livres.. podem ser escolhas livres ou podem ser impostas.

Página 94 – …Todo o mundo pode ser lançado na moda do consumo;todo o mundo pode desejar ser um consumidor e aproveitar as oportunidades que esse modo de vida oferece. Mas nem todo o mundo pode ser um consumidor…”

Bauman dá dois exemplos extremos disto:

  • o turista
  • o vagabundo

– O turista é um privilegiado especial que conquistou o prémio da mobilidade. O turista apenas tem a frustração de pensar que pelo facto de estar agora, aqui, neste lugar, não pode estar ou noutro lugar outro lado. O turista vive “ansioso” pela nova experiência.

  • Mas movimenta-se porque quer, como quer e quando quer.

– O vagabundo é o alter ego negativo do turista. É um consumidor frustrado. Apenas se movimenta porque é empurrado pela necessidade de experiência. E mesmo assim tem severas restrições. Os seus sonhos são apenas um emprego qualquer, uma tarefa humilhante para os turistas.

Pareceu-me que Bauman cria uma metáfora aqui, designando por turistas as pessoas com extrema mobilidade, e por vagabundos e não em sentido depreciativo, 80% dos cidadãos.

Como parece que isto é a pós modernidade – no actual contexto histórico – Bauman explica que isto apenas vai criar cada vez mais exclusão social.

Para combater a exclusão social surge a “mensagem mitológica”:

– Novas exigências e qualificações no mundo do trabalho.

Que por sua vez geram outra “mensagem mitológica” que dá como resultado:

– a estrutura educativa não consegue acompanhar a constante mudança no que se quer, relativamente ao emprego o que por sua vez gera – mais desemprego.

Existe a condição de pós modernidade, mas a exclusão total dessa condição – carimbo aplicado a inúmeras partes da população – gera uma sub classe. Indivíduos que estão fora e dentro, não conseguindo vincular-se as estruturas de comunicação, e informação, nem como produtores, consumidores ou utilizadores.

E as estruturas e “mensagens mitológicas” não resolvem o problema…

LEI GLOBAL, ORDENS LOCAIS

No último capitulo, Bauman pega em Pierre Bordieu, e na reacção visceral que este teve em 1996, quando viajava de avião ao ler as palavras do governador do banco central alemão…que disse qualquer coisa como:

“o que está em jogo hoje em dia é criar condições de confiança para os investidores”.

(o resto que se lixe,acrescento eu…e como se pode ver o resto em 2008 é “A crise financeira americana- as razões”)

Onde foram criadas “condições “de confiança para os investidores e estes rebentaram com a economia mundial”

E chega à ideia do que se quer que o Estado seja – uma unidade a duas dimensões – um Estado social Bifurcado.

Uma bifurcação:

– Estado social que prevê garantias mínimas de segurança para a classe média;

Outra bifurcação:

– Um Estado cada vez mais repressivo que ataca os efeitos cada vez mais violentos sobre e da população que esteja em condições mais precárias.

O que origina a ideia de Estado social Bifurcado é o seguinte “discurso neo liberal” – O mercado de trabalho é rígido, tem que ser flexível, dócil, maleável, fácil de moldar – transformado em variável económica:

Mas esta ideia de agilização do mercado esconde uma natureza de poder e de relação social.

O que leva à condição de assimetria, entre o lado que é alvo da condição de flexível, que não tem nenhumas opções de movimentação – está “parado” na sociedade” e o outro que decide mover-se quando e como quer.

Na parte do capítulo chamado “Fábricas de imobilidade; Bauman desconstrói o estudo citado por Bourdieu sobre as prisões da Califórnia.

Ideias base:

– A soma do dinheiro dedicado às construções e manutenção de prisões é maior nesse estado do que a soma do dinheiro destinado a todas as instituições do ensino superior.

– A prisão é usada como forma de confinamento espacial- panóptico.

O método é: o isolamento dos presos. Físico e psicológico.

A ideia é criar uma lógica social, segundo a qual, os actos que não são crimes, mas são (1) indesejados ou (2) vivem na ambiguidade dos comportamentos são equiparados a crimes. (por exemplo, o que ocupa casas vazias ser preso, ou o homossexual estar ano limite de banimento, como sentimentos “divulgados”, segundo esta lógica aqui descrita).

Daí ser “necessário” uma lógica de isolamento – isto e – de afastamento psicológico da parte do cidadão que detesta (ou julga que detesta) os actos ambíguos que não são crimes, mas que, incomodando-o, este deseja que o Estado os puna e prenda pessoas mandando fora a chave. Afastando as pessoas fisicamente e psicologicamente.

O poder económico vê nisto uma oportunidade, para capitalizar e atemorizar ainda mais a generalidade da população; quer os que são presos quer os que não estão.

Bauman avança para o terreno do concreto e oferece o exemplo da prisão americana de Pelican Bay, totalmente automatizada, e onde cada preso não tem contacto com os outros, e pouco com os guardas. Existe a dimensão de (1) panóptico, misturada com a dimensão de (2) eficiência empresarial. Que depois é utilizada como “argumento de venda” através da palavra “Produtividade”.

Notas: o panóptico inicial visava disciplinar pelo trabalho. Eram “fábricas de trabalho disciplinado”. – Página 117.

Notas: já o “Sinóptico” actual é o seguinte:

Página 119 – Outrora ansioso em absorver quantidades de trabalho cada vez maiores, o capital hoje reage com nervosismo às notícias de que o desemprego está diminuindo;através dos plenipotenciários do mercado de acções, ele premeia as empresas que demitem e reduzem os postos de trabalho.

Nessas condições, o confinamento não é nem escola para o emprego nem um método alternativo compulsório de aumentar as fileiras de mão de obra produtiva quando falham os métodos “voluntários” comuns e preferidos para levar à órbita industrial aquelas categorias particularmente rebeldes…

Nas actuais circunstâncias, o confinamento é antes uma alternativa ao emprego, uma maneira de utilizar ou neutralizar uma parcela considerável da população que não é necessária à produção e para a qual não há trabalho”ao qual se reintegrar…”

Na parte do capítulo chamada “Prisões na idade da pós correcção” são analisados os problemas em que na maior parte dos países os orçamentos prisionais aumentam e o número de novas prisões é construído.

Bauman conclui que isto é uma política estatal/ideológica definida, mas também porque o que é agora considerado como sendo “males” foi reclassificado – gerou o aumento do número de coisas consideradas como sendo “males” – e logo gerando mais pessoas passíveis de “serem presas”

(Em Portugal isto manifesta-se de forma diferente; aqui o que aumenta são as coimas e o tipo de coisas antes não abrangido pelas coimas e agora já abrangido…)

Isso gera aumentos de tensão social e a ideia de “retirada para um porto seguro (que não existe) o que, por sua vez gera mais tensão…

Na parte do capítulo chamado “Segurança:meio palpável, fim ilusório”, Bauamn afirma que reduzir a questão da segurança apenas à questão da segurança pessoal tem vantagens políticas.

Página 127 – “…O efeito geral é a autopropulsão do medo.

Página 130 “…Que por sua vez aguça ainda mais a figura ambígua e imprevisível do estranho…”

E o culminar disto é a parte do capítulo chamada “o fora da ordem”

Página 131 –” …Hoje sabemos, escreve Thomas Mathiesen”, que o sistema penal ataca a base e não o topo da sociedade…

Quem conseguiu chegar aqui e ainda está vivo, parabéns…

ASAE E A BUROCRACIA

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Este artigo é sobre a Burocracia e sobre a ASAE – a autoridade de segurança alimentar e económica – e de como esta “burocracia” especial é usada pelo governo (é este como poderia ser outro qualquer…). E usa o governo, também.

Também é sobre uma organização burocrática, que, deixada à solta e sem controlo, se autonomiza, muito mais do que devia; das estruturas que a deveriam controlar e ganha vida própria.

De como quem cria entidades destas, julgando estar a fazer uma grande coisa, ou a “lutar contra a tirania” apenas faz surgir mais um desagradável micro totalitarismo – mais uma pequena estrutura totalitária burocrática, (que se desvia do seu objectivo original) aplicada aos cidadãos e à sociedade portuguesa com os correspondentes problemas para estes.

Esta “burocracia especial” – as ideias e os conceitos que estão por detrás disto – são apenas uma má aplicação (deliberada má aplicação?) do que deveria ser uma burocracia deste tipo.

Uma outra dimensão emerge aqui: como se transforma numa “aliança” entre os interesses da (1) “burocracia especial” conjugados com (2) os interesses de poder de um “governo que se diz de esquerda”, (mas não é), e como esta burocracia conjuntamente com este governo, se tornam – na prática(3) aliados de grandes interesses económicos * – como protegem fortes (pela omissão de nada fazerem) e atacam fracos (pelo facto de agirem). A origem da imagem é do We have Kaos in the garden

No livro “Globalização, as consequências Humanas”, do sociólogo Zygmunt Bauman, na página 40, Bauman cita e elabora a partir de Michel Crozier. Isto à propósito da (1) organização administrativas das sociedades pré modernas, por comparação às (2) modernas burocracias modernas e as formas como estas se tentam movimentar e ganhar poder, e cita-se:

” ...em qualquer colectividade estruturada (organizada), a posição dominante pertence àquelas unidades que tornam a sua própria posição opaca e suas acções impenetráveis aos forasteiros – ao mesmo tempo que as mantêm claras para si mesmas, livres de pontos enevoados e seguras contra surpresas.

Em todo o mundo das burocracias modernas, a estratégia de cada sector existente ou com aspirações a existir consiste invariavelmente e de forma consistente em tentativas de desatar as próprias mãos e na pressão para impor regras estritas e rigorosas para a conduta de todos os demais dentro da organização.

Tal sector ganha o máximo de influência quando consegue tornar o seu comportamento uma variável desconhecida nas equações que outros sectores formulam a fim de fazer opções – ao mesmo tempo que consegue tornar constante, regular e previsível a conduta de outros sectores.

Em outras palavras, maior poder é exercido por aquelas unidades capazes de permanecer a fonte da incerteza de outras unidades. A manipulação da incerteza é a essência e o desafio primário da luta pelo poder e influência dentro de toda a a totalidade estruturada – antes e acima de tudo na sua forma mais radical,a da moderna organização burocrática e particularmente da burocracia do estado moderno.”

Verdadeiramente, durante os últimos 3 anos, a ASAE nada mais tem feito do que aquilo que Bauman descreve acima. Procedeu com a completa conivência e ajuda do actual governo que – incapaz de governar ou de ter qualquer tipo de ideias concretas acerca do que deveria ser governar – decidiu fazer “contratação por fora”/Outsourcing.

As pessoas que votaram neste governo julgaram que votaram para que este governasse. Obtiveram como resposta do actual governo a ideia de largar da mão/abdicação de vários sectores da administração.

Como? Através do fomento e criação de estruturas semi fantasmas (embora formalmente integradas na estrutura estatal) e totalmente a funcionarem em roda livre para fazer aquilo que seria da competência própria do governo/Estado.

Estas estruturas respondem a esta atitude “moderna” do Governo/Estado; ganhando vida própria e criando ainda mais problemas ao governo do que este teria se fosse ele a tomar a responsabilidade DIRECTA pela fiscalização alimentar ou outra. Lista de exemplos em baixo:

Por exemplo em 26 Maio de 2008, o Jornal Expresso noticiava que a ASAE , com risco da própria vida dos seus funcionários iria perseguir perigosas sardinhas e malvadas bifanas. Um novo desígnio nacional. Os critérios para tal? São internos.

Uma das exigências dos cidadãos relativamente á administração pública é a transparência. No caso da ASAE existem “critérios internos”. Cite-se Bauman de novo:

“…em qualquer colectividade estruturada (organizada), a posição dominante pertence àquelas unidades que tornam a sua própria posição opaca e suas acções impenetráveis aos forasteiros…”

“(…)A manipulação da incerteza…”

No dia 2 de Agosto de 2008, o secretário de Estado do Consumidor, um político medíocre, igual a tantos outros políticos medíocres, chamado Fernando Sarrasqueiro decidiu vir a público defender a burocracia publico/privada criada através de Outsourcing que dá pelo nome de ASAE numa entrevista institucional ao Expresso.

O secretário de Estado involuntariamente ou de forma medíocre, trai-se. Afirma que a ASAE nasce de várias culturas ( dentro da administração pública ). Isso é bom? Porquê?

A isso deve-se juntar a permeabilidade e a influência das empresas privadas ( mas não todas) a exercerem pressão para que se investigue por uns lados (provavelmente para dar cacetadas em concorrentes) e se aplique as correspondentes multas, mas não se investigue por outros.

Para simbolizar um suposto “aumento da produtividade” o secretário de Estado afirma que a ASAE produz mais notoriedade com menos pessoas. A falácia argumentativa é óbvia: ao ” atacar” tudo e mais alguma coisa com sentido de perseguição e objectivos ilegitimamente quantificados ( apesar de isso se ter falsamente negado – ver final do artigo) é natural que tais acções chamem a atenção da opinião pública e publicada. Mas no “concreto” os resultados são zero. Mais adiante demonstro porque é que são zero.

No dia 22 de Julho de 2008, saia uma notícia em que a ASAE também estava a atacar lojas de sexo. A ideia aqui é “jogar” com a relativa repulsa e desagrado que o sexo (que é associado desta forma, à prostituição) causa, em “Lojas”. As “Lojas” não são de sexo, mas sim de venda de artigos ligados ao sexo…

O que é espantoso nisto e fundamenta de forma clara aquela ideia passada para a comunicação social é a ideia que a ASAE tinha objectivos a cumprir em termos de multas a passar e fechos de lojas a aplicar. Verifica-se isso aqui.

O “aumento da produtividade” que o secretário de Estado menciona na sua entrevista está também aqui: em Janeiro deste ano existiram “X” problemas. Em Julho, os problemas em vez de diminuírem, aumentaram. Seria de esperar que as pessoas, durante o espaço de tempo que vai de Janeiro de 2oo8 até Julho de 2008, corrigissem erros.

Verifica-se o contrário: mais erros detectados.

Das Três uma: (1) ou a ASAE não fez bem o seu trabalho em Janeiro de 2008, ou (2) os donos de Lojas de venda de artigos sexuais são estúpidos que nem uma porta (não é provável) ou (3) os critérios foram alterados de forma aleatória, para justificar a aplicação de mais e mais multas.

Mais uma vez cita-se Bauman:

“…Tal sector ganha o máximo de influência quando consegue tornar o seu comportamento uma variável desconhecida nas equações que outros sectores formulam a fim de fazer opções…”

Os “outros sectores” aqui (no contexto desta explicação) serão as lojas de sexo, que viram, na prática ser introduzida uma variável desconhecida nas “equações” relativas as obrigações que tem de cumprir. É isso que explica que a taxa de incumprimento da segunda operação (em Julho de 2008) tenha sido maior que a taxa de incumprimento da primeira operação de Janeiro de 2008.

Isto configura uma lógica de extorsão, praticada por representantes burocráticos do Estado, precisamente pelo facto de as “Lojas de sexo”, dada a natureza do seu negócio, não irem revoltar-se contra esta manifesta arbitrariedade – a alteração de critérios – que a ASAE aqui faz. Preferiram ficar caladas e aguentar o prejuízo.

Isto não significa o meu apoio aos contestários da presença do Estado na sociedade, mas sim ao facto de certas áreas do Estado, terem sido capturadas por poderes ilegítimos e totalitários que agem sem transparência e fora da lei.

Um dos “critérios internos” – aparentemente – é a “rotulagem escrita em português. (Escrevo aparentemente, porque os critérios estão sempre a mudar…consoante a necessidade de mais multas e mais poder para esta “burocracia especial”). Observe-se em baixo:

Na imagem em cima tínhamos a expressão (um dos “critérios da ASAE” ?!) a falta de rotulagem em Português.

Observe-se agora um pacote de leite magro vendido a 62 cêntimos o litro, nos supermercados LIDL, desde há pelo menos 6 meses. (Noutros hipermercados e supermercados há exemplos semelhantes)

Do lado esquerdo temos a parte de um pacote de leite cujo outro lado é também igual. Ambas as faces deste pacote são iguais.

O rotulo vem todo – nestas duas faces – escrito em língua inglesa.

Do lado direito temos uma das lombadas do pacote onde vem – sempre em língua inglesa – indicada a percentagem de leite magro( 0,3) etc.

Na outra lombada vem indicados as percentagens de hidratos de carbono, vitaminas, proteínas, por 100 gramas – sempre rotulados em inglês.

Seria de esperar que o produto viesse escrito em português – já no pacote. Não vem.

É verdadeiramente espantoso e completamente desafiador da lei das probabilidades que nenhum inspector da ASAE tenha reparado na falta de rotulagem em português. Estamos perante um milagre estatístico…

Cito Zygmunt Bauman de novo:

“…ao mesmo tempo que consegue tornar constante, regular e previsível a conduta de outros sectores.”

* Penso que é constante, regular e previsível percebermos que nunca, em tempo algum, os supermercados Lidl serão incomodados por esta manifesta e gritante falta na rotulagem, porque a ASAE nunca intervirá neste assunto. Os supermercados Lidl tem poder. A conduta do Lidl ( ou de outros supermercados) será mais ou menos a de impor certas situações sem ser incomodado pela Autoridade de Segurança Alimentar e Económica.

O Lidl pode contratar advogados bons e pode ameaçar ir-se embora de Portugal. O vendedor de peixe ou o dono da Loja de produtos sexuais, não podem fazer isso.

Forte com os fracos, fraca com os fortes: Pelo menos, passamos a perceber que um dos “critérios internos”, constantes, regulares e previsíveis da ASAE é este

Cite-se de novo Bauman:

…A manipulação da incerteza é a essência e o desafio primário da luta pelo poder e influência dentro de toda a a totalidade estruturada…

Cite-se o burocrata sem controlo da tutela a explicar ao Jornal Expresso no dia 10 de Maio de 2008:

... que consistia apenas num ficheiro de trabalho com “resultados previsíveis”

… estarem fixadas num documento de trabalho tendo sido enviado a todas as direcções regionais, mas por engano…

… jura que nunca ditou resultados aos seus serviços, até porque isso seria ilegítimo…

e voltemos a recordar que “os critérios da Asae são internos…

Esta manipulação da incerteza feita por esta organização burocrática atinge também o governo – qualquer governo que vá nesta “conversa”. É a ASAE que manipula, mas é o governo que fica com o ónus desfavorável.

E quando este artigo já estava feito surgiu hoje – dia 26 de Setembro de 2008 – mais uma constatação de como as coisas são feitas – perante a apatia geral dos cidadãos. Notícia Jornal Público de 26 de Setembro de 2008.

Faça-se o amável favor de comparar a rotulagem dos pacotes de leite vendidos nos supermercados LIDL e com os vendidos no supermercado Chinês.

E pense-se nos “critérios internos” da ASAE em relação a este assunto relacionados com o que está escrito acima e perceba-se como esta “instituição burocrática” é tudo menos séria e honesta e obedece a interesses económicos e políticos do momento.

Citemos Bauman:

“(…)A manipulação da incerteza…”

O problema aqui é que esta incerteza afecta-nos a todos, e não só pelos pacotes de leite chineses.

Isto não significa que não se deva fazer fiscalização e proibir os pacotes de leite chineses.

O problema é que os critérios usados por esta “burocracia especial”, são critérios anti democráticos, não transparentes, e que funcionam ao sabor dos humores do chefe da ASAE. São critérios que tornam a posição desta estrutura burocrática opaca.

E se em vez de fiscalização de produtos alimentares esta organização fiscalizasse pessoas?

Alguém quereria sofrer na pele a imposição destes critérios (internos)?

ZYGMUNT BAUMAN, globalização, modernidade, sociedade fragmentada.

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Tipo: post com uma entrevista completa de Zigmunt Bauman,sociologo polaco, retirada informação e a ligação do blog macroscópio de 01 de Julho de 2007.

Sobre: amizade, globalização, sociedade fragmentada, ritmo de vida.

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“””Entrevista com o sociólogo Zygmunt Bauman, autor do famoso “O mal-estar da pós-modernidade”.

É impressionante a forma como o sociólogo estabelece conexões entre muitos dos temas que têm baliado muitas das nossas relações. Valerá a pena rever algumas dessas questões do nosso tempo.

Como amar em um mundo assustador?

Há anos o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, professor emérito da Universidade de Leeds e de Varsóvia, dedica-se a retratar as desastrosas consequências sociais de uma modernização que privilegia apenas uma minoria. Prestes a completar 80 anos, o autor dos best-sellers “O mal-estar da pós-modernidade” e “Amor líquido” está mais activo do que nunca: dois novos livros estão chegando ao Brasil, ambos pela Jorge Zahar Editor. Em “Vidas desperdiçadas”, Bauman faz um prognóstico assustador: o crescimento incontrolável do “lixo humano”, pessoas descartáveis ou “refugadas”, como prefere que não puderam ser aproveitadas e reconhecidas numa sociedade cada vez mais seletiva. O outro lançamento é “Identidade”, uma entrevista que concedeu ao jornalista italiano Benedetto Vecchi, em que reforça seus conceitos sobre a crise de identidade imposta pela modernização.

Em entrevista exclusiva ao jornal O Globo, 5-11-05, Bauman analisa a fluidez dos relacionamentos amorosos, compara a vida em sociedade ao “Big Brother”, critica o combate militar ao terrorismo, comenta o “jeitinho brasileiro” e nega o rótulo de pessimista: “Acredito fortemente que um mundo alternativo seja possível”, diz ele.

  • No seu livro “Amor líquido” é um sucesso comercial no Brasil. Na sua opinião, por que as pessoas têm se interessado tanto pelo assunto? Por que a idéia de durabilidade das relações amorosas nos assusta tanto?

ZYGMUNT BAUMAN: As relações amorosas estão hoje entre os dilemas mais penosos com que precisamos nos confrontar e solucionar. Nestes tempos líquidos, precisamos da ajuda de um companheiro leal, “até que a morte nos separe”, mais do que em qualquer outra época. Mas qualquer coisa “até a morte” nos desanima e assusta: não se pode permitir que coisas ou pessoas sejam impedimentos ou nos obriguem a diminuir o ritmo de vida. Compromissos de tempo indeterminado ameaçam frustrar e atrapalhar as mudanças que um futuro desconhecido e imprevisível pode exigir. Mas, sem esse compromisso e a disposição para o auto-sacrifício em prol do parceiro, não se pode pensar no amor verdadeiro. De facto, é uma contradição sem solução. A esperança ainda que falsa é que a quantidade poderia compensar a qualidade: se cada relacionamento é frágil, então vamos ter tantos relacionamentos quanto forem possíveis.

  • O senhor está casado com a mesma mulher há 56 anos (a também socióloga Janina). Há segredo para uma união duradoura em tempos de “amor líquido”, em que os parceiros são descartados de acordo com a sua funcionalidade?

BAUMAN: Quanto mais fácil se torna terminar relacionamentos, menos motivação existe para se negociar ou buscar vencer as dificuldades que qualquer parceria sofre, ocasionalmente. Afinal, quando os parceiros se encontram, cada um traz a sua biografia, que precisa ser conciliada, e não se pode pensar em conciliação sem fazer concessões e auto-sacrifício. Eu e Janina, provavelmente, consideramos isso mais aceitável do que a perspectiva de ficarmos separados um do outro. No fim das contas é uma questão de escolha, do valor que se dá a estar junto com o parceiro e da força do amor, que torna o auto-sacrifício em prol do amado algo natural, doce e prazeroso, em vez de amargo e desanimador.

  • A sociedade fragmentada que o senhor apresenta em “Vidas desperdiçadas” não estimula a individualização e o sentimento de medo ao estranho que foram apresentados em “Amor líquido”?

BAUMAN: Claro. Nos comportamos exactamente como o tipo de sociedade apresentada nos “reality shows”, como por exemplo, o “Big Brother”. A questão da “realidade”, como insinuam os programas desse tipo, é que não é preciso fazer algo para “merecer” a exclusão. O que o “reality show” apresenta é o destino e a exclusão é o destino inevitável. A questão não é “se”, mas “quem” e “quando”. As pessoas não são excluídas porque são más, mas porque outros demonstram ser mais espertos na arte de passar por cima dos outros. Todos são avisados de que não têm capacidade de permanecer porque existe uma cota de exclusão que precisa ser preenchida. É exactamente essa familiaridade que desperta o interesse em massa por esse tipo de programa. Muitos de nós adoptamos e tentamos seguir a mensagem contida no lema do programa “Survivor”: “não confie em ninguém!” Um slogan como esse não prediz muito bem o futuro das amizades e parcerias humanas.

  • Em “Vidas desperdiçadas” o senhor menciona a questão criada por “imigrantes” em busca de um Estado que os proteja e lhes dê sobrevivência. De que modo os recentes atentados terroristas nos EUA e Europa são uma conseqüência dessa “marginalização” de seres humanos?

BAUMAN: A globalização negativa cumpriu sua tarefa. As fronteiras que já foram abertas para a livre circulação de capital, mercadorias e informações não podem ser fechadas para os humanos. Podemos prever que quando e se os atentados terroristas desaparecerem, isso irá acontecer apesar da violência brutal das tropas. O terrorismo só vai diminuir e desaparecer se as raízes sociopolíticas forem eliminadas. E isso vai exigir muito mais tempo e esforço do que uma série de operações militares punitivas. A guerra real e capaz de se vencer contra o terrorismo não é conduzida quando as cidades e vilarejos arruinados do Iraque ou do Afeganistão são devastados, mas quando as dívidas dos países pobres são canceladas, os mercados ricos são abertos à produção dos países pobres e quando as 115 milhões de crianças actualmente sem acesso a nenhuma escola são incluídas em programas de educação.

  • O que o senhor acha da afirmação de alguns acadêmicos que a globalização acabou e que o momento que vivemos agora é de vácuo pós-globalização?

BAUMAN: Não sei o que esses “acadêmicos” têm em mente. Até agora, a nossa globalização é totalmente negativa. Todas as sociedades já estão abertas. Não há mais abrigos seguros para se esconder. A “globalização negativa” cumpriu seu papel, mas sua contrapartida “positiva” nem começou a actuar. Esta é a tarefa mais importante em que o nosso século terá que se empenhar. Espero que um dia seja cumprida. É questão de vida ou morte da Humanidade!

  • O que será preciso acontecer para que nossa sociedade se dê conta da armadilha que caiu em busca da suposta “modernidade”?

BAUMAN: A civilização moderna não tem tempo nem vontade de reflectir sobre a escuridão no fim do túnel. Ela está ocupada resolvendo sucessivos problemas, e principalmente os trazidos pela última ou penúltima tentativa de resolvê-los. O modo com que lidamos com desastres segue a regra de trancar a porta do estábulo quando o cavalo já fugiu e provavelmente já correu para bem longe para ser pego. E o espírito inquieto da modernização garante que haja um número crescente de portas de estábulos que precisam ser trancadas. Ocasiões chocantes como o 11 de Setembro, o tsunami na Ásia, (o furacão) Katrina, deveriam ter servido para nos acordar e fazer agir com sobriedade. Chamar o que aconteceu em Nova Orleans e redondezas de “colapso da lei e ordem” é simplista. Lei e ordem desapareceram como se nunca tivessem existido.

  • O senhor aponta uma “crise aguda da indústria de remoção de refugo humano”. É possível criar mecanismos de inclusão dos seres humanos “excessivos” e “redundantes”? A modernização implica, necessariamente, uma “lixeira humana”?

BAUMAN: Esse excesso de população precisa ser ajudado a retornar ao convívio social assim que possível. Eles são o “exército reserva da mão-de-obra” e lhes deve ser permitido que voltem à vida activa na primeira oportunidade. Os “redundantes” são obrigados a conviver com o resto da sociedade, o que é legitimado pela capacidade de trabalho e consumo. Em vez de permanecer, como era visto anteriormente, como um problema de uma parte separada da população, a designação de “lixo” torna-se a perspectiva potencial de todos. Há partes do mundo que se confrontaram com o antes desconhecido fenômeno de “população sobrando”. Os países subdesenvolvidos não se disporiam, como no passado, a receber as sobras de outros povos e nem podem ser forçados a aceitar isso.

  • Países como Brasil, Índia e China são constantemente apontados como estratégicos para o século XXI. Ao mesmo tempo, são três países com grande número de “lixo humano”, com alto índice de desemprego. Isso não é uma contradição?

BAUMAN: Certamente. Isso fica ainda pior quando os gigantes do século XXI, China, Índia, Brasil, entram no “processo de modernização”. O número de “pessoas desnecessárias” crescerá. E aí há o grande problema que mais cedo ou mais tarde teremos que enfrentar: capacitar ou não China, Índia e Brasil a imitar o modelo de “bem-estar” adotado nos Estados Unidos em uma época em que “modernização” ainda era um privilégio de poucos? Para dar vazão, seriam necessários três planetas, mas nós só temos um para dividir.

  • Um dos mais importantes compositores brasileiros, Chico Buarque de Holanda, afirmou que “uma nação grande e forte é perigosa, mas que uma nação grande, forte e ignorante é ainda mais perigosa”. Ter uma nação grande, forte e ignorante no comando do mundo como parecem ser os Estados Unidos da Era Bush não pode acirrar ainda mais o “refugo” dos seres humanos?

BAUMAN: Lamento não conhecer Chico Buarque: ele toca no cerne da questão. Até onde vai a situação de nosso planeta com um único superpoder, confundido e subjugado pela ilusão de sua repentina ilimitada liberdade? A elevação súbita dos Estados Unidos à posição de superpotência absoluta e uma incontestada hegemonia mundial pegou líderes políticos americanos e formadores de opinião desprevenidos. É muito cedo para declarar a natureza deste novo império e generalizar seu impacto no planeta. Seu comportamento é, possivelmente, o fator mais importante da incerteza definida como “Nova Desordem Mundial”. Um império estabelecido pela guerra tem que se manter por guerras. Acabamos de ver isso no Iraque, apesar de todos saberem que era óbvio que bombardear e invadir o país não aniquilaria o terrorismo.

  • No Brasil, temos uma expressão muito popular, “jeitinho brasileiro”, que representa a capacidade do povo de superar adversidades, sejam elas pequenos problemas do cotidiano ou não. O senhor acredita que há nações com seres “redundantes” que saibam sobreviver melhor do que outros?

BAUMAN: O que vocês chamam de “jeitinho brasileiro” é a maneira que a modernização nos obrigou a reagir. Um dos resultados cruciais da modernização é a dependência dos processos da vida humana pelos “jeitinhos”. Isso implica o outro lado da mesma moeda: a vulnerabilidade crescente dos legítimos modos instruídos de viver.

  • Aos 80 anos, sua produção intelectual ainda é grande. O que o motiva a continuar escrevendo?

BAUMAN: Pierre Bourdieu ressaltou que o número de personalidades do cenário político que podem compreender e articular expectativas e demandas está encolhendo. Precisamos aumentá-lo, e isso só pode ser feito apresentando problemas e necessidades. O próximo século pode ser o da catástrofe final ou um período no qual um novo acordo entre os intelectuais e as pessoas que representam a Humanidade seja negociado e trazido à tona. Vamos esperar que a escolha entre estes dois futuros ainda seja nossa.

  • Todas suas obras apresentam um cenário bastante pessimista do mundo. Temos razão para acreditar em dias melhores?

BAUMAN: Rejeito enfaticamente essa afirmação. Optimistas são pessoas que insistem que o mundo que temos é o melhor possível; os pessimistas são os que suspeitam que os optimistas podem ter razão. Portanto eu não sou nem optimista nem pessimista, porque acredito fortemente que outro mundo, alternativo e quem sabe melhor, seja possível. Acredito que os seres humanos sejam capazes de tornar real essa possibilidade.

Written by dissidentex

20/12/2007 at 10:44